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Brasil Eleições 2018

11/10/2018 | domtotal.com

Os zumbis e a eleição 'éticocida'

A escolha de um candidato não significa assumir um contrato de adesão, não é a proclamação de uma identidade.

' Na sociedade atual, marcada por ser de massa e de risco constante, passamos a contratar por adesão'
' Na sociedade atual, marcada por ser de massa e de risco constante, passamos a contratar por adesão' (Ricardo Moraes/Reuters)

Por Marcelo Kokke*

Os seres humanos em uma sociedade plural são diferentes, exercem diversos papéis na sociedade, portam-se segundo momentos e exigências das mais distintas. Mas tendemos a expandir nossa forma de agir, mesmo inconscientemente. A forma de aderir ou não a algo passou a fazer parte de nossa identidade. Na sociedade atual, marcada por ser de massa e de risco constante, passamos a contratar por adesão. Marque um “X” para continuar. Não adianta ler. É tudo ou nada. A vida é por adesão. Nossa vida é feita de contratos já feitos, já formados, só aderimos. Vivemos na era dos contratos de adesão.

E expandimos nossa forma de agir na adesão. Como eleitores, como defensores ou não de pontos de vista, estamos a nos tornar contratantes por adesão. A figura do candidato ou candidata, hoje, é mais do que o “X” do voto ou dígito da urna, passou a ser um protótipo de substituição de identidade. Na era da pós-verdade, apelos à emoção ou às crenças pessoais assumem maior impulso do que o diálogo ou a avaliação de fatos. A escolha passa a ser vista como um contrato de adesão, sem opção para discordâncias ou concordâncias parciais. O tudo ou nada impera. E este tudo ou nada cindiu a sociedade brasileira.

Podemos escolher e criticar nossos candidatos, podemos demandar mudanças de postura e conformação. A escolha de um candidato não significa assumir um contrato de adesão, não é a proclamação de uma identidade. A negação do outro deve ser evitada, ela leva ao ódio. E o ódio contemporâneo, o ódio da era dos desastres e da era da pós-verdade assume outros contornos. O ódio do passado, ainda no germinar da modernidade, remetia ao distanciar-se. Claude Lévi-Strauss pondera que o etnocentrismo em si é endógeno da humanidade, Pierre Clastres afirma que “chama-se etnocentrismo essa vocação de avaliar as diferenças pelo padrão da própria cultura”. Toda cultura, seria assim etnocêntrica, e é normal que assim seja. Só reconhecemos o sotaque do outro, nunca o nosso.

Mas a era dos desastres e a era da pós-verdade converteram a perspectiva etnocêntrica a partir do ódigo, converteram-na em etnocida, em uma vertente jamais vista antes na humanidade. O ódio não leva ao distanciar-se, mas ao aproximar-se para destruir. O genocídio está ligado à modernidade, como destacam tantos como Clastres e Copans. Na atual campanha eleitoral, o cenário de confrontação assumiu na sociedade brasileira outra conotação, pior, por incrível que pareça. A sociedade brasileira se tornou éticocida. As pessoas se aproximam de outras para o fim de destruição sob a bandeira da ética.

Se no etnocentrismo as diferenças são avaliadas pela própria cultura, para o éticocentrismo a ética do própria de um indivíduo ou grupo lhe permite julgar o restante dos outros. Mais. Permite-lhe eliminar. Adentramos em um ambiente éticocida. O ambiente da ético-destruição ampara-se em postulados tidos como imperativos para coibir tudo e todos que lhe sejam contrários. Aqui se projeta o outro como indiferente, como obstáculo, como algo sem vida, sem alma. Um zumbi. Mesmo nas telas dos filmes, walking dead que o diga, o adversário é um vazio, é ninguém, é irracional, ele em si é uma ameaça, a saída é eliminá-lo. Atirar na cabeça do zumbi não gera confronto ético.

A própria campanha eleitoral foi representada em “Zumbis em Brasília”. Mas os zumbis, sob a perspectiva éticocida, são os próprios brasileiros. Os zumbis assumem nomes opostos. Para uns, serão bolsominions, para outros, serão petralhas. Zombar do zumbi, desprezar, ofender, fustigar, nada significa, pois é um zumbi. Eles não têm alma, não tem racionalidade, são incompreensíveis. Marcaram o “X” em outro contrato de adesão.

O contexto éticocida não gera remorso, gera satisfação, quase um regozijo em conseguir demonstrar que o outro é pior, custe o que custar, afinal, a era é da pós-verdade. Mas para isso é necessário retirar-lhes a identidade e lhes preencher com estereótipos, ao invés de tentar compreendê-los e interagir comunicativamente. O que há de comum entre todos?

Tanto de um lado quanto de outro não percebem que o juízo crítico deve ser posto contra seu próprio candidato. Não assinamos um contrato de adesão que substitua nossa identidade. Devemos ser o primeiro dos críticos de nossos candidatos ou opções. Não se defende cegamente ninguém, a não ser que se queira mergulhar no ambiente éticocida. Ambos os lados precisam superar sua condição de construtores de zumbis. É necessário questionar em que medida posturas naturalizadas pela pós-verdade são em realidade mecanismos de opressão e desagregação.

*Kokke é professor da Dom Helder Escola de Direito; pós-doutor em Direito Público - Ambiental pela Universidade de Santiago de Compostela - ES; mestre e doutor em Direito pela PUC-Rio; especialista em processo constitucional, pós-graduado em Ecologia e Monitoramento Ambiental, procurador Federal da Advocacia-Geral da União; professor de  Pós-graduação da PUC-MG e professor colaborador da Escola da Advocacia-Geral da União.

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