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Religião

19/10/2018 | domtotal.com

O Sínodo e uma Igreja que escuta os jovens

Significativas mudanças no campo religioso ganham especial relevância entre os jovens, que passam a fazer suas escolhas num campo religioso mais plural.

A convocação do Sínodo revela uma importante do Papa Francisco ao compreender que a relação Igreja - Juventude
A convocação do Sínodo revela uma importante do Papa Francisco ao compreender que a relação Igreja - Juventude (Alberto Pizzoli/AFP)

 Por Vanessa Ap. Araújo Correia*

Desde o dia 3 de outubro, no Vaticano, acontece a XV Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, que se dedica aos jovens e deve propor novas orientações e inspirações pastorais para a evangelização da juventude. A sua preparação, no entanto, iniciou há mais de um ano, quando Papa Francisco propôs ouvir os jovens do mundo todo, por meio de consultas online e de uma reunião pré-sinodal, realizada em março deste ano. Os momentos preparatórios contaram também com a participação de pastoralistas e especialistas na temática e das Conferências Episcopais, resultando no Instrumento de Trabalho do Sínodo.

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Com este processo de escuta e com a própria convocação do Sínodo, o Papa Francisco comunica aos jovens duas coisas fundamentais: 1) o reconhecimento de que a Igreja não conhece os jovens de hoje, mas deseja conhece-los; 2) um modelo de Igreja que escuta, isto é, uma Igreja sinodal, como o próprio Papa definiu, salientando que “escutar é mais do que ouvir. É uma escuta recíproca, onde cada um tem algo a aprender” [1].

O Sínodo acontece num momento histórico em que a relação dos jovens com as instituições religiosas, em geral, e com a Igreja Católica, em particular, vive profundas e decisivas transformações. No Brasil, significativas mudanças no campo religioso (a diminuição percentual de católicos, o crescimento dos evangélicos e o aumento dos sem religião) ganham especial relevância entre os jovens, que passam a fazer suas escolhas num campo religioso mais plural e num contexto de crescente desinstitucionalização religiosa. Em geral, os dados censitários e qualitativos nos mostram que a religião deixou de ser para as jovens gerações a única fonte produtora de sentido de vida e as instituições religiosas deixaram de ser fundamentais como mediadoras da experiência com o sagrado.

Essas constatações, no entanto, não profetizam o fim da Igreja. O próprio Instrumento de Trabalho do Sínodo afirma que estamos diante “do surgimento de um novo paradigma de religiosidade, descrita como pouco institucionalizada e cada vez mais “líquida”, marcada por uma variedade radical de percursos individuais, mesmo entre aqueles que se declaram pertencentes à mesma confissão”.

 O que a Igreja quer com a juventude?

 A convocação do Sínodo revela uma importante sensibilidade do Papa Francisco ao compreender que a relação Igreja – Juventude é, por óbvio, de mão dupla. Isto é, a Igreja reconhece que “cuidar dos jovens não é uma tarefa facultativa, mas é parte fundamental de sua vocação e missão na história”, ao mesmo tempo em que afirma que “os jovens podem, com sua presença e palavra, ajudar a Igreja a rejuvenescer o próprio rosto”. Essa junção de intenções confere ao Sínodo mais do que um caráter utilitário, ao qual tantas vezes as Instituições recorrem ao tratar de juventude, visando fundamentalmente a sua sobrevivência no tempo, sem deixar-se tocar pelo tempo, por meio da abertura sincera às novas gerações. O Sínodo, neste sentido, pode ser mais do que um esforço para manter os jovens na Igreja e, assim, garantir sua sobrevivência, mas um esforço para manter a Igreja jovem e assim fazê-la permanecer relevante no tempo.

Isto exige muito mais do que renovar algumas “estratégias” pastorais. Muitas propostas eclesiais ofertadas aos jovens têm se baseado numa espécie de caricatura juvenil. Essa imagem superficial dos jovens leva a crer que grandes eventos, afinados com os mais cobiçados elementos do mercado cultural e musical contemporâneo são suficientes e necessários para “atrair” esse público. É verdade que, para os jovens, sobretudo os das camadas populares, as Igrejas são um espaços de sociabilidade e mesmo de lazer. No entanto, sem conhecer profundamente a realidade juvenil, proporemos apenas uma experiência de fé desconectada de outras dimensões de sua vida, momentos de alegria, emoção e algum conforto, mas incapazes de conferir respostas para suas questões fundamentais, de constituir um sentido de pertencimento comunitário e inspirar a adesão à pessoa e ao projeto de Jesus Cristo.

 [1] Discurso do Papa por ocasião da comemoração do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos.

   

*Vanessa Ap. Araújo Correia é coordenadora de Projetos no Centro MAGIS Anchietanum e coordenadora da Especialização em Juventude no Mundo Contemporâneo. vanessa@anchietanum.com.br

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