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19/10/2018 | domtotal.com

Nada será como antes

O fato é que a comunicação vem sendo revista a cada dia.

Tudo muda em função de uma notícia, um evento, um comportamento, um incidente de percurso.
Tudo muda em função de uma notícia, um evento, um comportamento, um incidente de percurso. (Reprodução)

Por Fernando Fabbrini*

Um dos slogans mais cínicos que este ex-publicitário já viu é aquele que acompanha – por determinação judicial – a propaganda de bebida alcoólica, sobretudo cervejas. Beba com moderação está escrito nos anúncios e é dito pelo locutor no encerramento dos comerciais de rádio e TV.

Ora: beber com moderação é uma frase muito vaga e discutível. Para quem bebe, creio que não tem nenhum efeito prático. Duvido muito que a turma, no barzinho à noite, no churrasco de sábado ou na beira da praia dê bola para a mensagem – obrigatória, repito - dos fabricantes. Muita gente tem como sinal de alerta e moderação o cenário girando, o estômago embrulhado e a cara feia da namorada ao lado. Mesmo assim, nem sempre recusam a próxima rodada. O consumo de álcool entre adolescentes e jovens adultos nunca foi tão alto no país. E fica a dúvida no ar: será que o produtor de bebida quer, mesmo, que seus clientes sejam moderados? Não sei não.

Já as imagens das propagandas de cigarro parecem ser eficientes. São terríveis; propositadamente asquerosas e convincentes. O universo de fumantes despenca em queda vertiginosa, empurrado pelas campanhas anti-tabaco. A sociedade aperta o cerco restringindo áreas de fumantes - e é bom que seja assim. Inacreditável que uma indústria desse tipo tenha se tornado mundial e bilionária em torno de um negócio mortal, um desastre para a saúde humana.

O fato é que a comunicação vem sendo revista a cada dia; tudo muda em função de uma notícia, um evento, um comportamento, um incidente de percurso. As redes sociais e a inteligência artificial tomam o espaço da intuição e da experiência de quem criava mensagens certeiras e “criativas”. Nada será como antes, e isto inclui também a propaganda política.

Os últimos números das campanhas no Brasil acenderam um alerta na mente dos profissionais de comunicação, principalmente entre os chamados marqueteiros. Os rios de dinheiro que corriam outrora, pagando fortunas aos então considerados gênios do marketing político, estão sendo questionados. A razão é clara, aritmética e inquietante: candidatos com poupanças modestas e recursos precários chegaram a superar em votos adversários dotados de orçamentos fabulosos.

O tempo de TV, antes considerado essencial para conquistar corações e mentes, deu zebra. Em alguns casos, minutos de sobra até funcionaram ao contrário, prejudicando o político. E teve mais: os debates ao vivo – o xodó das emissoras, de olho na audiência e no faturamento – já não pesam tanto. Estão sendo desprezados por motivos variados e pesquisas indicam que o público anda cansado disso tudo – forma e conteúdo.       

Antes do Facebook, do Whatsapp e dos celulares sabia-se que um indivíduo urbano típico recebia cerca de 700 impactos publicitários por dia – placas promocionais, outdoors, luminosos, spots de rádio, comerciais de TV. Hoje, já se perdeu a conta. O cérebro humano não suporta tantos estímulos. Filtra, rejeita, despreza. Por tudo isto, o velho e seguro caminho clássico emissor-meio-receptor virou uma barafunda cheia de percalços onde agora muitos tropeçam e poucos se dão bem.

Na beira dessa estrada, uma derradeira placa chama a atenção. Nela está escrito: “Beco sem saída”.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

EMGE

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