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Religião

19/10/2018 | domtotal.com

Papa diz que fascismo, nazismo e comunismo se repetem

Não é de hoje que Papa Francisco tem falado sobre esse revival totalitarista.

Em um clima bastante amigável, o pontífice fez questão de repetir que os padres não podem ter medo de 'tocar a ferida das pessoas'.
Em um clima bastante amigável, o pontífice fez questão de repetir que os padres não podem ter medo de 'tocar a ferida das pessoas'. (Reprodução)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*

Em suas últimas visitas apostólicas, Papa Francisco tem reservado um espaço na agenda para seus confrades: os jesuítas. Tanto na Irlanda, onde esteve em agosto deste ano, quanto na sua viagem aos países bálticos, em setembro, ele não só os cumprimentou, mas lhes confidenciou o que ele pensa em relação ao futuro da Igreja Católica. Como tais encontros aconteceram em circunstâncias bastante informais, eles não foram divulgados pelos meios de comunicação oficiais do Vaticano. Porém, um padre-jornalista chamado Antonio Spadaro, consultor do dicastério para a comunicação da Santa Sé e diretor da revista Civiltà Cattolica, dos jesuítas, registrou cada palavra.

Em um clima bastante amigável, o pontífice fez questão de repetir que os padres não podem ter medo de “tocar a ferida das pessoas”. Na mesma resposta, a qual foi dada a um sacerdote que lhe relatou o sofrimento vivido quando foi preso pela KGB, o serviço da inteligência da extinta União Soviética, Francisco destacou que as atrocidades cometidas por muitos governos na atualidade - sobretudo em relação aos imigrantes - fazem lembrar a época dos regimes totalitários.

“Quando os governos mandam de volta quem tinha conseguido se salvar (em alto-mar), os traficantes os colocam em celas onde se praticam as torturas mais horríveis. Por isso, é importante que o senhor fale da sua experiência na prisão. O povo deve saber o que isso significa. É bom que se fale. Nós, hoje, rasgamos as vestes por aquilo que fizeram os comunistas, nazistas e fascistas. Mas, e hoje? Será que não acontece também hoje? Claro que sim, e tudo isso é feito com luvas brancas e de seda”, enfatizou.

Já na Lituânia, o papa argentino demonstrou estar a par da nova onda de intransigência e fundamentalismo que se manifesta dentro do cenário político mundial. O país, que viveu o drama da ocupação soviética e da invasão nazista durante a segunda guerra mundial, foi o lugar escolhido por Francisco para lançar um alerta ao mundo:

“Peçamos ao Senhor que nos conceda o dom do discernimento para descobrir, a tempo, qualquer aumento desse comportamento pernicioso, qualquer ar que atrofie o coração das gerações que não viveram aquilo”, disse.

Não é de hoje que Papa Francisco tem falado sobre esse revival totalitarista, algo que também foi levantado pelo sínodo sobre os jovens na semana passada. Em seus discursos, o pontífice tem feito críticas indiretas aos líderes políticos que atuam no “quintal da sua casa”: os novos ministros do atual governo italiano, formado em junho deste ano. A terra que presenciou as táticas de Mussolini para atrair o apoio dos católicos e a estima do então Papa Pio XI, nos anos 30, de repente testemunha a ascensão de líderes que com o terço entre as mãos prometem a reconstrução do país através de pautas nacionalistas e “de interesse dos cristãos”. Certamente, o que o papa tem dito, provém da observação desse movimento crescente na nação que abriga o seu pequeno estado. Por outro lado, o fato de ele ser latino-americano, permite vislumbrar o quanto o povo do seu continente, dotado de profundo espírito religioso, se deixa atrair pelos discursos populistas que prometem a instauração de uma espécie de societas christiana, a eterna nostalgia medieval.  

O pontífice, que em muitas de suas falas condena o clericalismo - a fonte de toda a corrupção na Igreja, segundo ele -, certamente ficaria assustado ao ver que, na sua América Latina, atualmente, instrumentalizam até a batina para angariar votos. Através do poder do status clerical, que estabelece aquele que seria “o líder enviado pela divina providência”, se tolhe dos fiéis a capacidade de agir segundo a própria consciência: não votar no candidato escolhido pelo padre, que já está munido de todos os decretos vaticanos desmembrados do contexto e anteriores ao Concílio Vaticano II, é passagem garantida para o inferno. O discurso religioso passa a ser usado para delimitar e personificar o bem e o mal; como se, dentro do processo democrático, não existissem mais oponentes, mas arquirrivais; como se não fosse integrado por pessoas que, apesar das divergências políticas, lutam por um país melhor, mas por “ignorantes que não sabem votar” e, por isso, precisam da orientação de um “ente iluminado”.

“O populismo é ruim e termina mal, como nos mostrou o século passado [...] Populismo significa usar o povo, certo? Pensemos em 1933, depois da queda da República de Weimar. A Alemanha, desesperada, enfraquecida pela crise de 29. Então, chega um homem, e diz: ‘Eu posso’. Se chamava Adolf. Ele convenceu o povo. O populismo sempre precisa de um messias e de uma justificativa: ‘somos nós que garantimos a identidade do povo’ ”, salientou Papa Francisco em entrevista ao jornal alemão Die Zeitrendeva, em 2017.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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