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19/10/2018 | domtotal.com

They Shoot Horses, don't they?

A Noite dos Desesperados, história passada na época da grande depressão econômica americana.

A maratona desumana dura dias e dias até que o último par sobreviva.
A maratona desumana dura dias e dias até que o último par sobreviva. (Reprodução)

Por Eleonora Santa Rosa*

Mas não se matam cavalos? Sentada no metrô vindo para o trabalho, observando os semblantes de tristeza, melancolia e amargura de boa parte dos passageiros, a memória involuntária expele a lembrança de filme assistido há anos, jamais esquecido pelo fortíssimo impacto de sua temática.

Baseado no romance do escritor americano Horace McCoy (1935), adaptado para o cinema na década de sessenta, sob a direção de Sydney Pollack, foi aqui lançado com o nome A Noite dos Desesperados, história passada na época da grande depressão econômica americana.

Espécie de reality show, na tela o drama de desconhecidos, anônimos, que se inscrevem em uma maratona de dança a troco de comida, bebida e um prêmio de 1.500 dólares, com direito a trocados jogados por uma perversa plateia que se delicia frente ao ‘ringue’ dos desesperados, dispostos a tudo e expostos ao escárnio até a queda final.

Cenas contundentes e marcantes, desdobrando passo a passo a coreografia deprimida de duplas de dançarinos, a principal formada por Jane Fonda e Michael Sarrazin (numa de suas melhores performances), que, dramaticamente, evoluem em direção ao abismo, ao esgotamento sem fim. Vidas fracassadas, exploradas em sua miséria cotidiana, sem perspectiva, à deriva frente à tragédia que se anuncia.

Nesse baile macabro, onde os casais teimam em resistir, pois já não lhes resta mais nada, emergem sensíveis e compungentes narrativas de microdramas pessoais em meio à depressão econômica e ao desemprego, espetáculo grotesco explorado por um empresário mercenário e cínico.

A maratona desumana dura dias e dias até que o último par sobreviva, não sem antes passar por um percurso de humilhação e indignidade, com o acompanhamento de médicos e enfermeiras que têm a função de não deixar terminar o martírio antes da hora, mantendo os casais em pé de qualquer maneira.

Não deixa de ser este o ambiente atual do país, da televisão repleta de famigerados BBBs, da sociedade, onde as pessoas se matam de trabalhar, se matam por dinheiro, se matam por comida, se matam para aparecer nos realitys shows, se matam para não sair deles, e imaginam, ilusoriamente, que terão saída levando ao pódio principal da nação representantes da vociferação e da agressão. Na verdade, este é o caminho mais curto para o abate.

*jornalista

EMGE

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