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22/10/2018 | domtotal.com

Exemplo que vem dos confins

Perguntei a um dos funcionários mais antigos da Prefeitura como é que aquele prefeito consegue fazer tanta coisa?

Conto o milagre e escondo o santo.
Conto o milagre e escondo o santo. (Reprodução)

Por Afonso Barroso*

Conheci um prefeito perfeito. Comanda uma cidadezinha do interior, que não vou identificar por exigência dele próprio. “Falo com o senhor, mas não quero que diga meu nome nem o da minha cidade. Me faz este favor?”

Não entendi bem a exigência dele, mas tudo bem. Conto o milagre e escondo o santo.

A pequena cidade, localizada em algum ponto quase perdido nos fundos do Vale do Rio Doce, não tem mais do que cinco mil habitantes. Desde sua emancipação, há pouco mais de 60 anos, foi administrada por vários prefeitos, alguns deles muito parecidos com certos governantes dos escalões estaduais e presidenciais, ladrões refinados e desavergonhados, useiros e vezeiros em surrupiar grandes volumes de dinheiro público.

O prefeito em foco é um sujeito jovem e simples. Interiorano da gema. Criado na roça, filho de um pequeno fazendeiro que cria umas poucas cabeças de gado, não tem instrução que ultrapasse o Ensino Fundamental. Chegou à Prefeitura por indicação do primo prefeito, que fora também um bom administrador, tanto que se reelegera com facilidade. Teria sido prefeito novamente se houvesse re-reeleição. E o primo não o decepcionou. Chega a ser até melhor, na opinião de inúmeras pessoas que ouvi na cidade.

Nos dois anos e meio de administração, esse prefeito fez coisas inacreditáveis, como pagar em agosto metade do 13º salário aos servidores, e a outra metade no início de dezembro. Implantou um serviço de coleta de lixo eficiente. Conseguiu da Copasa, com interseção do deputado majoritário no município, uma segunda usina de adutora e estação de água para um bairro que surgiu na saída da cidade. O transporte escolar funciona bem nos três distritos e na zona rural. A cidade é limpa, bem cuidada e bem iluminada. O sistema de saúde é mesmo único: tem um posto onde há sempre um dos três médicos, com enfermeiras de plantão. As estradas vicinais, que levam aos distritos e às fazendas, estão sempre trafegáveis, mesmo no tempo “das águas”. Está sendo construída uma creche para acolher até 100 crianças, o que é mais do que suficiente para as necessidades do município.

No mês de julho, a cidade faz a festa dos conterrâneos ausentes, com leilões, barraquinhas, cavalgada, shows de artistas conhecidos, especialmente duplas caipiras ou sertanejas, tudo pago pela prefeitura. Em massa, o povo comemora feliz.

Antes de me despedir daquela gente hospitaleira, perguntei a um dos funcionários mais antigos da Prefeitura como é que aquele prefeito consegue fazer tanta coisa, quando se sabe que os municípios vivem quase à míngua de recursos. A resposta que ele me deu foi definitiva e esclarecedora:

“É porque ele não rouba”.

Não, não precisei da lanterna de Diógenes para achar um administrador público honesto. Deixei a pequena cidade dos confins do Vale do Rio Doce convicto de que votaria para governador ou presidente no... Epa, quase que eu disse o nome dele!

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

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