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21/10/2018 | domtotal.com

O elefante e o médico

A personalidade médica foi se deteriorando, os profissionais não se unem, nem se organizam adequadamente para exigir condições dignas de trabalho.

Como os elefantes, os médicos sempre foram respeitados pela sua enorme força moral, pela sua altivez, pela sua admirada atuação no alívio das dores e sofrimentos.
Como os elefantes, os médicos sempre foram respeitados pela sua enorme força moral, pela sua altivez, pela sua admirada atuação no alívio das dores e sofrimentos. (Reprodução)

Por Evaldo D' Assumpção*

O elefante é, se não o mais poderoso dos animais, pelo menos um deles. Seu tamanho e sua força intimidam as demais feras da floresta. Tendo uma massa corporal em torno de 5 toneladas, mede, em média quatro metros de altura e sua força é enorme. Sua tromba, que é uma fusão do nariz com o lábio superior, tem em sua extremidade duas protuberâncias com funções semelhantes às de dedos. Com ela, ele pega alimentos – é vegetariano –, aspira mais de 10 litros de água de cada vez, seja para beber, seja para se banhar. Esse apêndice, que tem tantas funções, calcula-se possuir mais de 40 mil músculos individuais, tendo força capaz de arrancar uma árvore do solo, e levantar até o dobro do seu peso, ou seja, 10 toneladas.

Com esse porte, o elefante praticamente não tem predadores naturais, exceto os grande leões. Mesmo assim quando menores ou mais velhos, uma vez que vivem em torno de 60 anos. Seu maior predador não natural, como não podia deixa de ser, é o homem, pois além da vaidade de juntar grandes troféus conquistados com poderosas armas de fogo, também recolhe o valioso marfim de suas presas, que chegam a pesar 90 quilos cada uma. E no mercado, o quilo do marfim bruto é vendido hoje, mesmo depois de uma grande queda no seu preço, a US$730,00!

Durante muito tempo acreditou-se que os elefantes, quando pressentiam a sua morte, afastavam-se da manada e procuravam lugares ocultos onde morrer, nascendo daí a lenda dos misteriosos cemitérios de elefantes. Na realidade, o que procuram são lugares mais pantanosos onde encontram alimento mais tenro para seus dentes desgastados. Contudo, fatos interessantes se relacionam à morte desses animais. Quando ela ocorre, toda a manada aproxima-se do corpo e o inspecionam com as trombas, como se prestando uma homenagem ao companheiro morto. E prosseguindo o caminho, os familiares do elefante morte seguem atrás do grupo por vários dias, como numa atitude de luto.

A história dos elefantes reportam-me à condição dos médicos em nosso Brasil, onde a cada dia se tornam mais desvalorizados e desrespeitados. Com certeza pelo péssimo comportamento de alguns, que fazem da profissão uma mera fonte de renda, sem qualquer preocupação ética ou compassiva. Por outro lado, os poderes públicos utilizam isso para explorar o trabalho desses maus profissionais, aviltando sua remuneração e explorando essa mão de obra desqualificada. Um governador mineiro disse certa vez que “médico é igualzinho sal: branquinho, tem em quantidade e custa baratinho”. E com isso toda a classe médica, excetuando-se alguns que conseguiram se desvincular dos empregos e credenciamentos – muito poucos, é verdade – padece pela sua incapacidade de criar métodos eficientes e éticos para reivindicar seus direitos.

Como os elefantes, os médicos sempre foram respeitados pela sua enorme força moral, pela sua altivez, pela sua admirada atuação no alívio das dores e sofrimentos, pela sua capacidade e disposição para salvar vidas. Todavia, seguindo a máxima de que “se o elefante soubesse a força que tem, não seria artista de circo”, a personalidade médica foi se deteriorando, os profissionais não se unem, nem se organizam adequadamente para exigir condições dignas de trabalho e de remuneração, e se enfraquecem cada vez mais. Seus poucos predadores naturais são alguns médicos mal formados, técnica e eticamente, assim como os profissionais de áreas semelhantes que invadem o campo da medicina, especialmente em áreas mais vulneráveis e rentáveis, como por exemplo a cirurgia plástica em seus procedimentos impropriamente chamados de “estéticos”, e desses, os adjetivados de “minimamente invasivos”, que encorajam aos mais afoitos a realizá-los após “aprendizado” em cursos intensivos, de poucas semanas, agravados pela irresponsabilidade de intervenções feitas em ambulatórios precários, e até em quartos e banheiros de apartamentos! Chamem a polícia!

Mas existem também os grandes predadores não naturais, como são os caçadores pesadamente armados, para os elefantes. Refiro-me aos poderes públicos e às organizações que oferecem assistência médica a seus segurados, remunerando pessimamente aos seus médicos contratados, impondo absurdos limites propedêuticos e terapêuticos sem qualquer pudor. E a classe médica se curva, aceitando tais condições por questões de sobrevivência, sem usar a

força que unidos possuem, para resgatar a dignidade profissional. Tal e qual os elefantes e suas presas de marfim, negociadas a peso de ouro e à custa da vida desses pacíficos animais.

E como os elefantes em idade avançada, também os médicos idosos se afastam dos grupos, sendo jubilados ou promovidos a eméritos, recebendo aposentadorias aviltantes e buscando paragens mais amenas, onde o alimento pode ser encontrado com menos dificuldade, e ao alcance dos recursos e forças que ainda lhes restam. E quando a morte os alcança, seus colegas se colocam em torno do corpo inerte, questionando a si próprios quando será a vez dos que ainda caminham por essa vida, em busca da realização e felicidade tão sonhadas no dia festivo de sua formatura. E cumprido o ritual funerário, todos se afastam, deixando os enlutados bem atrás, a caminhar sozinhos. Rei morto, rei posto, como dizia a mitologia grega sobre Minos.

Comemorado o Dia do Médico no dia 18 pp. quero homenagear os familiares e amigos dos médicos-elefantes tombados, que lhes deixaram uma história repleta de realizações, boas obras, sementes generosamente plantadas, frutos que darão novos frutos, e a gratidão de tantos por eles beneficiados. “Requiescant in pace!

* Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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