;
Brasil Cidades

09/11/2018 | domtotal.com

O nadismo e a solitude

A solidão depende dos outros, a solitude é um prazer só nosso.

Os amigos do nadismo e da solitude são especiais quando precisam agir e excelentes companheiros para aventuras de todo tipo.
Os amigos do nadismo e da solitude são especiais quando precisam agir e excelentes companheiros para aventuras de todo tipo. (Divulgação / Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Calma, gente: não é nudismo, com protuberâncias e membros balançando, soltos ao vento. É nadismo mesmo, do fazer nada, do dolce far niente. Começaram a usar com maior frequência a palavra – inventada por um nadista, com certeza – em anúncios de roteiros turísticos para um público especial: “Venham para a pousada tal, um paraíso do nadismo”. A atração de tais recantos é muito simples: trata-se da garantia de que não haverá ninguém lhe perseguindo, convidando para intensas atividades sociais e aeróbicas dentro e fora da piscina, escaladas de esfolar joelhos ou saraus de samba e hits sertanejos em torno de um teclado fanhoso.  

Lembro-me logo de uma rara semana de férias que passei num resort chique na Bahia, aproveitando uma promoção na baixa temporada. A paisagem era linda e o hotel deslumbrante. Tudo seria perfeito não fosse a presença dos chamados gentis anfitriões, animadores ou coisa que o valha. Desde o momento em que botei os pés no ambiente passei a ser assediado para integrar grupos de caminhada rústica, hidroginástica, arco e flecha, lições de capoeira básica, artesanato em palha, bicicletas secas e aquáticas, kitesurf, yoga sobre areia escaldante, interação com povos indígenas em risco de extinção e outras modalidades voltadas à completa exaustão do hóspede.

Que nada: não me pegaram. Inventei um mal-estar causado pelo excesso de ostras frescas com vinho espumante e me deixaram em paz, chamando-me de “um chato” pelas costas. No segundo dia, encontrei um recanto no alto do penhasco, com gramado verdinho, espreguiçadeiras e vista para os azuis fantásticos do Atlântico e do céu nordestino. Oba! Estava salvo. Ao fechar os olhos, pensei vivenciar um pesadelo absurdo: música baiana ensurdecedora ressoou subitamente das pedras vizinhas. Valei-me Filhos de Gandhi e todas as entidades do nosso rico sincretismo religioso! Não eram pedras: eram caixas de som, disfarçadas de pedras naturais, escondidas entre arbustos. Saí correndo e consegui finalmente refugiar-me à distância, praticando o nadismo – e também o nudismo, confesso - numa praia deserta vizinha, só voltando ao hotel nos fins de tarde.

Interessante também foi descobrir, outro dia, a diferença entre solidão e solitude. A primeira é incômoda e indesejada; diz respeito à sensação de abandono, de carência de um ombro amigo, de uma namorada, de alguém para desabafar. Já a solitude – que em alguns dicionários é catalogada, injustamente, apenas como um eufemismo – é, na verdade, uma opção libertadora. Busca a solitude aquele que aprendeu a construir a sua e a valorizá-la; aquele que se sente ótimo em companhia de si mesmo e vive feliz assim – sem desmerecer ninguém. Resumindo: a solidão depende dos outros, a solitude é um prazer só nosso.  

Através de minhas pesquisas particulares entre amigos e colegas, notei uma curiosidade: os praticantes do nadismo são, quase sempre, também fãs da solitude. E pouco a pouco vão alcançando um grau de sofisticação nas tais práticas que acaba por conduzi-los a um jeito muito mais light de viver. Quem faz meditação sabe bem disso. Antes de qualquer conotação mística, o exercício da meditação envolve algumas premissas na contramão da loucura diária de nossas vidas: ficar parado, imóvel; em silêncio; ouvir; deixar a mente ir onde ela quiser, respirar profundo; sentir o coração batendo e a vida ali dentro, misteriosa, fora de qualquer controle de nossa parte.  

Também percebi que os amigos do nadismo e da solitude são especiais quando precisam agir e excelentes companheiros para aventuras de todo tipo. Não é engraçado? Sabem valorizar um bom papo quando rola; mantêm um foco primoroso quando trabalham; são criativos, bem humorados e de bem com a vida. Tudo indica que nos seus retiros voluntários carregam as baterias e se enchem de energia para gastarem – bem - quando lhes dá na telha.

 Num livro sobre a vida de Albert Einstein, contam que o homem era considerado terrivelmente antissocial. Fingia aceitar todo tipo de convite para eventos como jantares, piqueniques, concertos e homenagens. Não aparecia em nenhum deles, sumia de vista por dias a fio. Talvez, já naquele tempo, ele fosse um precursor do nadismo e da solitude, esvaziando a cabeça de tolices e abrindo espaço para suas ideias geniais. E aquela famosa língua pra fora – desconfio – ele botava só para afastar gente chata.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com dois livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas