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23/10/2018 | domtotal.com

#Mangueira sim #Ele não

Quem sabe não estará no samba, com tudo que nele se deposita da beleza de nossa sabedoria, a clareza final sobre as duas propostas de Brasil que temos diante de nós.

O samba 2019 da Mangueira homenageia heróis do povo, como a vereadora carioca Marielle Franco.
O samba 2019 da Mangueira homenageia heróis do povo, como a vereadora carioca Marielle Franco. (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Por Alexis Parrot*

Às portas de uma eleição presidencial onde o preferido pelo eleitorado foi retirado de cena por manobras do judiciário e o candidato à frente hoje nas pesquisas pode ganhar o pleito - apesar da campanha suja e ilegal - por omissão do mesmo judiciário, resta claro que chegamos mesmo em um mato sem cachorro.

Mais de mil e quinhentos anos após a famosa carta de Caminha, ainda temos que ir para a rua e nos posicionar na luta pela independência, pelo fim das escravidões, por reformas de base e, em última instância, pela república.

Na hora mais escura, quando o país parece estar na direção de um ciclo trágico (a ser confirmado ou não no abrir das urnas na noite do próximo dia 28), surge um hino para demarcar a resistência contra o fascismo, o preconceito e a barbárie.

É o samba da Mangueira, escolhido para representar o enredo História Pra Ninar Gente Grande, do carnavalesco Leandro Vieira. Importante manifesto, é uma música que, mesmo tendo nascido sob o panteão verde e rosa, abraça todas as cores e todas as bandeiras que lutam por justiça social; prova definitiva que lirismo e política podem andar de mãos dadas.

Infelizmente, toda a raça e toda a força que veremos presentes no sambódromo, no carnaval do ano que vem, só serão vistas lá mesmo. Faltam à nossa televisão discussões como a levantada pela escola de samba; falta posicionamento crítico, com espaço para o contraditório e para a análise.

Se na tela não há nada disso, nos bastidores a coisa parece pior ainda. O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo acaba de denunciar pressões sofridas pelos funcionários do grupo Record (TV, rádio e portal de internet) para que o noticiário ajude Bolsonaro e prejudique Haddad.

Corroborando a denúncia, não dá para ignorar o apoio explícito que Edir Macedo ofereceu ao candidato do PSL, bem como o de sua igreja e feudo particular, a Universal do Reino de Deus.

Nem debates entre os candidatos teremos no segundo turno (para o capitão seriam "desnecessários"). É bom Jair se acostumando com a falta de diálogo e transparência que um governo comandado pelo militar reformado teria como pilares.

Mais vergonhoso ainda é o papel da TV pública no cenário: quando não invisível, partidária. Só em fevereiro mesmo, na Sapucaí, poderemos lavar a alma - mesmo sabendo que até no carnaval quem dá as cartas é a Globo.

Da mesma forma que a TV pública deveria ter o direito de transmitir os campeonatos da série A do futebol brasileiro, por que não também os desfiles das escolas de samba do Rio e São Paulo? Tanto os horários dos jogos quanto a determinação para que as agremiações do grupo especial apresentem-se em dois dias (e não três, o que seria o ideal), servem apenas para acomodar as necessidades da grade de programação da Globo.

Fica em segundo plano a realização dos jogos em horário decente para o trabalhador que deseja acompanhar seu time mas precisa acordar cedo; e a desvantagem das escolas obrigadas a desfilar já com dia claro.

Por dinheiro, permite-se que a Globo tenha o mando de campo e seja a comissão de frente das duas maiores expressões populares do brasileiro: o futebol e o samba.

Logo a Globo, cujas prioridades não incluem o que importa para o nosso povo e muito menos o compromisso com a verdade dos fatos.

Autoritária, reescreve diariamente a seu bel-prazer a nossa história no Jornal Nacional. Foi assim na semana passada, ao diminuir a importância da denúncia de caixa 2 na campanha de Bolsonaro ou ao apresentar com destaque de novidade a delação premiada requentada de Palocci contra Dilma e Lula, cujo sigilo foi quebrado às vésperas do primeiro turno eleitoral deste ano pelo justiceiro Moro.

Fake news não é apenas a notícia cabalmente inverídica, mas também toda aquela que mascara ou engana, a partir do acontecimento real. A emissora apenas replica o que foi feito durante décadas pelos donos do poder e do capital no Brasil, ao selecionar o que prefere mostrar e esconder ou remodelar o que fere seus interesses.

Assim também funciona a junta de generais que assessora o candidato Bolsonaro, com quem pretendem governar, caso o capitão assuma a presidência. Entre outras arbitrariedades, querem banir os livros didáticos de História que chamem o golpe de 64 de golpe - para eles, seriam fake news. São as vacas fardadas da vez, porém, com o perigoso status de musos de quatro e cinco estrelas.

Aplico a eles o que disse certa vez Millôr Fernandes sobre um político: "a ignorância lhes subiu à cabeça". 

Para quem venera como herói nacional um torturador, a "ousadia" mangueirense deve lhes cair como um soco na boca do estômago. E é bom mesmo que caia.

É justamente contra este tipo de dominação que se levantam enredo e samba da Estação Primeira, ao avisar que não serão mais ignorados o testemunho de vidas como a da abolicionista e revolucionária Luísa Mahin, de todos que foram "de aço nos anos de chumbo" ou o cotidiano das Marias anônimas que brigam para criar seus filhos na adversidade da miséria, da violência e do descaso do poder público.

O lindo samba, da lavra de um cortejo de compositores puxado por Deivid Domênico, cobra que sejam entronados no panteão dos heróis nacionais aqueles que caíram nas lutas genuínas do povo.

É o extremo oposto do que pregaram durante a campanha alguns políticos tristemente já eleitos e até o candidato a governador do Rio, o tal ex-juiz Witzel, que se compraziam em rasgar de público a memória e uma placa com o nome da vereadora assassinada Marielle Franco.   

Quem sabe não estará no samba, com tudo que nele se deposita da beleza de nossa sabedoria popular, a clareza final sobre as duas propostas de Brasil que temos diante de nós: a diferença entre cumprir o destino do país do futuro; ou de nos transformarmos em definitivo na Terra do Nunca.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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