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Meio Ambiente

08/11/2018 | domtotal.com

Chico Mendes - 30 anos depois: protetor da Floresta Amazônica e dos povos indígenas

Chico Mendes é considerado, até hoje, como o maior líder do movimento socioambiental da Floresta Amazônica.

Das 235 comunidades indígenas, cerca de 180, quase 77%, vivem na Floresta Amazônica.
Das 235 comunidades indígenas, cerca de 180, quase 77%, vivem na Floresta Amazônica. (alexaschmitz/ Pixabay)

Por Flávia Fagundes Carvalho de Oliveira

“Os seringueiros, os índios, os ribeirinhos
há mais de 100 anos ocupam a floresta.
Nunca a ameaçaram.
Quem a ameaça são os projetos agropecuários,
os grandes madeireiros e as
hidrelétricas com suas inundações criminosas”.
Chico Mendes.

De seringueiro e sindicalista a ambientalista ferrenho, Francisco Alves Mendes Filho, conhecido nacionalmente e internacionalmente como Chico Mendes, foi assassinado em dezembro de 1988. Considerado, até hoje, como o maior líder do movimento socioambiental da Floresta Amazônica. Lutava veementemente pela preservação da floresta, denunciava ocupações ilegais, o desmatamento desenfreado, os grandes incêndios e defendia a criação de reservas extrativistas e, sobretudo, indígenas.

Os índios são parte importante da história do país, em que a maioria das tribos está situada na Floresta Amazônica, considerada a maior floresta no globo terrestre com consideráveis espécies de seres vivos, ecossistemas e diversidade genética, ou seja, na Floresta Amazônica subsiste a maior biodiversidade tropical do mundo.

Ponto que merece atenção é que desde a chegada dos europeus no Brasil, os indígenas são considerados nativos que constituíram, originariamente, comunidades locais nas terras brasileiras, pelas quais, lutam constantemente contra a exploração, a discriminação e por direitos não reconhecidos pelo governo brasileiro. Evidentemente, esses fatores são prejudiciais ao desenvolvimento do corpo social, tendo em vista que exclui parte da identidade brasileira e estimula a intolerância sobre as comunidades dos povos tradicionais.

Pode-se mencionar que desde a formação e a oficialização da língua brasileira, os povos aborígenes enfrentam desafios em manter sua cultura em um país que valoriza o estrangeirismo e ignora a própria origem. Prova disso é o fato de classificar a língua portuguesa oficial e a dos índios apenas um dialeto. Assim, constrói-se por meio de um discurso falacioso que a cultura do homem branco é considerada rica e civilizada enquanto a das comunidades dos povos tradicionais é primitiva e folclórica.

A maior parte das tribos de índios situada na região amazônica está em áreas rurais, que em sua maioria mantém suas próprias culturas com costumes, danças, crenças e rituais. Outras estão situadas em áreas isoladas e nunca tiveram qualquer contato com outras culturas ou tribos. Hoje, no Brasil, existem comunidades indígenas em todos os Estados federados. São, aproximadamente, 235 comunidades, totalizando 180 línguas diferentes. Das 235 comunidades indígenas, cerca de 180, quase 77%, vivem na Floresta Amazônica.

Pode-se mencionar que os dialetos mais falados na floresta, são: Aruaque, Tupi, Tukano, Jê, Pano e Karib, nas tribos espalhadas dentre toda extensão da Floresta Amazônica, nos Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Tocantins.

E, dentre as comunidades mais representativas, há, no Estado do Acre, povos indígenas como a Amawáka, Arara, Deni e Nawa. Já no Estado do Amapá, há as tribos Karipuna, Palikur e Wayampi. No Estado do Amazonas, há quatro tribos que se destacam: Wanana, Korubo, Jarawara e Kambeba. Já no Pará, há Anambé, Jaruna, Kayapó e Munduruku. Em Rondônia, as tribos Arara, Aruá, Nambikwara e Tupari. Por sua vez, temos em Roraima grandes grupos indígenas como os Ianomâmis, Macuxi, Waiwai e Ingaricô e, por fim, em Tocantins, as tribos Apinaye, Guarani, Karaja, Kraho e Xerente.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na região Amazônica vivem aproximadamente 306 mil índios. No entanto, sem amparo do governo brasileiro, há comunidades tradicionais inteiras que acabam sendo dizimadas e famílias indígenas assassinadas.

Além disso, deve-se levar em conta os problemas enfrentados pelos índios, tendo em vista que os grandes latifundiários exploram e violam suas terras para ampliação da fronteira agrícola, com a exploração de terras de forma ilegal, construção e instalações de hidrelétricas, estradas de rodagem como rodovias, a exemplo da Transamazônica, que causou genocídios, extermínio de aproximadamente oito mil indígenas durante a ditadura militar, no governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, época em que se acentuaram os conflitos pela posse de terras na floresta. Tais questões foram debatidas e contestadas com afinco por Chico Mendes ao longo da sua trajetória de luta pela Amazônia e pelos povos indígenas. No entanto, com o assassinato do grande líder, a região carece de políticas públicas e de ações que combatam a exploração da floresta e defendam a existência digna da população indígena.

População esta que sofre toda a sorte de adversidade, pois os ataques aos indígenas se deram principalmente pela exploração da floresta e está relacionada por questões econômicas. Assim, o Brasil começou a sofrer a degradação ambiental gerada pelo desenvolvimento econômico desenfreado no final do século XX, época marcada pela industrialização mundial. O interior do país ainda mantinha intactas suas florestas e, desde então, as comunidades indígenas e os povos das comunidades tradicionais tiveram seus espaços ameaçados e, muitas vezes, reduzidos, no processo que foi chamado de neocolonização. Dessa forma, a Floresta Amazônica começou a ser povoada, derrubada e explorada sem nenhum controle ambiental, acarretando a dizimação de povos indígenas e afetando inúmeras aldeias. 

Outro fator agravante é que o governo, comumente, beneficia os ruralistas com projetos levianos, desamparando ainda mais os índios e as comunidades locais. Assim, observa-se paulatinamente o fim da cultura indígena pelos fatores elencados acima e, principalmente, pela falta de representatividade desse povo nativo brasileiro que vive uma luta diária pela sobrevivência e pela preservação de suas terras.  

Por esses e outros motivos, Chico Mendes foi preso e torturado em virtude da sua luta incessante contra os grandes latifundiário, e como constatado, contra o próprio governo brasileiro. O ativista teve seu reconhecimento internacional quando ele se dirigiu para Washington, nos Estados Unidos, para denunciar que a construção da rodovia que ligaria São Paulo a Porto Velho, Rodovia BR-364, que estava infringindo as normas ambientais exigidas para realização do contrato e pelo banco financiador. O Banco Interamericano de Desenvolvimento, grande financiador da obra de pavimentação, em virtude da denúncia recebida, bloqueou o projeto rodoviário.

Esses e tantos outros problemas enfrentados e combatidos resultaram na perseguição de Chico Mendes e seus aliados. Apesar de realizar diversas denúncias sobre as ameaças de morte que recebera, o ambientalista não contava quase com apoio nenhum, uma vez que o capitalismo falava mais alto.

Destarte, por defender as nobres causas ambientais, desafiando o poder dos grandes latifundiários e antepondo-se aos projetos agropecuários que ameaçavam a natureza, o grande líder das causas indígenas e da Floresta Amazônica acabou sendo brutalmente assassinado em sua própria casa, em 22 de dezembro de 1988. Trinta anos depois, a causa indígena e a situação da exploração da Floresta Amazônica continuam cada vez mais problemáticas, mas com um agravante, hoje não há um líder à altura de Chico Mendes.

*Mestranda em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela Escola Superior Dom Helder Câmara.

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