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Religião

09/11/2018 | domtotal.com

Quem canta bem reza bem duas vezes

Maria abriu a boca, a dança começou. A dança de reconhecer a presença de Deus na Mãe de Deus.

Quem canta reza duas vezes. Quem canta bem, reza bem duas vezes.
Quem canta reza duas vezes. Quem canta bem, reza bem duas vezes. (Reprodução/ Pixabay)

Por Julio Eduardo dos Santos Ribeiro Reis Simões*

Falar de cantar bem e rezar bem é falar de João Batista. Oremos!

Ut queant laxīs resonāre fībrīs ra gestōrum famulī tuōrum, Solve pollūtī labiī reātum, Sancte Iōhannēs.

“A fim de que seus servos possam com voz reboante celebrar seus muitos feitos lavai as culpas de nossos lábios manchados, ó São João.”

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Todo dia 24 de Junho, festa da Natividade de São João, os Latinos cantam assim.

E partem pra festa.

A criança estremece de alegria em nosso ventre, e junto com o ventre vai o resto do corpo nos arrasta-pé e arraial. É dia de festa junina.

A bem da verdade, o século XI de Guido de Arezzo não deve ter conhecido as festas juninas nos moldes que as conhecemos, mas certamente conheceu o canto / poema que inicia este meu textinho de hoje, e pra ele compôs um modo hexatonico, isto é, progressivo de seis tons, e de suas sílabas iniciais em latim aproveitou-se para nomear as notas musicais.

Ficou assim:

Ut (posteriormente substituído por “Do” no século XVIII) Re Mi Fa Sol La SI.

Cantar as notas musicais, cantar no tom, é cantar sempre a oração a São João Batista, de onde Guido derivou os nomes.

E quem lembra João Batista lembra daquele estremecer do ventre de Santa Isabel ao ouvir a saudação da Virgem Maria, a Bem-Aventurada. Bem Aventurada é a pessoa que, só de abrir a boca, põe a gente a dançar ou faz a gente estremecer.

Mas atenção: a oração de João Batista dá nome às notas. As notas existem. Não acredite que é só deixar a emoção lhe guiar ou que a técnica e o estudo musical não fazem sentido. Lógico que fazem, e canto desafinado não causa estremecimento de ninguém, mas pura correria desesperada. Eu diria até que é impossível (pelo menos pra mim é) rezar com alguém cantando desafinado do seu lado. É simplesmente horrível!

Estremecer é arriscar as bases que se tem, é não temer mudar a própria configuração.  Dançar é estremecer-se com algum controle.

Quando a música é bem cantada, a gente estremece, e tira pra dançar. Ou se deixa tirar.

Assim foi com a Virgem Maria e sua prima naquele dia... Maria abriu a boca, a dança começou. A dança de reconhecer a presença de Deus na Mãe de Deus.

Quer rezar bem? Canta bem!

Canta como a Virgem.

Naquela manhã em que ela teve com Isabel o encontro que causou a esta e a seu filho João tamanha alegria e dança, ela se pôs a serviço a partir da experiência de Deus que fizera. Ela descobriu-se esperando Deus se manifestar pros outros, porque Ele havia se manifestado a ela.

E foi ajudar sua prima grávida nos afazeres domésticos mesmo estando grávida ela também, e de alguém mais importante! Ela se colocou em segundo plano.

Você canta pra rezar? Cante colocando-se em segundo plano.

Deixa que cada nota seja o pedido a João Batista para limpar as manchas de sua boca. Deixa que cada frase seja colocar-se a serviço, como Maria, pondo outra pessoa em lugar de melhor destaque que o seu.

Você ouve música para rezar? Deixa que cada nota seja a saudação da Virgem Maria entrando em sua casa para lhe ajudar. Deixa que cada nota ouvida lave sua voz. Deixa que a alegria estremeça a sua esperança.

E perca-se de amor dançando com o Senhor numa eterna Festa Junina, arraiá de eternas noites.

Se não for para fazer a experiência de estar em segundo plano, de ter algo maior que você guiando o canto e a audição, tape os ouvidos e não abra a boca.

Pois quem canta reza duas vezes. Quem canta bem, reza bem duas vezes.

E quem canta da boca pra fora reza mal duas vezes.

Ou seja, perde tempo.

Portanto, ó amado leitor, aprenda música, tudo o que puder, conheça tudo, solfeje de cor, tenha ouvido absoluto e uma técnica impecável.

Depois ponha-se em segundo plano e deixa O Outro cantar por você. Empresta sua voz à Nossa Grande Esperança.

As esperanças de cada pessoa que lhe ouve fará estremecer cada pessoa que lhe ouvir, e essas esperanças, ao se realizarem, prepararão O Caminho do nosso Eterno Deus que Dança.

Ou você tem dúvida que Jesus adora um Arraiá?

*Julio Eduardo dos Santos Ribeiro Reis Simões já fez, e ainda faz, de tudo um muito. É Bacharel em Teologia (CES-JF), Mestre em Liturgia (PUC-SP) e Doutor em Diálogo Inter-Religioso (Ciência da Religião - UFJF). Faz parte da Equipe do Centro Anglicano de Educação Teológica do Rio de Janeiro, é Ministro Pastoral da Igreja Episcopal Anglicana em Juiz de Fora (MG) e Postulante às Sagradas Ordens. Também é marido da Gisele, pai do Antônio e atualmente trabalha com produção audiovisual para a TV Alterosa (SBT-JF). É fã dos Beatles e detesta o Bolsonaro.

EMGE

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