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Religião

09/11/2018 | domtotal.com

Jesus Cristo é o Senhor do Rock

Se o Rock se tornar um inimigo tão grande para a vida cristã, acho que precisamos repensar o que de fato é ter uma vida cristã e qual o sentido de se abraçar uma religião.

Muitas pessoas, por enxergar o Rock como estilo homogêneo, pregam que suas canções e letras transmitem uma força maligna que leva os jovens ao encantamento, à dominação demoníaca dirigida por forças ocultas.
Muitas pessoas, por enxergar o Rock como estilo homogêneo, pregam que suas canções e letras transmitem uma força maligna que leva os jovens ao encantamento, à dominação demoníaca dirigida por forças ocultas. (Reprodução/ Pixabay)

Por Pedro Lima Junior*

Francisco é um jovem de 17 anos como qualquer outro, um misto de ambições, desejos e medos. De classe média, reside em uma cidade de médio porte do interior paulista. Xico (como ele gosta de assinar e como o chamam) tem acesso à cultura e informação, e desde cedo foi incentivado pelos pais ao hábito da leitura. A mãe é professora do Ensino Infantil da rede municipal e o pai funcionário (encarregado geral) de uma empresa tradicional da cidade que exporta britas e rochas para o exterior. Xico é um cara que curte livros, séries, filmes, redes sociais, música boa e sair com os amigos para se distrair. Curte tomar uma cerveja, mas sem exageros.

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O jovem paulista tem um gosto e um dom muito especial: ele ama escrever poesias e crônicas, apesar de nunca as mostrar a ninguém, a não ser para o seu gato, Belchior. Sua matéria preferida na escola é História, mas sente uma sensação incrível quando chega a uma solução de Física e Matemática, e por conta disso, resolveu se dedicar mais a essas duas disciplinas. Quando o querem classificar como um cara de humanas ou de exatas, ele prefere dizer: sou um “humanista exato”. Este ano ele fará vestibular e prestou, com milhões de outros jovens da idade dele, as provas do Enem.

Xico é cristão católico. Participa desde os 14 anos do grupo de jovens de sua paróquia aos sábados à tarde. Ele é responsável pelas ações sociais e, uma vez por mês, fica responsável pela reflexão bíblica do encontro.

Certo dia, Xico reencontrou um casal de amigos que, por algum motivo, deixou de participar do grupo de jovens. Os dois usavam um crucifixo enorme no peito, e disseram que estavam noivos – apesar de serem três anos mais velhos que Xico – e que Deus os havia revelado que era preferível se casarem do que permanecerem na prostituição. E quando Xico, preocupado, iria perguntar que tal “prostituição” seria essa que eles estavam vivendo, o casal o interrompeu e o convidou a participar de um outro grupo de jovens da cidade, que acontece às terças à noite na igreja matriz da cidade, a maior que existe. Como estava em época de férias escolares, Xico aceitou o convite.

Chegando terça-feira, lá foi Xico à igreja matriz. Ele a frequenta pouco, a não ser quando tem formações diocesanas sobre juventude e Campanhas da Fraternidade. Outro motivo que sempre o motiva a ir nessa igreja são as missas de domingo de manhã. Neste horário, o som magnífico do órgão do século XIX junto ao coral afinadíssimo ajudam Xico a entrar em comunhão com Deus na liturgia.

No entanto, desta vez o som que ecoava na matriz era diferente, bem como o fieis. Xico ficou impressionado com a quantidade de jovens dentro da igreja cantando e louvando ao som de bateria, duas guitarras, um contrabaixo, dois teclados, três backing vocais e dois vocais principais, liderados por uma moça e um rapaz. Uma banda completa na igreja, com instrumentos de última geração que ele só via em shows de suas bandas de Rock preferidas. O som era tão atrativo que ele fixou sua atenção maior às músicas que eram tocadas. Notou que os instrumentos estavam com um volume bem alto, como que um quisesse sobressair mais que o outro, mas ainda assim havia harmonia.

Ao final da reunião, o que conduzia a assembleia convidou a ir à frente os que estavam pela primeira vez no grupo. Tímido, porém incentivado pelas duas amigas, Xico se apresenta juntamente com outros cinco jovens. Sente-se muito bem acolhido e promete retornar na próxima semana. E acrescentou, livremente, olhando para o lado dos músicos: “gostei muito da banda. Teve uma música aí que me lembrou Stairway to Heaven do Led Zeppelin. Senti uma vibe muito da hora! Parabéns!”. No mesmo instante, abruptos sorrisos e gargalhadas da assembleia o deixaram meio sem graça. “Será que falei alguma besteira ou estão sendo simpáticos comigo?” – pensou.

Então, um rapaz de mais ou menos 40 anos se levanta. Um silêncio começa a ser feito no interior da igreja. De aparência um pouco corcunda, trajava uma camisa branca com a frase no peito “Sou católico...” para dentro de uma calça social que lembrava as que o avô de Xico usa. Com um cinto de fivela pequeno passando pela cintura fina, notava-se uma preponderância abdominal que contrastava com os braços finos e as mãos delicadas de unhas perfeitamente feitas. De sapatos bem lustrados, o rapaz que se erguia lentamente pegou o microfone das mãos de um dos vocalistas da banda e um silêncio sepulcral se fez na igreja. E olhando para baixo, deixando à mostra uma calvície, começou a falar:  

“Apenas uma informação para não deixar o demônio contaminar nossos corações”. E deu um grito bem alto: “AMÉÉÉÉM???” – pergunta o sujeito com voz rouca de estilo pausado. A assembleia meio atônita com aquela ousadia responde na mesma intensidade: “AMÉÉÉÉM!”. Todos ficaram exatamente no mesmo lugar. O jovem-ancião que falava não era o coordenador do grupo de jovens, não era músico, não era o pregador da noite, nem o pai de algum jovem ali presente. As pessoas o chamavam de “a voz de Deus que tudo revela”. Quando ele falava uma nova atmosfera de temor e terror se levantava. Aquele protótipo de Xamã de tribo indígena, com um terço de madeira amarrado no punho esquerdo, se apresenta: “Eu sou!” – pausa. E continua: “o intercessor do grupo de oração de jovens Cruzada de Cristo”. E a partir dali, o que seria uma acolhida aos que vieram pela primeira vez se transforma num palanque inquisitorial de moralismos e conspirações estendendo-se por dez minutos de pura repreensão e demonização ao estilo cultural e musical chamado Rock in Roll, finalizando numa sessão de renúncia e exorcismo, com transes coletivos e “revelações” repletas de autossugestões. Um circo de horrores!

Após aqueles constrangedores minutos, o líder espiritualista devolve o microfone e olha fulminante sobre os óculos para Xico e esboça algo parecido com sorriso. E ao retornar para o banco, saindo de costas, Xico pode ler a continuidade da frase que estava em sua camiseta: “... e os incomodados que se convertam”.

Confuso e decepcionado, Xico retorna para sua casa num turbilhão de sentimentos e interrogações. Ao mesmo tempo que estava encantado com o número de jovens na igreja, fascinado com o som da banda e com clima de fraternidade no ar, ele não conseguia entender, primeiro: a fala do casal de amigos que iriam se casar para fugir do pecado da prostituição. “Fugir? Pecado? Prostituição?” – questionava-se; e depois com as palavras do intercessor do grupo sobre o Rock, afirmando que quem ouve esse estilo e música era possuído pelo demônio.

Ao chegar em casa, o jovem Francisco coloca para tocar uma de suas playlists do Spotify: Clássicos do Rock. Pula rapidamente as músicas até chegar a que é considerada o “Hino do Rock”, Stairway to Heaven, a mesma que causou a fúria descontrolada do líder cruzadista. E ao ouvi-la novamente, Xico cantou baixinho: “It makes me wonder!” (Isso me faz pensar!).

Inquieto, Xico encara Belchior, seu fiel felino, e num salto começa a escrever mais uma de suas crônicas secretas. Abre seu notebook e escreve no título: Jesus Cristo é o Senhor do Rock. Belchior foi o único a ouvir e testemunhar suas palavras... Sabe-se, todavia, que na conclusão do texto, Xico, que sempre foi muito bom com as palavras, fez um trocadilho genial: I'm on this rock, and Christ is the rock. (Estou nessa rocha e Cristo é a rocha).

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O conto narrado acima é fictício, mas não é exagero. Já presenciei e atendi muitos jovens que estavam confusos e sofriam algum tipo de distúrbio psíquico por conta dos abusos espirituais e vícios religiosos transmitidos a eles pelos ditos líderes espirituais.

Refletindo precisamente sobre a questão da Música e Religião, especial desta semana, esses líderes não compreendem o Rock and Roll – e muitas vezes a própria arte num todo – como expressão artística e cultural; como produto da criação humana. São incapazes de interpretar um movimento por dentro dele sem previamente condená-lo ou demonizá-lo.

Muitas pessoas, por enxergar o Rock como estilo homogêneo, pregam que suas canções e letras transmitem uma força maligna que leva os jovens ao encantamento, à dominação demoníaca dirigida por forças ocultas. As atitudes ditas “imorais” que alguns cantores de Rock preconizam não devem ser encaradas de forma geral. Ora, artistas e músicos de outras épocas e estilos não foram baluartes da moral, muito pelo contrário, alguns sugeriam atitudes revolucionárias, mas, nem por isso, os mesmos pregadores inquisitoriais fazem uma fogueira de suas obras clássicas.

Ninguém é obrigado a gostar de Rock. Pessoalmente, não são todos os estilos de Rock que me agradam. Os artistas que fazem apologia marqueteira a Satã o fazem por inúmeras razões, desde religiosas até mercadológicas, mas isso é fruto da classificação dado ao Rock como sendo coisa do mau, do velho ditado “o Diabo é o pai do Rock”.

No entanto, é preciso ter respeito e conhecimento sobre este estilo cultural nascido em meados do século XX. O Rock and Roll, em sua gênese, surge como uma crítica ao sistema, a um mundo moralista, hipócrita e reacionário, de instituições carolas que não dialogavam mais com a juventude pois estavam engessadas em tradicionalismos estéreis. O Rock é uma resposta a tudo isso! Exageros? Ora, em toda obra humana se tem. O problema da crítica do Rock vista como uma aberração do mal é a pobreza das generalizações, o que revela uma postura arrogante de se acharem donos da verdade, não conseguindo enxergar as transações culturais que ocorrem na história da humanidade. Fazem hermenêuticas caducas e neuróticas a partir de seu egocentrismo, como se o movimento cultural do Rock tivesse nascido único e exclusivamente para destruir a Igreja, o Cristianismo e os gostos musicais refinados, clássicos, aristocráticos... Ora, até parece que outros gêneros musicais desapareceram com o advento do Rock.

O atrevimento e a ousadia do Rock em suas letras podem ajudar – como em outros estilos musicais – a compreender o mundo para além dos nossos “achismos”. Suas críticas auxiliam na reflexão dos comportamentos autoritários e, porque não, a arrancar os exageros da religião para que essa seja mais humana, fraterna, dialógica e consistente. Pois, convenhamos, se o Rock se tornar um inimigo tão grande para a vida cristã, acho que precisamos repensar o que de fato é ter uma vida cristã e qual o sentido de se abraçar uma religião.

Creio que a tradição da Igreja não pode ser vista como um fóssil duro e enrijecido, a qual os cristãos devem ser soldados cruzadistas armados contra aqueles ditos “infiéis” culturais da verdadeira sociedade tradicional de Cristo. Isso não só deu errado na história, como é puro anacronismo. A tradição cristã deve ser vista pela ótica metafórica da fluidez de um rio, que nasceu do coração de Cristo, e que ao longo de seus meandros recebe afluentes tornando-se mais forte e denso ao misturar das águas. E é o tempo (melhor amigo do discernimento) que pode auxiliar na purificação daquilo que foi recebido de impurezas. Não impurezas à uma suposta Lei de Deus imaculada, mas as impurezas ao espírito humano, à alma humana, que está acima de qualquer lei. Afinal, a lei mata, mas ao Espírito vivifica.

Finalizando e explicando: ao escrever no título que “Jesus é o Senhor do Rock” afirmamos que seu senhorio está sobre todas as coisas, e, nessa mística, o cristão torna-se livre para contemplar um Deus que está em todas as coisas (Cf. EE nº 235), mas, ao mesmo tempo, não se deixa possuir por nada que não seja o próprio Deus, tornando-se indiferente às coisas criadas. (Cf. EE nº 4-5).

Assim sendo, fique em paz, pois, ouvindo ou não Rock and Roll, a teologia escatológica nos ensina que no final da vida o ser humano estará ou em uma Highway to Hell (AC/DC) ou em uma Stairway to Heaven (Led Zeppelin).

Referências:

LOYOLA, Inácio de. Escritos de Santo Inácio: Exercícios Espirituais. São Paulo: Edições Loyola, 2000.

*Pedro Lima Junior é pai do Pi e casado com a Si. É historiador (UFJF) e cientista da religião (PUC-Campinas). É professor de História e Filosofia, Inaciano e Atleticano. De Juiz de Fora (MG), mora atualmente em Valinhos (SP).

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