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12/11/2018 | domtotal.com

Recato no tribunal

Embora aparentemente não esteja mais em vigor, a portaria merece um comentário isento e objetivo. Está claro que ela tinha como alvos as mulheres.

Fico imaginando o que levou o magistrado a exarar essas proibições.
Fico imaginando o que levou o magistrado a exarar essas proibições. (Reprodução)

Por Afonso Barroso*

Causou uma avalanche de críticas e acabou sendo revogada a determinação da autoridade judicial que dizia: “Por determinação do presidente do Superior Tribunal do Trabalho, João Batista Brito Pereira, fica proibido o uso, no recinto do tribunal, de calças colantes, transparências, minissaias, decotes, calças jeans rasgadas e sandálias rasteirinhas”.

Embora aparentemente não esteja mais em vigor, a portaria merece um comentário isento e objetivo. Está claro que ela tinha como alvos as mulheres. Sim, pois são raros os homens que usam calças colantes, transparências, decotes, essas coisas que já são costumeiramente vedadas ao uso de varões.

Fico imaginando o que levou o magistrado a exarar essas proibições. A razão plausível é o decoro trabalhista. Tribunal, ainda mais quando Superior, é lugar de respeito, não pode ser confundido com lupanares onde mulheres transitam exuberantes e exibidas, açulando o desejo de homens ávidos de aventuras amorosas.

Pensando bem, o magistrado tinha razão ao proibir determinados trajes femininos. A fim de analisar a coisa friamente, vamos por partes.

CALÇAS COLANTES. Sim, dependendo do grau de aderência às pernas, essas calças são mesmo provocantes, um convite à concupiscência, embora já muito comuns na vida cotidiana. O magistrado acha-as inconvenientes porque, ao espremer as partes femininas, podem liberar perigosamente as masculinas.

TRANSPARÊNCIAS. São também altamente perigosas. O magistrado estava aludindo, evidentemente, às transparências ousadas, aquelas que escondem sem esconder os costados ou o frontispício das mulheres, especialmente se forem mulheres bonitas. É a elas, as bonitas, que a proibição se refere. As feias que o perdoem. O juiz não especificou, na sua portaria, as partes que não deviam ficar expostas às transparências, de modo que é bom evitar todas. Braços, pernas, barriga, colo... tudo deve ficar devidamente fora do alcance dos olhos masculinos, e mesmo femininos.

MINISSAIAS. Ah, essas são mesmo perigosíssimas. As moças de belas pernas não devem adentrar o Tribunal exibindo um palmo ou mais de coxas, sob pena de ouriçar a sanha sexual dos funcionários e usuários da Justiça. E o mais grave: a vestimenta pode até alterar acordos e sentenças.  Senhoras e senhoritas, escondam neste Tribunal suas belas coxas, a bem da Justiça trabalhista.

DECOTES. Ah, os decotes! Não importa até onde exibem metade ou mais dos seios das donzelas e madames, mas eles evidentemente podem também causar desvios nas audiências e mesmo nas decisões judiciais, além de conturbar a argumentação de advogados. Não, mil vezes não aos decotes!

CALÇAS JEANS RASGADAS. Que dizer dessas aberturas pouco recatadas? A portaria do magistrado não diz onde não podem estar rasgadas as calças, mas o melhor é evitar rasgos de modo geral. Nem nas canelas são aconselháveis, porque rasgos são sempre insinuantes, só servem pra sugerir que as calças foram propositadamente rasgadas, o que é inadmissível nas dependências de um Tribunal do Trabalho.

E chegamos às SANDÁLIAS RASTEIRINHAS. Quanto a essas peças da indumentária feminina, sinceramente não entendo a razão do veto. Que fizeram ou fazem elas de mal?  E, afinal de contas, existem sandálias não rasteirinhas? Haverá as voadorinhas? As esvoaçantezinhas?

Se a portaria não tivesse sido revogada, eu diria ao senhor juiz: Pare agora e suprima essa parte das sandálias. Tão rasteirinhas e tão lindas, tão inofensivas, por que proibi-las?

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

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