Cultura TV

13/11/2018 | domtotal.com

Os dilemas de O Sétimo Guardião

Na estreia da novela, saiu de cena o esperado realismo fantástico para dar lugar a uma estética de filme B de terror - que não assusta e nem empolga.

O lirismo com que Aguinaldo Silva sempre nos brindou, não compareceu no primeiro capítulo da novela.
O lirismo com que Aguinaldo Silva sempre nos brindou, não compareceu no primeiro capítulo da novela. (TV Globo)

Por Alexis Parrot*

Você já viu isso tudo antes. Mas queria ver de novo. Aguinaldo Silva, de volta ao tipo de novela que o consagrou, com direito a cidadezinha do interior e realismo fantástico.

Dessa vez, o cenário é a Serra do Caraça, no coração de Minas Gerais - embora a fictícia Serro Azul não seja declaradamente um dos 853 municípios do estado. Em todas as outras novelas do autor (com exceção de Tieta), era o povoado vizinho, apenas citado de quando em quando. Agora, finalmente, ganha o centro da história.

Em uma jogada digna de Saramago, as antigas cidades sede do universo Aguinaldiano tornaram-se as cercanias desta Serro Azul. Greenville (de A Indomada), a terra nordestina ocupada por ingleses no século XIX, já foi citada no primeiro capítulo. Lugares como Tubiacanga (de Fera Ferida) e Resplendor (de Pedra sobre Pedra) estão na fila para serem rememoradas e homenageadas.

Para o incômodo do telespectador, mesmo com todo o histórico existente, os moradores não se acertam sobre a pronúncia do nome da terra natal. Alguns a nomeiam com a letra "e" aberta, outros com o "e" fechado. Entre o Sêrro e o Sérro, sobra um descuido feio e desnecessário - algum carioca diria que nasceu no Rió de Janeiro?

A prosódia, sempre merecedora de grande atenção e uma marca de cada novela, surgiu confusa, quando não exagerada. Se por um lado temos Letícia Spiller encarnando uma versão feminina do Nerso da Capitinga, no trailer de sanduíches há Marcelo Serrado e Carolina Dieckman falando como dois surfistas da Praia do Pepino.   

Godard disse que para se fazer um filme é necessário apenas uma garota e uma arma. Em se tratando de novelas, pode-se eleger também uma grande verdade: vai começar e/ou acabar em casamento. Com O Sétimo Guardião não foi diferente, mesmo que o noivo (Bruno Gagliasso) tenha dado no show e a cerimônia tenha sido cancelada.   

O choro desesperado em câmera lenta da noiva abandonada (Yanna Lavigne, dona de talento e carisma inexistentes) só não superou em exagero a desnecessária e longa caminhada também em câmera lenta (tal pai, tal filha?) de Tony Ramos, após desancar a mãe do noivo com fúria figadal.   

Foi meio frustrante ver que a Tony Ramos, pela primeira vez no elenco de uma novela de Aguinaldo, tenha sido dado um papel aparentemente tão sem colorido e genérico, um desperdício no mínimo. Ele e nós merecíamos mais.

Já Lília Cabral apareceu malévola, destratando funcionários e não se preocupando em admitir que casava o filho apenas por dinheiro. A ela, se juntará no futuro próximo, a beata de Serro Azul vivida por Elizabeth Savalla. Esta, mesquinha e hipócrita, infernizará a vida da nora - enquanto a outra fará de tudo para não perder a grande empresa de cosméticos que construiu. São duas atrizes de grande envergadura escaladas para interpretar as donas das vilanias do folhetim

Muito propagandeou-se que a cidade cenográfica é a maior já construída pela Globo, mas já vimos isso antes também. Afinal, é um recorde que a própria emissora estabelece, apenas para quebrá-lo, quando construir a próxima maior cidade cenográfica já feita para uma próxima novela (provavelmente com personagens e situações já vistos em outras novelas, como tem sido a praxe preguiçosa de seus folhetins).

Inexplicavelmente, do monstruoso investimento, mostrou-se muito pouco no capítulo de ontem. Os diretores preferiram planos mais fechados nos atores e sobre o lugar que habitam, ficamos todos no ora vejam. Deu saudade de Roque Santeiro, cuja cena antológica de abertura já escancarava Asa Branca, Toninho Jiló (João Carlos Barroso) nos guiando pela praça central e pelo espírito que nortearia a história. 

Mas se alguém ainda tinha alguma dúvida de que O Sétimo Guardião não é Roque Santeiro (novela seminal de Dias Gomes, escrita por Aguinaldo Silva em 85), quando a abertura finalmente resolveu dar o ar da graça, lá pelo meio do capítulo - outra praxe bem duvidosa -, a diferença entre uma e outra restou cristalina.

Ficou provado mais uma vez o desserviço que Game of Thrones tem prestado à teledramaturgia nacional. Todas as aberturas querem ser a abertura de Game of Thrones, com o desvelar dos domínios em que se passa a história, com câmeras virtuais à moda de drones e uma coisa virando outra no meio do caminho.

Além disso, a quantidade de informação apresentada resulta apenas em sujeira visual, impossibilitando qualquer processamento por parte do público. O que deveria ser direto, ficou barroco; o que deveria ser síntese, virou gordura.

E por que uma música em inglês? Para quem, como Aguinaldo Silva, já teve músicas temas bem brasileiras e significativas abrindo diariamente suas narrativas na TV, esta estreia deve ter sido decepcionante.

Adicionar um Fleetwood Mac a um time composto por Bethania cantando Roberto, um Fagner divertido e inspirado ou um Moraes Moreira mais eletrizante impossível, parece quase uma heresia. Não bate com o histórico - e nem com o tipo de história que o autor está acostumado a contar.

O tom que a abertura traz para a obra combina com a mão pesada com que Rogério Gomes, o diretor artístico, parece ter escolhido para tocar o trabalho. E este parece ser o grande problema da novela.

Não que Aguinaldo Silva não trate de temas fortes em sua obra, esta é uma de suas marcas. Mas o lirismo com que o autor sempre nos brindou não compareceu neste primeiro capítulo.

O que vimos foi puro suspense barato de filme publicitário, com apenas um acidente automobilístico de fato grandioso, entre uma cena e outra de pseudo ação, pseudo mistério e pseudo comédia.

Saiu de cena o esperado realismo fantástico para dar lugar a uma estética de filme B de terror - que não assusta e nem empolga. Marina Ruy Barbosa está mais para Carrie, a Estranha que para Remédios, a Bela e o gatinho Leon (o verdadeiro protagonista da trama) não decidiu ainda se quer ser fofo ou assustador.

Em uma entrevista recente, Aguinaldo afirmou que o bom primeiro capítulo é aquele que revela de cara o que será a novela. Se O Sétimo Guardião for mesmo o que vimos ontem, com erros no atacado e acertos no varejo, será que vamos querer ver o resto?

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas