;
Engenharia Ensaios em Engenharia

20/11/2018 | domtotal.com

É preciso ajudar os vencidos

Alguns historiadores acreditam que no longo prazo a primeira e a segunda guerras mundiais serão compreendidas como duas etapas de um mesmo evento.

Salão de Palácio de Versailles - 1918
Salão de Palácio de Versailles - 1918 (Reprodução)

Por Jose Antonio de Sousa Neto*

No dia 11 de novembro de 2018 o mundo celebrou os cem anos do fim da primeira guerra mundial. A chamada grande guerra foi uma tragédia humana de proporções épicas. Milhões de mortos, milhões de feridos e um sem número de seres humanos com gravíssimas sequelas físicas e psicológicas como um fardo para toda uma existência.  Mas mesmo sendo tudo isso  mais do que suficiente para materializar o "vale de lágrimas" de nossa existência neste mundo a herança mortalmente venenosa e insidiosa do rancor e do orgulho permaneceu como praga que inevitavelmente só poderia levar a mais tragédias.

Alguns historiadores acreditam que no longo prazo a primeira e a segunda guerras mundiais serão compreendidas como duas etapas de um mesmo evento. Um evento onde cada ator destas tragédias se fundamentou com razões construídas sobre convicções que, no conjunto de todos os lados, inevitavelmente só poderiam levar a perda de razão. Isto porque, por mais justas que tenham sido estas convicções, inclusive muitas delas de caráter nobre e como óbvias e necessárias respostas a uma séria ameaça a própria vida e sobrevivência, estas convicções serão sempre construídas, pela própria natureza da realidade humana, sobre premissas e fatos incompletos e imperfeitos.

Mas entre as muitas lições aprendidas há uma em particular que não pode ser jamais esquecida. Os vencidos têm sempre de ser ajudados. E isso não é uma coisa fácil. Na verdade é uma coisa que justamente por ser extremamente difícil, é extremamente importante. Na verdade mais do que extremamente importante é absolutamente essencial. E é dificílimo porque se até os ciscos nos olhos dos outros são fáceis de serem identificados, mais óbvias ainda são as travas. Mas não podemos nos esquecer nunca que abordagem de terra arrasada é caminho absolutamente certo para tragédias futuras e perpetuação de destruição.

Mas como ajudar quem nas disputas cometeu e comete atrocidades? Como ajudar quem está cego pela ambição e sobretudo pelo orgulho equivocado? Como ajudar aqueles cujas convicções são, sob as perspectivas de nossas próprias e limitadas convicções, caminho certo para o mal? Como ajudar sobretudo aqueles absolutamente incapazes de reconhecer que precisam desesperadamente de ajuda? Não há uma receita. É difícil porque o caminho é tortuoso e cheio de riscos. Precisamos ter, no entanto, apenas a certeza de que não tentar não é uma opção. Obviamente algumas coisas não são relativas. Com exceção das psicopatias, e elas existem e são um risco sempre presente e real, é inerente ao espírito humano, mesmo que em diferentes níveis de compreensão, as noções do bem e do mal e a intuição inerente da ética.

Não temos aqui neste breve texto os meios e a intenção de discutir em profundidade e com amplitude histórica, social e humana as imensas complexidades e contextos da primeira guerra mundial. Mas o tratado de Versailles de 1918 que formalizou o fim da grande guerra, em grande medida, exatamente pela argumentação aqui apresentada é reconhecido por muitos historiadores como um dos elementos que materializou a contribuição para uma nova guerra mundial ou, como já mencionamos aqui, a continuidade de uma grande guerra que na verdade  estava apenas passado por uma breve trégua e não havia absolutamente acabado. Os vencidos não apenas não foram ajudados, como, mesmo que houvessem motivos justos para punições e compensações, e elas são necessárias para que exista ordem e a possibilidade de convivência humana, a escala, a forma e sobretudo o espírito das punições que carregavam em seu bojo o rancor e o orgulho, levaram à perda de razão aos que tinham razão.

Ao final da segunda guerra mundial os aliados não cometeram o mesmo erro. Deram uma saída honrosa àqueles que, mais que adversários, eram atrozes inimigos. Como fizeram isso? Ajudando os vencidos. Eles foram respeitados a partir de uma visão de civilidade, não com uma perspectiva de curto prazo, mas de longo prazo com vetores tanto direcionados ao passado como ao futuro. Obviamente que os elementos de pragmatismo e de realismo político foram determinantes. Mas é certo que, no esforço de ajudar, nada pode ser mais poderoso no longo prazo que a força de exemplos virtuosos. Muito mais do que os exemplos de força que, embora importantes e efetivos no curto prazo são, por si só e sem a força dos exemplos virtuosos, insustentáveis no longo prazo. A história não deixa nenhuma margem de dúvida quanto a isso.

Aqui chego finalmente ao alerta que é o principal objetivo deste texto. Não vamos aqui entrar, no contexto do cenário político brasileiro, nos ciscos e travas nos olhos daqueles que exerceram o poder no Brasil nos últimos anos. Também não estamos nos furtando de reconhecer  que males cometidos geraram responsabilidades que devem ser cobradas não só  porque implicam na própria viabilidade do regime democrático brasileiro, mas porque alcançam elementos relacionados a própria segurança nacional e a estabilidade social. Guardado tudo isso e justamente por estas razões é que aqueles que hoje alcançaram o poder devem ver como meta sine-qua-non ajudar os vencidos. Por sabedoria, pragmatismo e responsabilidade não há aqui opções. Sobre os desafios e dificuldades inerentes já falamos. O caminho deve ser pela força e persistência dos bons exemplos. Na esperança de muitos brasileiros de que o futuro governo nos traga prosperidade e paz social, cometer o mesmo erro dos governos anteriores de não respeitar e ajudar os vencidos, por mais discordantes que sejam de suas convicções, seria um erro básico e trágico que pode custar o progresso do país por mais algumas gerações.

*Jose Antonio de Sousa Neto é professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE)

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas