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Religião

07/12/2018 | domtotal.com

Feminismos e Cristianismos: A quem importa uma fé que não se importa?

Em uma cultura pautada em concepções cristãs, o que se afirma com ares de 'vontade divina' possui peso político que não pode ser desprezado.

Conversas sinceras entre feminismos e cristianismo se fazem urgentes.
Conversas sinceras entre feminismos e cristianismo se fazem urgentes. (Priscilla Du Preez by Unsplash)

Por Karen Colares*

Quem circula por ambientes virtuais sabe que as temáticas em destaque nestes meios alteram-se na velocidade da luz. A despeito da fluidez com que são renovados os assuntos, a concentração em torno de uma determinada tag – enquanto dure – assume a intensidade das grandes paixões. Aqueles menos empenhados na atualização de suas linhas do tempo e status, ao se aventurarem a uma olhadela, se assustam com a ferocidade com que é alardeada a assertividade dos argumentos. Há quem se ria do quanto parece aos envolvidos, uma questão de vida ou morte o debate de certas questões. Em um espectro realmente misto, os temas se alternam entre frivolidades para se gargalhar até relevantes tópicos humanos.

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Nessa arena, participam diferentes setores da sociedade, seculares e religiosos. Ninguém deseja parecer desinformado ou alheio. É preciso rapidamente emitir sua opinião sobre o que vem à tona no oceano de informações e os ‘especialistas’ se multiplicam. Recentemente, a bola da vez foi a questão feminina e, mais especificamente, feminista. Em polvorosa, instituições educacionais e empresas cuidaram em proclamar políticas inclusivas e suas práticas de ‘empoderamento feminino’ se tornaram sua melhor propaganda. Igrejas cristãs, fossem católicas ou protestantes, se ocuparam com a promoção de instrução para seus membros acerca do que entendiam como conciliável com o Cristianismo dentro dos movimentos feministas. Infelizmente, nem todos os que encabeçaram tal tarefa possuíam suficiente conhecimento da questão. Uma postura apologética contra o que se acreditava um modismo moderno, impediu muitas lideranças de manterem diálogo real com tais movimentos. A despeito de anos de um debruçar-se sobre as Escrituras, alas religiosas cristãs diversas não conseguiram arranhar mais que a superfície do debate e se perderam nos extremos divulgados na mídia, como se estes representassem o todo das batalhas empenhadas por estas mobilizações. Atentar aos ‘sinais dos tempos’ é um exercício de discernimento informado que não tem espaço em ambientes de engessamento. Cada geração terá que lidar com o desafio de atualização da fé diante das mudanças sócio-políticas e culturais. Não há escapatória.

Que haja significativa resistência aos movimentos feministas nos ambientes religiosos cristãos é sabido amplamente. Dizer da não concordância, entretanto, pede mais especificidade, tendo em vista que é mera ilusão a ideia de um movimento monolítico. Antes de qualquer outra coisa, é preciso que se entenda que existem feminismos diversos e com arcabouços teóricos muito diferentes. A despeito desta pluralidade, uma nuance se mantém constante: a noção inalienável de que as mulheres são pessoas em toda a amplitude e desdobramentos práticos do termo. A coisa parece óbvia, embora não seja de forma alguma. A articulação de muitas comunidades de fé, embora procure reiterar a igualdade de homens e mulheres no que se refere à dignidade e liberdade, jamais permitiu que se averiguasse em que medida suas práticas tornavam tal paridade concreta. Quem pensa que os usos da Bíblia, feitos neste Brasil ‘varonil’ são inocentes das injustiças cometidas contra mulheres no dia a dia, se engana penosamente. Em uma cultura pautada, ainda que de maneira indireta, em concepções cristãs, o que se afirma com ares de ‘vontade divina’ possui peso político que não pode ser desprezado. Atentar aos discursos elaborados a partir das Escrituras é manter-se sagaz ao fato de que o que se pensa constitui a matéria prima do que se faz.

Conversas sinceras entre feminismos e cristianismo se fazem urgentes. Um ponto de partida viável e frutífero é a noção esboçada acima. A afirmação radical da plena humanidade de homens e mulheres não é nada diferente daquilo que foi discutido por séculos dentro da Teologia sob a insígnia Imago Dei (Imagem de Deus). O relato bíblico do qual se deriva tal afirmação, Gênesis, é uma exemplificação de uma produtiva interlocução com a cultura ao redor do antigo Israel. Ao comparar-se o texto bíblico com textos mesopotâmicos próximos, muitas similaridades são descobertas, mas também significativas diferenças. Entre as mais explosivas destas, está a democratização da imagem divina. Em uma carta endereçada ao rei da Assíria, Asaradon, encontra-se a seguinte assertiva:

“Um homem [livre] é como a sombra de um deus; um escravo é como a sombra de um homem [livre], mas o rei, ele é semelhante à imagem de Deus.”[1]

Em contrapartida, o texto de Gênesis 1:26-27 afirmará de maneira clara que, ambos, macho e fêmea, foram criados à imagem e semelhança de Deus. Afastando-se da noção muito difundida no mundo antigo, de que os seres humanos não são todos iguais, o autor de Gênesis abarcará toda a humanidade em uma grande designação, dissolvendo qualquer intento de hierarquização ou valoração feita a partir da raça, etnia, classe social ou gênero. Historicamente, muitos privilégios se conectaram a pertenças específicas. O Novo Testamento conhece bem tais rixas. Gregos e judeus se apegavam às suas origens. O homem livre se regalava na abundância de bens conquistados à custa de trabalho escravo. Homens e mulheres possuíam não apenas âmbitos de atuação diferentes, mas status e oportunidades muito díspares. Paulo, entendendo as perversidades advindas de estruturas que perdem de vista a dignidade intrínseca de todo ser humano, aponta que, em Cristo, todas as pertenças com seus privilégios, nada significam, porque nele, todos são um (Gálatas 3:28).

O desafio que surge evoca coragem. O conservadorismo que se imagina preservar a fé, serve em muitos momentos para mantê-la distante da realidade e cada vez menos pertinente às novas gerações. Cristãos de todas as épocas precisaram unir sensibilidade e sabedoria para atualizar as verdades intuídas diante de novas situações culturais. Se alguém ainda pensa que a fé cristã pode se esquivar de refletir a questão do feminino, não entendeu a verdade básica de que todos são dignos porquanto imagem e semelhança divina ou não leva a sério os desdobramentos práticos que as grandes verdades ensejam. Não se pode desprezar a quem Deus escolheu amar. Mulheres se viram privadas de muitas oportunidades simplesmente por serem mulheres. Foram, em muitos momentos e sob formatos diversos, encaradas como acessório da existência de outrem, como quem não tem vida e horizontes próprios. Pensou-se delas, que não pudessem desenvolver sua intelectualidade, qual ser humano partido, foram e ainda são vistas, apenas como seres de emoções. Seu corpo é objetado e seu status de pessoa é ignorado pelo lucro de redes de pornografia e tráfico sexual. Quem ainda pensa que os feminismos são mais uma tag a ser esquecida na velocidade de um clique ou um modismo virtual qualquer, não se solidariza das lutas travadas nas experiências de tantas mulheres. Questões humanas tão profundas são merecedoras da atenção e ponderação cristãs, caso contrário, o Cristianismo perde de vista, seu evento fundador, a encarnação. Esta sempre nos traz à memória que a humanidade importa.

[1] SKA, Jean-Louis. O canteiro do Pentateuco. São Paulo: Paulinas, 2016 (Aqui p. 63).

*Karen Colares é teóloga e mestranda em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia na área de Teologia Sistemática com ênfase sobre Teologias Feministas.

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