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Religião

07/12/2018 | domtotal.com

Bendita sois vós!

É feliz quem começa a caminhada cristã na companhia de 'uma mulher'.

A Igreja foi 'escrita' pelas mulheres, escondidas nas salas de catequese nos panos cheirosos e engomados de nossos altares nas secretarias das nossas igrejas...
A Igreja foi 'escrita' pelas mulheres, escondidas nas salas de catequese nos panos cheirosos e engomados de nossos altares nas secretarias das nossas igrejas... (Annie Theby by Unsplash)

Por Rodrigo Ladeira*

Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter.

Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver

(Gilberto Gil, Super homem - A canção)

Benditos sangram, porque humanizados! É com sangue que te chamo pra essa conversa. Papo de maturidade, de fecundidade da fé cristã! De pronto uma personagem neotestamentária me vem aos ouvidos. Trata-se de “uma mulher” que por “doze anos sofria de hemorragias” (cf. Mt 9,20). Para nos situar é preciso recordar que a mulher, conforme costume judaico, era considerada ritualmente impura pelo simples fato de menstruar. Muitos judeus, por isso, sequer apertavam as mãos delas. Não queriam ficar “impuros”. Força de uma época que produziu a inversão da bendição ao legar o lugar da imprestabilidade ritual (o pulo do ritual ao social foi só um detalhe!) àquelas que fazem o mundo, de fato, fecundo, exatamente porque “sangram”.

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São significativos os encontros de Jesus com as mulheres. Ultrapassam o ritualismo religioso para cessar o drama da exclusão. A lista da presença feminina na vida de Jesus é enorme, a começar por Maria, “aquela-que-pariu/sangrando-um-que-é-Deus” (cf. Lc 2,7), e que, para Lucas, é modelo primário de seguimento cristão, findando com “Verônica” – a tradição identifica Verônica como a mulher com hemorragias –, a que revela a verdadeira face (vera icona) do Messias, em sangue, nos derradeiros momentos da via-crucis, quando então é Jesus quem derramará seu sangue, sinal definitivo da sua vida-em-doação. O cristianismo começa/termina com sangue. Não há melhor maneira de pensar o ato da fé (fides qua) senão a partir delas, as mulheres, hipodigmas do cristianismo. A Boa Nova é da ordem do feminino, em sangue, para apartar, de saída, uma iludida imagem caricaturada de mulher (frágil, materna, doce etc...).

Trouxe estas mulheres dos evangelhos para reclamar que é feliz quem começa a caminhada cristã na companhia de “uma mulher”. Elas “sabem-sem-saber” que a salvação se faz em tom feminino. Ainda sob o regime machista, esse meu reclame raiz importa não apenas para revisar nossa grafia teológico-patriarcal, mas para me lembrar (quiçá te ajude a recordar também) que o Reinado de Deus começa/termina numa impostação, certamente “desvitimizada”, de mulher. O poeta diria, “ser o verão no apogeu na primavera, e só por ela ser”. A Igreja foi “escrita” por elas, escondidas nas salas de catequese; nos panos cheirosos e engomados de nossos altares; nas secretarias das nossas igrejas... Digo isso sem botar em duelo os gêneros (há por aí uma disputa boçal que só produz desumanização) e sem pudor teológico, mas com voz afinada pelas panquecas de vovó e da batuta de mamãe. Foram elas que me apresentaram o “mundo”, feito “ombros largos” pra carregar-lhe o peso, salvando-o do si mesmo. “Essa é a porção melhor que trago em mim agora”. Já não é hora de revivescer o lugar feminino que somos chamados a assumir na relação com o Senhor? Como nos lembrou o Concílio Vaticano II (Lumen Gentium, 39), a Igreja é “esposa” de Cristo.

As minhas melhores lembranças de iniciação à vida cristã começam/terminam com elas. A memória feliz da presença delas é em mim sacramento de salvação. Por vezes embotadas na teoria (o fálico é sempre falível), mas nunca no ato de fé. Uma verdadeira teologia em ato porque de voz toda-poderosa-no-amor.

Nesse tempo de advento, de “bruma leve das paixões que vem de dentro, (...) chegando pra brincar”, reclamo o testemunho fontal do Evangelho de Jesus Cristo e seu frescor originalíssimo. Feito homem quis encarnar-se pelo ventre-voz de “uma mulher”. Foi por elas “tocado” (Mt 9,21). Com elas demorou-se nas “conversações” (Jo 4,1ss). Por voz delas não deixou a festa acabar (Jo 2,3). “Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória, mudando como um Deus o curso da história. Por causa da mulher”. Não nos deixemos vencer pela idiotice de achar que o mundo masculino tudo nos dará. Benditas as “Marias” de todos os gêneros!

*Rodrigo Ladeira é Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) / BH-MG. Coordena as atividades de Extensão e Educação Continuada na FAJE. Ensina Liturgia e Sacramentos em vários cursos livres e de especialização teológica em Belo Horizonte-MG.

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