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06/12/2018 | domtotal.com

Bichado como goiaba branca

Quero histórias de noites sem lua, sem vidros, sem água na fonte.

Minhas histórias estão sem asfalto, sem resina, com sede.
Minhas histórias estão sem asfalto, sem resina, com sede. (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Por Ricardo Soares*

Vou na talha buscar água para dar mais frescor a essa história. É preciso explicar porque vida exterior pode ser mais compensadora que vida interior num país de dimensão continental. Somos maiores que a Colômbia, que Angola , que o Afeganistão. Não dá pra ficar contando histórias e memórias só do que se passa entre as paredes das cidades grandes. Óbvio e desolador.

Assim , nesse momento externo, estou há muitos anos dos últimos anos da década de 70 buscando água fresca numa talha. Ouço grilos lá fora e vejo a noite que avança embalada hoje numa lua minguante. Convenhamos que é mais simples cozer  histórias  em volta da lua . Por isso opto pelo mais difícil . Quero histórias de noites sem lua, sem vidros, sem água na fonte. Quero historias  áridas, uma secura de Canudos, aquela devastação dos mandacarus assando ao sol inclemente. Minhas histórias estão sem asfalto, sem resina, com sede. Não adianta beber que elas secam. Não adianta espremer que elas mofam. Os anos 70 não foram só o que andam contando hoje em dia.        

Quando cheguei em Angicos por onde estriparam Lampião lá não mais encontrei as cabeças decepadas do bando sobre pedras disformes e nem os "heróis" da volante que vomitavam vitórias falsas pelas encruzilhadas. Hei machaiada ! quero ver é ser homem  no frente a frente , nos conforme dos conformes. Quero ver a valentia contra a grossa companhia de jagunços sanguinolentos.Valha-me São Francisco de Assis que a procissão é bem vinda  e chega de longe toda benzida e melada pelas mãos gordurosas do bispo de Picos onde é mais quente , ou mais quente é Teresina ou Caxias no Maranhão ou Araguaína no Tocantins ?  

Minha vida é de jaguatirica, de jacaré, vida de deslizar pelo Pantanal e sair por Poconé achando que o calor é brando quando na verdade ele assusta. Sucuri que engole gente ? gente que engole cobra ? Esse é mesmo um povo que conta história. De rebojão que engole tudo , de mãe d’água que devora, de cobra gigante  que invade os corixos e come o gado palitando os dentes. Mas que dentes tem cobra grande do Pantanal ? Pois tem e bote  fé.

Por mim as histórias fluem. Por mim as histórias saem.Mas que nome tenho eu a cozer as histórias ? Arimatéia se dirijo um caminhão, Evilázio se ergo uma construção. Mas Beto Diniz se me aventuro, Oswaldo Tupi se me asseguro, Ribamar se poetizo, sintetizo, ponho a prosa e decreto : meu nome é Anacleto só para dar rima e combinar com o clima quente e a troça na roça de milho. Pois eu sou é rural. Sou curau, pamonha, canjica, cozedor de histórias de comida. O que sei são histórias de ciganos mineiros, gente montada a cavalo, a esquentar os sertões com suas panelas de zinco. Sei do que vi e vivi e não do que me contaram.

O meu cão calou de madrugada e isso não me contaram. Fui eu meio que ouvi o silêncio quando o cão calou e uma luz saiu do mato como se um vagalume gigante iluminasse o terreno espantando as galinhas . O silêncio de um cão que ladra pela madrugada sempre é motivo de espanto. Esse silêncio canino é o que ajuda a contar histórias mas também as amaldiçoa. Só com disciplina eu poderia puxar uma fieira de histórias , algumas vistas ao redor da fortaleza de São José de Macapá no ano santo de 2006 quando um governador fajuto daquela província amazônica não brindou à saúde dos seus asseclas. O governador não brindou e as histórias ao redor da fortaleza não proliferaram sendo assim que Macapá continuou a ter uma vazante de seis metros todo começo de noite quando eu dormia de vontade de morrer no rio Amazonas. A disciplina que eu não tive me permitiu pegar um barco rumo ao Bailique onde os camarões secavam ao sol e as palmeiras do açaí  eram muitas . Eu sou do tipo que manda dores para longe quando pode e que ainda conhece o Bailique,um recanto desse país que poucos conhecem. Mas não me lembro agora da cara do barqueiro e nem da cor da água do rio Marinheiro. De noite os bancos de areia  retém as embarcações dos incautos e eu me tremo. Sou um cozedor de memórias.

O lustre da parte coberta do convés do barco balança e eu lhes digo  meus irmãos e minhas irmãs: voltei à infância, a parte mais antiga da vida onde ouvi francês entre os caboclos daqui pois daqui nasce um novo país , bichado como goiaba branca, mas um país. Estou repleto dentro de mim como o cafuzo Anacleto que transborda, aderna, derrama amor pelo motor de popa que vai nos levando nessa preguiça lascada rumo ao cabo Orange.  Desculpa aí rapaziada mas eu fui muito longe e vocês nunca saem de perto . Ficam na zona de segurança e eu busco até mesmo a má aventurança. Aqui no Amapá, no canyon paranaense do Guartelá, em Pacaraíma, rumo a Venezuela, ou vendo jacus pousando no meu quintal e os micos comendo banana na minha mão.

*Ricardo Soares é diretor de tv, escritor, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

EMGE

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