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Religião

07/12/2018 | domtotal.com

Quem tem 'medo' da Teologia Feminista?

As teologias feministas realizam uma leitura subversiva da fé que por si só desmonta a linguagem da organização vertical e hierárquica sob a qual fomos induzidos a pensar.

Uma abertura aos apelos do mundo confluiu uma tomada de consciência das mulheres cristãs diante da fé que professavam.
Uma abertura aos apelos do mundo confluiu uma tomada de consciência das mulheres cristãs diante da fé que professavam. (Reprodução/ Pixabay)

Por Tânia da Silva Mayer*

Se por medo ou ignorância, o fato é que a revolução feminista em curso no mundo tenta ser desfeita a todo custo pelos saudosos representantes de um modelo em ruínas. A maneira mais primitiva de se combatê-la compreende reunir num mesmo balaio as cada vez mais diferentes correntes do feminismo mundial para serem todas elas lançadas às fogueiras como a própria personificação do demônio. Essa tarefa da inquisição moderna nunca deu certo. A desorganização do mundo engendrada na “queima dos sutiãs” ainda não atingiu seu cume, mas já não pode mais mudar seu curso quando as consciências começam a se libertar dos esquemas de opressão e segregação sexual e de gênero. E é justamente essa proposta de desmantelamento da ordem patriarcal, misógina e machista estabelecida através das épocas que causa aos mal intencionados o medo do feminismo, quiçá maior que o medo da própria morte.

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A teologia é um discurso sobre Deus. Mas ela não pode se esquivar da tarefa de permitir que Deus mesmo se expresse a cada pessoa no mundo e de muitos modos e maneiras. Por isso, uma teologia responsável não pode pretender dizer uma última palavra sobre o ser humano, o mundo ou o próprio Deus. Ao longo das épocas, muitos teólogos sucumbiram a esta tentação. Tentação aliada à detenção de um poder advindo do conhecimento da razão que subjuga tudo. Essa maneira de fazer teologia corroborou uma experiência de fé vertical, que não escusou Deus das imagens e narrativas centradas nos feitos poderosos dos homens e que condicionou certo antropomorfismo de Deus como um varão, senhor feudal. Por essas razões, o ser humano se viu diabolicamente impedido de cultivar uma relação mais pessoal com o divino durante as épocas à semelhança das relações humanas nas quais o masculino foi introduzido para ocupar um papel normativo, justiceiro e amedrontador, que mais afasta que aproxima.

Em contrapartida, uma abertura aos apelos do mundo confluiu uma tomada de consciência das mulheres cristãs diante da fé que professavam. Não era mais possível pensar e dizer um Deus tão alheio às experiências do feminino. Por isso, algumas teólogas irão aos poucos aprimorando o lugar desde onde urge fazer teologia. É importante ponderar que a teologia feminista, ou melhor, as teologias feministas, não se resumem ao exercício de dizer Deus realizado pelas mulheres, legitimamente também o é, mas não é só isso. Trata-se de encontrar e reconciliar o feminino em Deus de modo a romper com antropomorfismos mutiladores em vista do acolhimento da pluralidade e da diferença divina que nos foi revelada em Jesus e que ensina sobre as relações humanas que também se dão na chave da pluralidade e diferença.

Nesse sentido, é necessário recuperar as vozes silenciadas nas Sagradas Escrituras da fé e ao longo da vida da comunidade cristã. Porém é fundamental partir por outra via que aquela dedutiva clássica, a saber, a da experiência e dos relatos existenciais das mulheres de hoje. É preciso partir das narrativas que falam dos corpos, dos desejos, do sexo, dos medos, dos anseios, do mundo e qual o significado de Deus para as vidas. Não é possível presumir desse lugar regional e marginal das existências femininas para pensar e dizer Deus hoje com algum sentido e permitir que ele se expresse na vida das pessoas. Uma teologia que abra mão das mulheres e das nossas experiências é infantil, caduca ou pervertida, incapaz de tornar Deus conhecido e amado por homens e mulheres.

E como falar sobre o divino é também dizer sobre o humano, uma vez que a teologia cristã não pode negar a humanidade de Deus revelada em Jesus, as teologias feministas têm muito a contribuir, como grandes aliadas dos movimentos feministas, na revolução cultural, social, econômica, política e religiosa que está aí e a qual estamos fomentando para o rompimento de um paradigma de opressão e segregação que já não pode mais se sustentar e que já não é mais possível tolerar. Precisamente, as teologias feministas realizam uma leitura subversiva da fé que por si só desmonta a linguagem da organização vertical e hierárquica sob a qual fomos induzidos a pensar, dizer e nos relacionar com Deus e com as pessoas no mundo. Precisamente, na esteira desse novo modo de relação humano-divina devem ser edificadas relações humanas cada vez mais humanizadas, nas quais está em vista a equidade de gêneros com o fim de uma cultura de opressão e violência contra o feminino. A subversão da nova relação com o Deus de Jesus estremece os poderosos que choram por um modelo em ruínas, tanto na Igreja quanto na sociedade. É preferível acreditar que é por medo ou ignorância, e não por maldade, que algumas pessoas esbravejam contra as teologias feministas. É melhor já ir se adaptando, essa revolução não tem volta.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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