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Religião

07/12/2018 | domtotal.com

Sobre teologia, feminismo e o feminino

A teologia precisa se libertar de um lugar patriarcal que, muitas vezes, produziu uma compreensão tóxica sobre Deus e sobre o ser humano.

A teologia feminista nos ajuda a resgatar compreensões e concepções fundamentais, além de despertar o olhar para aquilo que, por razões muitas e ideológicas, foram esquecidas ou propositalmente rechaçadas.
A teologia feminista nos ajuda a resgatar compreensões e concepções fundamentais, além de despertar o olhar para aquilo que, por razões muitas e ideológicas, foram esquecidas ou propositalmente rechaçadas. (CNS/Tyler Orsburn)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Aprendemos com Jesus, os cristãos e cristãs, a chamar Deus de Pai. O Filho de Deus humanizou-se no espaço-tempo, como haveria necessariamente de ser, e isso o circunscreveu nos costumes, compreensões e possibilidades de consciência dentro de um contexto social e cultural muito próprio. Chamar Deus de Pai, no ambiente semita da Palestina do século I, era metaforizar uma relação com Deus no mais próximo que a experiência daquelas pessoas poderia expressar. E Jesus aprofunda ainda mais essa experiência de linguagem, quando chama Deus de Abba, Paizinho. Num contexto patriarcal, de rebaixamento da mulher e do feminino, Jesus contribui para um alargamento da compreensão sobre Deus, mesmo que inserido e condicionado nos limites dessa cultura.

Elza Soares, importante cantora e intérprete de nosso cancioneiro nacional, lançou, recentemente, um Álbum cujo nome é: “Deus é Mulher”. Qual o descompasso entre a compreensão de Jesus, historicamente inserido no século I, e a consciência de Elza Soares, mulher situada no século XXI? Nenhum, rapidamente responderia. Falam de lugares existenciais diferentes, de consciências possíveis distintas e de experiências igualmente legítimas. Ambos metaforizam sobre Deus.

O papel da teologia é ser uma fala responsável sobre Deus e, consequentemente, sobre o ser humano e sua relação com o divino. Historicamente, a teologia é um lugar de fala a partir do masculino: “teologia é coisa de padre”, costumamos ouvir. O masculino, da fala teológica, milenarmente está fundamentado numa cultura patriarcal. Esse lugar, sem mais, já não se sustenta. O patriarcado está em processo constante de desconstrução, apesar de todas as resistências e de mentalidades bastantes arraigadas em nossas culturas. A teologia, nesse sentido, precisa igualmente se libertar de um lugar patriarcal que, muitas vezes, produziu uma compreensão tóxica sobre Deus e sobre o ser humano. Aqui, a fundamental necessidade de uma perspectiva feminista da teologia.

A teologia feminista nos ajuda a resgatar compreensões e concepções fundamentais, além de despertar o olhar para aquilo que, por razões muitas e ideológicas, foram esquecidas ou propositalmente rechaçadas. Com tal teologia somos, inclusive, chamados a nos desvencilharmos do medo do feminino, tão presente tradição cristã, sobretudo no catolicismo. Tal como Jesus, que em sua atuação filial, contribuiu para um alargamento da compreensão sobre Deus, a teologia feminista contribui, sobremaneira, para uma teologia mais responsável e humanizadora. Sem o feminismo, a cultura patriarcal, mais das vezes machista e misógina, adoece as relações e diminui, mulheres e homens, em sua humanidade. O mesmo não nos furtamos a dizer a respeito da teologia: sem a compreensão feminista e a partir do feminino, a compreensão sobre Deus e sobre o ser humano é unilateral e empobrecida.

Nesse sentido, com Tânia Mayer somos chamados a nos perguntar: Quem tem 'medo' da Teologia Feminista? A tomada de consciência das mulheres de fé, no âmbito da teologia, não nos permite mais pensar um Deus alheio às questões tão próprias da experiência do feminino. Com a teologia feminista, em suas perspectivas plurais, o feminino está reconciliado em Deus. Uma compreensão alargada sobre Deus, na qual ele é reconhecido também em seu feminino, liberta e amadurece as relações humanas.

O feminismo não é uma questão passageira. É uma questão permanente, enquanto não crescermos na consciência de uma humanidade na qual masculino e feminino sejam legitimamente reconhecidos e vividos. Essa é também, então, uma questão para a religião. Karen Colares propõe sua reflexão, no artigo Feminismos e Cristianismos: A quem importa uma fé que não se importa? No texto, a autora insiste na importância de um olhar global a respeito do humano, incluso seu aspecto feminino, a partir da ideia fundamental para a teologia do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, num aporte eminentemente escriturístico.

“A mulher de dentro de cada um não quer mais silêncio”, canta Elza Soares. O pressuposto de um feminino presente e fundamental para uma compreensão orgânica e completa do humano é condição de possibilidade para que nos humanizemos e nos realizemos como pessoa. Tão logo, esse também se faz o papel da teologia, propor uma integração entre o masculino e o feminino. É o que faz e propõe Rodrigo Ladeira, no artigo Bendita sois vós!, no qual nos chama à conversa a partir da imagem-metáfora do sangramento.

 Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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