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07/12/2018 | domtotal.com

O preconceito verde-oliva

Como tudo na vida tem prós e contras, foi também no Exército que aprendi coisas que me serviram muito depois de grande.

São outros tempos; outras conjunturas; outros cenários políticos – até mesmo outro momento do mundo.
São outros tempos; outras conjunturas; outros cenários políticos – até mesmo outro momento do mundo. (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Por Fernando Fabbrini*

Cabeça raspada, adeus cabelão; nada de jeans ou camisetas com estampas psicodélicas. Tinha 19 anos quando o Exército Brasileiro recrutou-me para as suas fileiras. E lá fui eu, resmungando, indignado, envergonhado com o corte “Príncipe Danilo” máquina zero – quando todos os meus amigos usavam longos cabelos Woodstock-Rolling-Beatles.  

Servi ao Exército durante os chamados anos de chumbo. Éramos garotos apavorados, com um fuzil FAL carregado de balas ao ombro, montando guarda nos muros dos quartéis. O medo tinha razão de ser. Havia uma guerra no país, guerrilhas no Araguaia, no Caparaó e não-sei-onde mais; coquetéis molotov explodiam aqui e ali. E, sobretudo, bombas eram lançadas da rua por carros velozes e matavam garotos como nós; meninada que apenas prestava o serviço militar obrigatório ouvindo rock nos radinhos de pilha durante as madrugadas. 

Como tudo na vida tem prós e contras, foi também no Exército que aprendi coisas que me serviram muito depois de grande. Acordar cedo, cuidar da saúde, arrumar a própria cama, engraxar sapatos, fazer a barbicha diariamente. E também entender que hierarquia, ordem e disciplina funcionam; não são coisas do outro mundo. Aliás, até fazem bem e ajudam a tornar adulto um rapaz acostumado com as mordomias e permissividades costumeiras – às vezes exageradas – do lar.

Penei sob a exigência de sargentos e tenentes rigorosos, iguais aos das histórias em quadrinhos. Obrigaram-me a fazer sempre melhor as atividades do dia-a-dia, sem frescuras – do tipo lavar as privadas do batalhão usando tamancos e vassouras. Aqui não tem moleza, soldado. Por lá também tive minhas primeiras lições de solidariedade, de camaradagem, de espírito de equipe, de segurar as barras pesadas sem choramingar. No entanto, foram esses mesmos militares carrancudos que vi com lágrimas nos olhos quando nos despedimos das fardas, no último dia de quartel. Colegas daquela época são amigos até hoje. Recordamos e rimos daquele período difícil, mas inesquecível.

Agora, surgem apreensões veladas e explícitas sobre militares que vão ocupar postos no governo. Claro que entendo o temor: não se pode esquecer as histórias terríveis dos porões do terror; das torturas, das atrocidades reveladas por vítimas e sobreviventes. Eram tempos de guerra. Havia, sim, uma guerra. E guerra é guerra; é a loucura, a insanidade, a estupidez. Faz-se de tudo numa guerra, de ambos os lados.

Porém, são outros tempos; outras conjunturas; outros cenários políticos – até mesmo outro momento do mundo. Há uma nova mentalidade nos quartéis; jovens oficiais arejam pensamentos e rejeitam o passado traumatizante. É o que escuto e percebo de amigos e filhos de amigos que seguiram a carreira militar. Todos têm traços semelhantes: são estudiosos, verdadeiros CDFs; disciplinados, determinados, organizados. Os colégios militares são apertados e esse tipo de aperto é essencial em qualquer aprendizado, não?

Além do mais, militares em geral são patriotas, palavra que vem sendo desprezada sistematicamente – como se o fato de gostar da própria terra fosse uma coisa tola, desprezível e careta. 

 Por tudo isso – lembranças e constatações – acho que um pouco de disciplina, método, sacrifício e ordem não farão mal ao Brasil nesse momento. E sejamos francos e imparciais: preconceito contra militares é um preconceito como qualquer outro. Já não temos preconceitos demais nesse mundo, pessoal?

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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