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10/12/2018 | domtotal.com

De manhã com o aposentado

Escreve das seis às nove, porque a partir dessa hora tem algo igualmente importante não a fazer.

Voltará a escrever à noite ou no dia seguinte.
Voltará a escrever à noite ou no dia seguinte. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

O que faz o aposentado numa manhã de domingo? Escreve. Sim, escreve. Um conto, uma crônica, uma trova, um pensamento, algo assim. Costuma não gostar do que escreveu, então joga na cesta de lixo. Mas sempre agradece a Deus por chegar a mais um domingo e por ter aprendido a escrever as coisas que joga na cesta de lixo.

Escreve das seis às nove, porque a partir dessa hora tem algo igualmente importante não a fazer, mas a ver e ouvir até à uma da tarde. Voltará a escrever à noite ou no dia seguinte.

Mas o que é que ele tem a fazer, depois de escrever umas duas, vinte, duzentas ou trezentas palavras de qualquer coisa e jogar na lixeira? É ligar a TV Cultura e assistir a quatro horas seguidas de programas que começam precisamente às nove com música caipira: Viola Minha Viola. Diferentemente de outros aposentados, ele gosta da música conhecida como “de raiz”. Não a tal sertaneja universitária, isso jamais. De raiz é a música de violeiros e cantadores que sabem contar, em ritmo de cateretê, toada, cururu ou pagode, histórias cheias de metáforas extraídas das coisas do campo e às vezes até da cidade. Poéticas ou satíricas, são sempre boas de ouvir. Esse programa, Viola Minha Viola, era apresentado pela cantora Inezita Barroso, a dama-rainha do folclore e da música caipira. Morreu em 2015, dias após completar 90 anos. Foi para tristeza geral que ela então se despediu da TV, da música, dos caipiras e do mundo. Mas o programa continuou, com edição de reprises sob o comando de Adriana Farias, uma cantora loura e violeira, bonita de cara e de voz.

Depois desse programa entra em seguida outro, que o aposentado em epígrafe não perde por nada neste mundo. Chama-se Sr. Brasil, criado pelo octogenário, mas ainda inteiro Rolando Boldrin, poeta, compositor, ator e apresentador de altíssima qualidade e simpatia. O programa é dedicado à música brasileira de todos os estilos e ritmos, que ele diz ter criado com a finalidade de “tirar o Brasil da gaveta”. E tira, realmente. Aparecem ali instrumentistas e cantores de grande talento, alguns deles pouco ou nada conhecidos. São os que ele tira da gaveta. 

Vem em seguida Brasil Toca Choro, programa que traz à tela composições de Jacob do Bandolim, Pixinguinha, K-Ximbinho, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Valdir Azevedo, Zequinha de Abreu, Altamiro Carrilho, Canhoto e outras feras do chorinho. O choro, como se sabe, é uma exclusividade mundial da música brasileira. No programa, vários são interpretados em sopro e cordas por instrumentistas de primeiríssima qualidade. Programa muito bem produzido e bem editado, é uma preciosidade na programação da TV brasileira.

E as quatro horas domingueiras do aposentado terminam com algo só possível na TV Cultura: Prelúdio, programa de calouros da música clássica. O único do gênero no Brasil, que premia o vencedor com uma bolsa de estudos na Academia Franz Liszt, de Budapeste, concedida pela embaixada da Hungria. Concorrem todo ano dezenas de jovens instrumentistas simplesmente maravilhosos que se apresentam com a Orquestra Prelúdio, do maestro Júlio Medaglia. Também aparecem cantores líricos (a maioria cantoras) de vozes belíssimas, interpretando árias dos grandes compositores de óperas. Um júri de alto nível seleciona os candidatos em cada fase do concurso.

Bom, agora sim, é hora de almoçar. Se Deus quiser, se tiver a infinita bondade de conceder mais uma semana de vida ao nosso velho amigo velho, no próximo domingo ele repetirá a dose. A dose não, as doses. Porque são indispensáveis uns traguinhos na programação do lado de cá da tela.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

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