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Religião

10/12/2018 | domtotal.com

Des-moralizem os corpos!

Tão importante é o meu corpo para a realização do meu ser pessoa, que a ressurreição é também da carne.

Uma relação saudável com o corpo parte da perspectiva do dom.
Uma relação saudável com o corpo parte da perspectiva do dom. (João Santos by Unsplash)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Uma das afirmações mais escandalosas do cristianismo é que Deus tem um corpo! Bendita seja a encarnação do Cristo, que nos ensina que “Deus não rejeita a obra de suas mãos” (Adélia Prado). Deus tem um corpo, é filho de mulher (Gl 4,4)! Desde cedo, o cristianismo compreendeu que a assunção de um corpo humano, por parte de Deus, era condição de possibilidade para a salvação: a encarnação é necessária, não contingente. O absoluto de Deus fez sua morada no frágil, no que é passível de envelhecimento, de morte. O corpo humano tem dignidade!

Diante disso, pergunto a você, leitor e leitora, que tem ou teve alguma relação com alguma comunidade cristã: quantas vezes, numa celebração, foi ressaltada a dignidade do corpo, sem moralismos e sem associações ao pecado? Crianças, descobrindo o próprio corpo, crescem ouvindo sempre um “tire a mão daí”. Adolescentes, no florescer de uma sexualidade mais pulsante e viva, corroem-se de culpa. Pessoas morrem irreconciliadas com as potencialidades do próprio corpo. Sintomas da chamada culpa católica.

Um cristianismo que despreza o corpo, despreza a especificidade de seu anúncio. Da mesma forma que se deve romper com todas as formas de objetificação e de instrumentalização do corpo, sua idealização – inclusive e talvez, sobretudo, a religiosa – também deve ser rechaçada. O cristianismo precisa voltar a olhar para o corpo com generosidade. Ele não é sede do pecado; ao contrário, é caminho de mediação de graça. Um corpo não reconhecido é uma vida privada de realização. O corpo não é, bíblica e cristãmente falando, prisão da alma. Tão importante é o meu corpo para a realização do meu ser pessoa, que a ressurreição é também da carne.

É preciso des-moralizar o corpo. Não, não significa que o corpo deve ser tratado de forma imoral. Longe disso. Trata-se de compreender que a primeira relação a ser estabelecida com o corpo, o nosso próprio e os dos outros, não é pela via da moralização. Uma relação saudável com o corpo parte da perspectiva do dom. Se é dom e caminho de realização do ser pessoa, precisa ser cuidado, amado. A moral, aqui, precisa ser entendida como zelo e como responsabilidade para com o corpo, e não pela perspectiva que escrúpulo, que mais demonstra medo que santidade.

Por que temer o corpo? O corpo é caminho e, ao mesmo tempo, encruzilhada: ponto de encontro, de doação, de possibilidade de ser e de se dar e receber. Na eucaristia, comemos corpo; apropriamo-nos do corpo de Cristo, para a realização do que somos, em nossa corporalidade: pessoas humanas. As religiões cristãs, longe da tentação de demonização do corpo e das suas possibilidades e potencialidades, devem contribuir para a libertação dos corpos, sobretudo daqueles mais oprimidos: corpos negros, femininos, lgbt+’s... O ato criador de Deus continua no universo e em nossos próprios corpos: resgatar a bondade do corpo é receber, com gratidão, nossa criaturalidade fruto de um amor gratuito.

 Vamos des-moralizar os corpos. Neles, só uma moral que realmente humanize e dignifique. O escrúpulo na lida com o corpo, sobretudo no discurso religioso, desumaniza e traz consequências nefastas para o desenvolvimento de nosso ser pessoa. Sejamos arautos de corpos libertos, de corpos – todos – dignos de serem amados. Eis a nossa encarnação! Eis o nosso natal!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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