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11/12/2018 | domtotal.com

Democracia em risco

Timothy Snyder também fez um alerta para o bem da democracia ocidental.

Ao ser perguntado sobre como estava a democracia nos Estados Unidos, Snyder respondeu: 'Um pouco perturbada'.
Ao ser perguntado sobre como estava a democracia nos Estados Unidos, Snyder respondeu: 'Um pouco perturbada'. (AFP)

Por Lev Chaim*

O historiador e escritor da Universidade norte-americana de Yale, Timothy Snyder, esteve na Holanda na semana passada e deixou muitos boquiabertos com suas palavras sobre o perigo que rondam nossas democracias. Ele veio para promover o seu novo livro The Road to Unfreedom. Russia. Europe. America ( O Caminho para a falta de liberdade. Rússia. Europa. América.) Eu fui um dos que ficou com o queixo caído com a entrevista que ele deu ao jornal holandês NRC.

“O debate público tem a necessidade de certas regras. Mas no mundo digital essas regras desapareceram e isto fragiliza a democracia no século 21”, disse Snyder. Como assim? Ele explicou que para dar esta entrevista, ele não apareceu com uma roupa de escafandro ou coisa parecida. Existem regras para isto. E seu raciocínio seguiu em frente: “No mundo digital, imaginávamos que as regras seriam criadas espontaneamente, mas não aconteceu. E os russos perceberam isto antes de todos nós e estão usando o caos a seu favor”.

Ao ser perguntado sobre como estava a democracia nos Estados Unidos, Snyder respondeu: “ Um pouco perturbada. Alguns institutos que teriam que nos proteger falharam. O Congresso teria que abrandar os excessos de Trump e não o faz. O controle sobre o presidente teria que existir sempre, independentemente do partido que estivesse no poder. O que funcionou muito bem na América foram os protestos e o jornalismo investigativo. Em outras palavras: a primeira emenda da constituição - liberdade de expressão”. 

Logo após a eleição de Trump como presidente, o professor Snyder lançou um panfleto alertando para o perigo do autoritarismo. Perguntado se as suas apreensões mostraram-se verdadeiras, ele respondeu que “Trump, como indivíduo, sim:  ao denominar os jornalistas de inimigos, ao incentivar a violência contra inimigos políticos, ao preparar a sua política externa como se estivesse preparando um de seus negócios privados, por ser amigo de ditadores e por ser inimigo de pessoas que apoiam a democracia. E em relação sua estratégia para a política interna do país, Trump sempre usa a expressão: ‘nós contra vocês!’ Ou seja, ele não tem plano algum para apresentar aos seus seguidores, mas os estimula ao conflito com os outros.”

E ainda segundo o professor Snyder, um dos graves problemas dos Estados Unidos no momento é a falta total de comunicação direta de pessoas com pessoas e não apenas através do mundo digital. Hoje em dia o homem baseia seus conhecimentos através das fontes digitais, muito mais do que de fontes de contato direto. E ele faz ainda o alerta: “A mídia social sabe muito bem o que lhe chama a atenção. Para que a democracia funcione, temos que ter a oportunidade de mudarmos de opinião e isto se faz mais facilmente com contatos cara-a-cara. Quando uma gravação em vídeo de Trump dizendo que não existia problemas em seduzir mulheres e tudo mais, amigos seus, russos, divulgaram uma notícia falsa sobre Hillary Clinton, afirmando que ela tinha um site internacional de pedófilos. Com isto, os apoiadores de Trump se esqueceram do que ele disse sobre as mulheres para cair matando em cima de Hillary Clinton. E toda essa intensidade de ódio só foi possível graças à internet”.

Timothy Snyder também fez um alerta para o bem da democracia ocidental: “Na política oficial do governo russo está escrito, desde 2013, que a Rússia não acredita que a União Europeia (UE) continuaria existindo. Putin considera a UE como decadente e corrupta”. Em seu livro, Snyder mostra o que os próprios russos tentam fazer com sua política exterior: desestabilizar a UE; apoiar o Brexit; o partido francês populista e nacionalista - Frente Nacional; o partido alemão da extrema-direita; o primeiro-ministro reacionário da Hungria, Viktor Orbán e as guerras cibernéticas na Geórgia, Estônia e Ucrânia. “São fatos comprovados”, disse o professor.

Quando perguntado sobre como poderíamos proteger as nossas democracias de tudo isto, ele respondeu: “É importante que continuemos a dar notícias do que ocorre na Rússia. O país ainda é um tanto abstrato na mente de muitos, o que o torna atraente para a extrema-direita. Quantas dessas pessoas conhecem a Rússia e o que acontece ali realmente? Enxergam eles que ali não se pode confiar na polícia e que eles não possuem um estado de direito? A extrema-direita ocidental funciona como os russos nacionalistas: não existe futuro, mas somente uma espécie de misticismo e um passado fictício. E assim funcionam Trump, Putin e uma grande maioria da extrema-direita europeia que não necessitam fazer planos, apenas gritar: nós contra eles! ‘Eles’ são os imigrantes, os judeus e todos os que querem acabar conosco. Com isto, fica mais do que evidente que eles se consideram os bons, os certos, mas sem qualquer tipo de plano. Temos que lutar pela nossa democracia”.

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras para o Domtotal.

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