Religião

13/12/2018 | domtotal.com

Então, quais são as 'tendências homossexuais arraigadas'?

Francisco expressou sua preocupação em admitir seminaristas com tendências homossexuais arraigadas. Mas o que é exatamente uma 'tendência homossexual arraigada'?

A caracterização de gays e lésbicas feita por Francisco e sua noção de 'tendências homossexuais arraigadas' apenas fomentam as atitudes homofóbicas tóxicas.
A caracterização de gays e lésbicas feita por Francisco e sua noção de 'tendências homossexuais arraigadas' apenas fomentam as atitudes homofóbicas tóxicas. (Josh Applegate by Unsplash)

Por Jamie Manson

O papa que uma vez apontou, publicamente, sobre os padres gays, "Quem sou eu para julgar?", está julgando novamente.

Em uma entrevista recém-publicada, o papa Francisco reafirmou suas preocupações sobre a presença de homens gays no clero e de gays e lésbicas na vida consagrada.

Sua afirmação é uma resposta a esta questão, colocada pelo entrevistador, o padre claretiano Fernando Prado: "Não é segredo que na vida consagrada e no clero também há pessoas com tendências homossexuais. O que você pode dizer sobre isso?"

Francisco oferece uma resposta que é bastante sinuosa e até mesmo confusa em algumas partes. Ele afirma que a homossexualidade está "na moda" em algumas sociedades e que essa "mentalidade também influencia a vida da Igreja".

O papa conta uma história sobre um bispo que ficou "chocado" ao perceber que em sua diocese havia "vários padres homossexuais". O bispo, diz Francisco, "interveio, antes de tudo, na questão da formação para formar um tipo diferente de clero".

Mas o cerne da confusão e a controvérsia sobre a última declaração de Francisco é sua história sobre um religioso que percebe que alguns de seus estudantes e religiosos professos eram gays. Os religiosos do sexo masculino decidiram que "definitivamente não é uma coisa tão séria... é apenas uma expressão de afeto".

Ainda não está claro se esses seminaristas gays e religiosos estavam quebrando seus votos de celibato ou estavam realmente expressando sua homossexualidade através do afeto, ou, ainda, se os religiosos do sexo masculino veem a homossexualidade geralmente como uma "expressão de afeição". De qualquer forma, Francisco não gosta disso. Ele condena essa visão como "errada".

"Por esta razão", diz Francisco, "a Igreja recomenda que as pessoas com essa tendência profunda não sejam aceitas no ministério ou na vida consagrada. Seu lugar não é no ministério ou na vida consagrada".

Vários católicos progressistas correram para defender Francisco. Alguns argumentam que o papa está apenas contra sacerdotes e religiosos que quebram seus votos de celibato. Outros insistem que não incluiu os heterossexuais em sua condenação aos destruidores do celibato porque a pergunta do entrevistador era especificamente sobre padres e religiosos gays e lésbicas.

Mas pedir desculpas por Francisco dessa maneira é negar o que ele mesmo disse anteriormente sobre a homossexualidade e sobre a admissão de homens gays ao sacerdócio.

Em dezembro de 2016, Francisco assinou um documento bastante homofóbico chamado "O Dom da Vocação Sacerdotal".

Esse documento citava uma instrução de 2005 assinada pelo Papa Bento XVI que dizia: "A Igreja, respeitando profundamente as pessoas em questão, não pode admitir no seminário ou às ordens sagradas aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais arraigadas ou apoiam a chamada ‘cultura gay’".

Esta declaração esclarece palavras obtusas de Francisco em sua recente entrevista. Afirma claramente que, mesmo que um padre não esteja quebrando seu voto de celibato, se suas "tendências homossexuais" estão "profundamente arraigadas", perderá suas chances de ser padre.

Em maio de 2018, Francisco também se debruçou sobre a questão durante uma sessão fechada com a Conferência Episcopal Italiana. Como La Stampa relatou, Francisco expressou sua preocupação em admitir seminaristas com tendências homossexuais arraigadas, dizendo aos clérigos: "Se você tem até a mais pequena dúvida, é melhor não deixá-los entrar".

Mas o que é exatamente uma "tendência homossexual arraigada"?

A frase parece ter sido usada pela primeira vez no documento de 2005, intitulado "Instrução sobre os critérios para o discernimento das vocações em relação às pessoas com tendências homossexuais em vista de sua admissão ao seminário e às ordens sagradas".

Esse documento fez a distinção entre "tendências homossexuais profundas" e "tendências homossexuais" que são "transitórias".

A instrução não define precisamente quais são as tendências homossexuais profundas, mas declara que são "objetivamente desordenadas" e "frequentemente constituem uma provação".

As tendências transitórias, por outro lado, são inclinações que ou vão embora ou podem ser superadas ", por exemplo, a de uma adolescência ainda não superada".

"Não obstante", continua a instrução, "tais tendências devem ser claramente superadas pelo menos três anos antes da ordenação diaconal".

Esta noção de "tendências transitórias" deve nos preocupar a todos que estamos também preocupados com o dano causado a muitos jovens LGBTQ através de programas de terapia reparativa, como a apresentada no novo filme "Boy Erased".

Francisco aludiu a tendências homossexuais transitórias no passado, talvez de forma mais chocante durante o voo papal a Dublin, em agosto passado. Em comentários que depois foram redigidos na transcrição oficial do Vaticano, mas relatados pelo The Guardian, o papa parecia sugerir que as tendências homossexuais poderiam ser tratadas se surgissem durante a infância.

"Quando se mostra desde a infância, há muita coisa que pode ser feita através da psiquiatria, para ver como estão as coisas. É outra questão se aparecer depois de 20 anos", disse Francisco quando perguntado por um jornalista sobre o que diria aos pais que observassem características homossexuais em seus filhos.

A única pesquisa que pôde encontrar sobre essas tendências ditas profundas e transitórias foi um artigo intitulado "A distinção entre tendências homossexuais arraigadas e atrativos transitórios do mesmo sexo em candidatos ao seminário e à vida religiosa" (The Distinction between Deep-Seated Homosexual Tendencies and Transitory Same-Sex Attractions in Candidates for Seminary and Religious Life). Escrito por Peter Kleponis, Ph.D., e Richard Fitzgibbons, M.D., foi publicado em 2011 no The Linacre Quarterly, o jornal oficial da Catholic Medical Association.

A intenção do jornal era oferecer uma pesquisa que apoiasse a instrução do Vaticano de 2005 que proíbe os padres gays.

Segundo o site MaritalHealing.com, Kleponis participa da avaliação de candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa e oferece palestras na Courage, uma organização católica que trata a homossexualidade como um vício.

Fitzgibbons foi professor adjunto do Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família na Universidade Católica da América, em Washington, DC Em 2008. Bento XVI nomeou-o consultor da Congregação para o Clero do Vaticano, uma posição que não mais ocupa, de acordo com o último anuário do Vaticano.

De acordo com Kleponis e Fitzgibbons:

Aqueles com tendências homossexuais arraigadas geralmente se identificam como "homens gays", baseado em grande parte em suas atrações sexuais. Eles frequentemente rejeitam as descobertas científicas atuais de que não há base genética ou biológica para a SSA (same-sex attraction, atração pelo mesmo sexo) e acreditam que nasceram dessa maneira. Eles não veem a homossexualidade como uma inclinação desordenada, sentem-se confortáveis com suas atrações sexuais, aceitam a crença cada vez mais predominante de que a homossexualidade é uma variação normal da sexualidade humana e acham que não há nada errado com atos homossexuais. Suas crenças os tornam altamente vulneráveis a atos sexuais.

E o que os médicos acreditam ser as causas dessas tendências homossexuais profundas? Eles explicam:

Homens com tendências homossexuais arraigadas geralmente não estão dispostos a examinar a possibilidade de experimentarem conflitos emocionais em relacionamentos masculinos significativos que resultam em atração pelo mesmo sexo. Quando perguntados, são frequentemente incapazes de nomear um melhor amigo do sexo masculino na escola primária. Sua forte atração física pelos corpos de outros homens e pela masculinidade dos outros é o resultado de uma profunda fraqueza na confiança masculina, um desejo por aceitação masculina e uma imagem corporal fraca. Eles têm uma imaturidade afetiva significativa com raiva excessiva e ciúme em relação aos homens que não são homossexuais. Sua insegurança os leva a evitar amizades próximas com outros homens que não têm SSA.

Mais adiante, o artigo argumenta que os homens gays têm uma incidência significativamente maior de câncer e doenças psiquiátricas.

E quanto à atração transitória pelo mesmo sexo, Kleponis e Fitzgibbons "consideram preferível o uso dos termos como homossexualidade 'ego-distônica' ou homossexualidade 'obrigatória' ou 'opcional' porque implica a capacidade de mudar", escrevem os pesquisadores.

É este o tipo de lixo científico que Francisco, os bispos, os reitores de seminário e os membros da Congregação para a Doutrina da Fé estão confiando para apoiar a proibição de gays do ministério ordenado, e de gays e lésbicas da vida consagrada? Esta é a "pesquisa" que está impedindo que todas as pessoas LGBTQ desfrutem da plenitude da vida em sua igreja?

As palavras de Francisco nesta entrevista e o ensinamento contido em "O Dom da Vocação Sacerdotal" parecem sugerir isso.

Para o crédito de Francisco, ele não associa a homossexualidade ao abuso sexual clerical. Mas algumas das ideias que ele expressa neste novo livro, que contém sua entrevista, ainda são bastante prejudiciais.

O papa diz que os gays que já estão ordenados e as lésbicas e os gays que estão na vida consagrada devem "ser primorosamente responsáveis, tentando não escandalizar suas comunidades ou o santo e fiel povo de Deus vivendo uma vida dupla".

As palavras de Francisco pintam um retrato de gays e lésbicas como aqueles que sempre lutam para permanecer-se celibatários e que sempre correm um alto risco de causar um escândalo. O fato de que ele os mantém em um padrão especial de perfeição sem pecado sugere que o papa não apenas vê a homossexualidade como desviante, mas também vê os gays e as lésbicas como impotentes contra seus desejos sexuais e altamente vulneráveis a agir sexualmente.

O fato de Francisco voltar a essa questão com tanta frequência sugere que essa é uma de suas principais preocupações. A questão é por quê? E por que ele não se preocupa tanto com os padres heterossexuais que quebram seus votos de celibato?

Muitos membros do Vaticano preveem que no próximo ano o Sínodo dos Bispos, Francisco pode tentar relaxar a exigência do celibato. Ele disse mais de uma vez que a regra do celibato é mutável. A preocupação do papa com a exigência do celibato para os padres gays é sua maneira de reforçar essa regra, se chegar o tempo em que não haverá mais o celibato obrigatório? Ele tem medo de que, quando esse dia chegar, os padres gays se sintam com direito ao amor sexual como padres heterossexuais?

Independentemente de suas motivações, a caracterização de gays e lésbicas feita por Francisco e sua noção de "tendências homossexuais arraigadas" apenas fomentam as atitudes homofóbicas tóxicas que já são tão comuns nos seminários e nas comunidades religiosas, bem como na igreja em geral. Em sua tentativa de discutir "a força de uma vocação", ele apenas enfraqueceu a pouca esperança que os católicos LGBTQ ainda têm para seu pontificado.


National Catholic Reporter - Tradução: Ramón Lara

*Jamie Manson é colunista e editor de livros do National Catholic Reporter.

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