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13/12/2018 | domtotal.com

Monga e o pudim de pinga

Jurei declarar meu amor ao meu passado e até que se provasse ao contrário jurei amor a São Paulo.

São Paulo era sem medida, sem fronteiras, sem regras de boas e más condutas.
São Paulo era sem medida, sem fronteiras, sem regras de boas e más condutas. (REUTERS/Paulo Whitaker)

Por Ricardo Soares*

Está muito cedo para começarmos a fazer um inventário do que poderia ser os anos 80 mas eu mesmo jurei declarar meu amor ao meu passado e até que se provasse ao contrário jurei amor a São Paulo, a  primeira latitude e jurei contrair doenças de pele sob o ar da metrópole  e jurei ir com a cara cheia de socos  pelos caminhos que conduziam aos bares da urbe. Jurei amar, agredir, chorar, vomitar nas calçadas sem limpar sequer uma imundície antes de desvendar o rosto da cidade.

Para buscar a sua identidade e a nossa dentro dela é preciso revolver lixo e vísceras. Saber quais eram as primeiras e últimas coordenadas da cidade. Saber que ela  ainda ia além da Cohab de Itaquera ao leste ou dos índios de Parelheiros ao sul. Saber que todos os dias, nas casas alheias, o sol descascava tintas e nos trazia o arroto de linguiças. Saber que uma água suja escorria dos telhados pelas calhas toscas e se acumulava em quintais lamacentos que nunca tinham visto um pé de pau ou um verso sequer de Bilac.

Num desses quintais um sanfoneiro chamado Zé Casimiro com os pés muito inchados enlouquecia mansamente recordando a serra mineira de Piranga  onde ele espantava carrancas e maus fluídos tocando a sanfona acompanhado dos seus cachorros Coité , Mané e Chulé. Zé Casimiro descia e subia muitos morros, tocava “Ai que saudades de Matão” nos baixos do acordeão , ultrapassava muitas porteiras. Na lembrança chegava em Catas Altas, dali ia para Itaverava,para nossa Senhora do Lamin  com a sempre  eterna saudade dos céus das Minas Gerais. Quanto mais os anos andaram e Zé Casimiro se afundou nas periferias de São Paulo mais recordava os acordes que levantavam o fluir do seu coração com as saudades de Matão nos baixos do seu acordeão.

Agora estava ali , muito mais que um mero sanfoneiro de pés inchados transformado em pudim de pinga. Fora um rapaz bem apessoado, casado com dona Margarida, já falecida, que lhe dera filhos, filhas e netos.  Fora um rapaz responsável e trabalhador, um homem de muita lida, um homem que jamais se imaginou ficar ali olhando a água suja descer pela calha indo pra o fundo do quintal enlameado onde nascia tímido um pé de mamão formosa.

Pelo Zé Casimiro e muitos mais, gente que não se podia contar ou mensurar, era impossível fazer um inventário, poético ou não , de uma cidade como São Paulo. E nem vou falar aqui dos atípicos padrões de violência que começavam a crescer doentiamente naquele começo de anos 80.

São Paulo não tinha como ser medida embora garantissem que pudesse ser medida. São Paulo era sem medida, sem fronteiras, sem regras de boas e más condutas. São Paulo era um gráfico, um “tudo em cima”, uma alvorada quadrada, um poleiro de pombos, uma fratura , uma bússola , uma descendência, uma cabeleira mal penteada, um cão uivando para a própria calçada.

Como estafeta de banco ou como repórter eu não tinha medo de mais nada na cidade. Nem de gato siamês ensimesmado, nem de climas variáveis, nem de vozes distantes ou fantasmas presos em leitos, gente amarrada ao próprio corpo. Não temia estradinha de terra, riacho de água suja , balaio cheio de anjos e mandingas, patuás , bifes estragados, ovos chocos, garapas batizadas.

Aprendi a andar além das visões comedidas, além dos fins de expedientes ou das horas extras. Aprendi a andar além dos carros de som ou dos palhaços de quermesse e aprendi a assustar mais que Monga a mulher gorila, mais do que o motociclista do globo da morte , mais do que a lona furada do circo velho prestes a desabar sobre nossas cabeças no Jardim Mangalot.

Tudo isso acabou por ser um acumulo de motivos em me distanciar mais ainda dos meus amigos que ficaram cifrados e contidos dentro de certos limites geográficos e existenciais que São Paulo oferecia ,digamos, com certo conforto. Aprendi a usar o termo “fora da zona de conforto” muito antes dele virar moda e, a bem da verdade, por conta desse comodismo estético e geográfico muitas vezes desprezei meus amigos e a poesia que deles vinha.

*Ricardo Soares é diretor de tv, escritor, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

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