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13/12/2018 | domtotal.com

Tiradentes sem perdão

Coube a mim a missão - considerada inglória, quase impossível - de acusar o réu.

O júri era formado por sete personalidades proeminentes do lugar, entre elas dois advogados.
O júri era formado por sete personalidades proeminentes do lugar, entre elas dois advogados. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

No meu tempo de segundo grau, a direção do Colégio Peçanha, onde eu estudava, resolveu promover, na comemoração do 21 de Abril, um júri simulado no qual o réu seria Tiradentes. Foram escolhidos dois colegas para a defesa e eu para promotor. Tínhamos mais ou menos a mesma idade, 17 anos. Sabia-se que os três pretendíamos ser advogados, daí a escolha para a sessão de julgamento.

Coube a mim a missão - considerada inglória, quase impossível - de acusar o réu. Mas a dificuldade me encorajou. “Esse Joaquim José deve ter defeitos, e eu vou descobri-los”, decidi. E saí à procura de informações. Mesmo se houvesse internet naquele tempo, não seria fácil achar alguma coisa que desabonasse a conduta do alferes. Vasculhei bibliotecas, entrevistei professores, percorri enciclopédias. Das informações que colhi, nada além de umas poucas eram desfavoráveis ao inconfidente. Aferrei-me a elas, certo de que era preciso engordá-las com uma boa retórica.

E chegou o grande dia - ou a grande noite. Lá estavam, lotando o galpão do ginásio, todos os alunos e a nata da sociedade peçanhense. O júri era formado por sete personalidades proeminentes do lugar, entre elas dois advogados. Fazia o papel de juiz o diretor do colégio, que abriu a sessão passando-me a palavra para a acusação.

Iniciei de forma teatral. Caminhei até o réu, representado por um aluno caracterizado com aquela veste branca dos mártires. Pus-lhe a mão no ombro e vociferei:

- Senhores jurados, eis aqui um autêntico herói de araque!

Fiz uma pequena pausa estratégica e continuei:

- Por acaso, é herói um homem reconhecidamente racista e capaz de espancar uma criança?

(Tinha lido que certa vez o Tiradentes, como policial que era, deu uns tapas num pretinho ao flagrá-lo furtando mangas num quintal. Narrei o caso dramaticamente. Deixei o menino quase morto após a surra que levou).

- Será herói um alferes da cavalaria que se alia a uma elite de sonegadores, homens abastados que se recusam a pagar impostos?

Nova pausa, e lá fui eu:

- Será herói alguém que exerce a prática ilegal da Odontologia? Não estudou, não fez curso algum, não é dentista, mas tira dentes. Certamente o faz com alicate não esterilizado, e sem anestesia. (Risos). Quantos terá matado de infecção generalizada? Que herói é esse?

Segui falando verdades e meias-verdades com tal ênfase que deixei a plateia pasmada. Falei uma meia hora. E terminei a lengalenga com uma bela sacada: disse que o alferes Joaquim José da Silva Xavier havia assumido toda a culpa dos inconfidentes porque tinha uma ambição extrema, desmedida. Ciente de que não teria perdão, queria passar à História como o herói da conjuração mineira.

E concluí de forma contundente:

- Em verdade, em verdade, como diria Cristo, este homem é um perigo para a sociedade, por isso deve ser condenado.

Recebi calorosos aplausos pelo meu desempenho mortal. Os dois advogados de defesa buscaram argumentos e simplesmente não acharam. As palavras fugiram-lhes. Engasgaram, gaguejaram, irremediavelmente derrotados. Por certo não tinham preparado a defesa com o mesmo empenho com que eu cuidara da acusação.

Naquela noite Tiradentes foi condenado por 6 votos a 1. Teve um voto de misericórdia.

Minha performance e minha vitória no júri foram o assunto predominante durante o baile que se seguiu. Devo acrescentar que naquela noite uma garota lindíssima e cobiçadíssima veio puxar conversa comigo. Perguntou se eu queria ser advogado ou ator. Foi o início de um tórrido namoro. Chamava-se Terezinha. Era, disparado, a garota mais bonita do Peçanha. Quem viveu viu.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

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