Religião

14/12/2018 | domtotal.com

Na aula de hoje, Exu

Você sabe o que é um Exu? Ou você está preso nas informações trazidas pelo senso comum desde os tempos de vovó?

O ensino religioso tem um papel fundamental na busca pela erradicação dos preconceitos religiosos e intolerâncias.
O ensino religioso tem um papel fundamental na busca pela erradicação dos preconceitos religiosos e intolerâncias. (SETUR/ Fotos Públicas)

Por Cassiana Matos de Moura*

Precisamos repensar o que é diversidade religiosa e até onde ela chega nas escolas. E, para tal, é necessário compreender a nossa obsessão negativa por Exu.

Uma das atrocidades da moral cristã popular é negar a existência de outras formas de crenças e a existência de outras divindades, demonizando-as quando estas coexistem no cenário religioso. Em especial, o cristianismo brasileiro trata as crenças afros e indígenas como a própria possessão do mal, mal este, vale ressaltar, necessário para a manutenção da lógica de coerção social da religião através do medo do desconhecido.

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As religiões de matriz africana são as que mais sofrem com tal demonização e há um tabu instaurado no que diz respeito a estas crenças. Mas não podemos esquecer que vivemos em um país laico de acordo com nossa constituição que em seu artigo 5º, parágrafo VI, dispõe: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”. O ensino religioso, disciplina que consta na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), prevê, em suas orientações, a garantia do estudo das várias manifestações de crença. Mas, de fato, como isso acontece?

Imagine seu filho chegando na escola e aprendendo sobre Exu? Ah! Uma atrocidade, um pecado, uma profanação. Mas já parou para pensar na lógica de quem acredita em outras divindades vivenciando apenas a perspectiva cristã?

É este o caminho: refletir sobre uma alteridade, permitindo que o outro exista com seus direitos e dignidades. O objetivo de falar de outras formas de crença e outras maneiras de se pensar a cosmovisão do universo está para além de se fazer alguém acreditar ou não naquilo que é posto em reflexão. Afinal de contas, quando se tem conhecimento comete-se menos gafes e incoerências sobre o que sabemos sobre o outro.

No último álbum da cantora Elza Soares, intitulado Deus é Mulher, a artista traz uma faixa que busca nos instigar a refletir sobre os caminhos e descaminhos que as discussões sobre religião nas escolas têm tomado. Na faixa Exú nas escolas, é apresentada a reflexão desde a negação das religiões de matriz africana devido a um racismo estrutural generalizado, que percebemos até entre negros, até as possíveis motivações da negação sobre o conhecimento da história desse deus iorubano.

Elza apresenta na canção duras críticas à relação estado, religião e negritude. Aqui, cabe compreendermos que a negação das religiões afros, muito se deve a um racismo instaurado desde o período da colonização. Vivemos em um país que nega o racismo e o vive de maneira ora velada, ora a olho nu.

Levar Exu às escolas possibilitará um diálogo respeitoso e honesto sobre a diversidade de crenças que permeiam o imaginário religioso brasileiro e, além disso, tirará essa sua obsessão por acreditar que Exu é um demônio. Cabe aqui uma pergunta, minha cara leitora, meu caro leitor. Você sabe o que é um Exu? Ou você está preso nas informações trazidas pelo senso comum desde os tempos de vovó?

O ensino religioso, neste caso, tem um papel fundamental na busca pela erradicação dos preconceitos religiosos e intolerâncias tão afloradas nos últimos anos. Para nós brasileiros é muito mais fácil e “prazeroso” estudar sobre os deuses vikings como Thor, e gregos como Zeus e Posseidon, afinal, são brancos e europeus. Mas, por que não falar sobre Tupã, Exu ou Iemanjá sem embranquecê-los ou demonizá-los?

*Cassiana Matos de Moura, Pedagoga, Mestra em Ciências da Religião, Professora de Ensino Religioso.

EMGE

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