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Religião

14/12/2018 | domtotal.com

Deus é mulher

Deus não cabe nas categorias humanas. Ele ultrapassa.

A bondade, o amor e a ternura de Deus se comparam com a mulher.
A bondade, o amor e a ternura de Deus se comparam com a mulher. (Yoann Boyer by Unsplash)

Por César Thiago do Carmo Alves, FMI

"De que planeta você veio?", "Vim do mesmo planeta que o senhor". "E posso saber de que planeta eu sou?". "Do Planeta Fome". Essa foi a primeira conversa que Elza Soares teve com o apresentador Ary Barroso na rádio Tupi, quando foi se apresentar em seu programa. Um diálogo impactante que delineia o que fora sua vivência até aquele momento marcada pela pobreza. Sua biografia é assinalada por opressão do machismo e do patriarcado, com requintes de crueldades. Apenas com 11 anos, Elza Soares foi obrigada a interromper os estudos para se casar com um amigo de seu pai. Com ele, Elza teve um filho aos 12 anos.  Sofreu a violência sexual e doméstica. Apresentou-se no programa de Ary Barroso com a finalidade de obter dinheiro para comprar remédios para o filho, que posteriormente morreu.  Aos 15 anos perdeu também o seu segundo filho. O motivo do falecimento foi a fome. Ao longo de sua vida, a cantora sepultou quatro filhos. Casou-se com o jogador Garrincha. Também com ele sofreu violência doméstica. Elza exilou-se na Itália no período da ditadura militar (1964-1985). Suas músicas são marcadas pela visceralidade de sua experiência existencial. Tocam nas temáticas das negritudes e das mulheres. Portanto, são canções contextualizadas. Por conta disso, em 1999 Elza foi eleita pela BBC Londres como a cantora do milênio. Seus dois últimos trabalhos são profundamente feministas. Tratam-se do álbum A mulher do fim do mundo (2015) e Deus é mulher (2018).

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A canção Deus há de ser, do álbum Deus é mulher, faz uma afirmação contundente: Deus é mulher. Essa é a afirmação que dará o nome ao álbum. Seria Elza Soares uma cantora herética ao cantar poeticamente esse atributo de Deus? Não estaria querendo negar a masculinidade de Deus? A música já em seu início pontua que Deus é mãe de todas as ciências femininas. Que esse jeito de ser de Deus transforma todo homem em menino. Que Ele amacia a dureza dos fatos. E explode o clímax da canção:

Deus é mulher.
Deus há de ser.
Deus há de entender.
Deus há de querer.
Que tudo vá para melhor,
se for mulher, Deus há de ser.

Deus há de ser fêmea.
Deus há de ser fina.
Deus há de ser linda.
Deus há de ser.

Essa forma de olhar Deus não é estranha para a teologia feminista. Já na década de 1980, quando houve a emergência da presença das mulheres nas universidades e nas instituições de formação teológica, elas buscaram, desde os textos bíblicos, apontar traços femininos em Deus. Por conta disso, começaram a afirmar que Deus é Pai, mas também é Mãe. Fazendo imersão nas personagens femininas presentes nas Escrituras, essas teólogas constataram que nem sempre as mulheres na bíblia exerceram papel de submissão, sendo essa submissão nada mais do que uma perversão teológica do judaísmo tardio/pós-exílico.

Como Elza Soares, a cantora do milênio, que afirma que Deus é Mulher/Mãe, a própria narrativa bíblica dá margens para essa interpretação. Isso se sabe, graças à pesquisa das teólogas feministas. Em Isaías 66,13 fala que Deus irá consolar Jerusalém da mesma forma “como a uma pessoa que a sua mãe consola”. Ainda em Is 49,15 e nos Sl 25,6; 115,5 afirma-se que Deus é incapaz de se esquecer do filho de suas entranhas. Jo 1,18 fala que ninguém viu a Deus. Somente o Filho unigênito que está no seio do Pai. Lc 13,34 Compara Deus a uma galinha tentando ajuntar seus pintinhos. Esses são alguns exemplos bíblicos que corroboram a possibilidade da afirmação do atributo de Deus como mulher/mãe. Dessa forma, mostra-se que a bondade, o amor e a ternura de Deus se comparam com a mulher. Nesse sentido, Elza Soares está em sintonia com os textos sagrados quando musicaliza que tudo vá para melhor, se for mulher, Deus há de ser. O que está em jogo aqui, pode-se dizer, são os afetos. Deus tem pathos. Ele não é impassível. Essa impassibilidade de Deus foi construída por uma teologia que não contemplava os atributos femininos de Deus. Precisava de um Deus onipotente, onipresente e onisciente. Que fosse forte ao modo masculino e não demonstrasse afetos. Afinal, os afetos eram vistos como coisas somente de mulheres e enfraqueciam a masculinidade.

Afirmar a feminilidade em Deus, ou ainda mais, de Deus, era praticamente, desde a perspectiva teológica construída tão somente pelos homens, uma afronta à divindade. Era reduzir/rebaixar a divindade. Todavia, os textos bíblicos, muito pelo contrário, apontam que essa marca em Deus eleva sua superioridade e confunde os que querem dominar ideologicamente, via a cultura machista-patriarcal e misógina. Nesse sentido, pode-se entender a oração de Jesus em Mt 11,25, quando louva ao Senhor do céu e da terra por revelar o Evangelho aos pequeninos.

A música Deus há de ser é herética? Nota-se que a resposta é negativa. Na verdade, ela é bíblica. Está em sintonia com as Escrituras que apontam para a polifonia da Revelação. Deus não cabe nas categorias humanas. Ele ultrapassa. Ele se revela desde as realidades. Isso, Elza Soares mostrou com maestria. Traços de sua história de vida foram teologizados numa canção, enriquecendo, a partir da arte, a própria teologia.

*César Thiago do Carmo Alves pertence à Congregação Religiosa dos Filhos de Maria Imaculada (Pavonianos). É doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.

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