Religião

14/12/2018 | domtotal.com

Religião, teologia e Elza Soares

Elza Soares, com o álbum 'Deus é mulher', interpela a teologia e o cristianismo.

Em Deus é Mulher, a arte de Elza Soares levanta questões importantes para o cristianismo atual, que precisa dialogar com esse mundo em constante transformação e cada vez mais plural.
Em Deus é Mulher, a arte de Elza Soares levanta questões importantes para o cristianismo atual, que precisa dialogar com esse mundo em constante transformação e cada vez mais plural. (Elói Corrêa/ GOVBA)

Por Felipe Magalhães Francisco*

A teologia tem uma pretensão de alcançar o interesse público. Mas há um longo caminho até que o discurso teológico alcance tal lugar no debate público. Uma possibilidade que tem ganhado espaço no discurso e debate teológicos é o diálogo com a cultura e com as suas manifestações. É na cultura que o desenrolar da vida se dá e, nesse caso, torna-se lugar teológico, porque diz respeito à revelação do próprio Deus, que se humaniza e, nesse caso, culturaliza-se. Um esforço de diálogo com as ciências e com as artes tem sido feito por parte de teólogos e teólogas.

É nesse ambiente dialogal que nos propomos, neste Dom Especial, articular as temáticas da religião, da teologia e da arte mundialmente reconhecida de Elza Soares, enobrecida com o título de melhor cantora do milênio, pela BBC. A arte de Elza Soares está plenamente permeada por sua experiência existencial. Ela canta como mulher, negra, mãe, vinda de um ambiente de pobreza, marginalização, machismo e de muitas ambiguidades. O canto de Elza Soares é um grito de quem sabe do lugar da própria vida, e da legitimidade que essa vida, com direito de ser digna, tem. É por isso que seu canto é denúncia e, não nos furtamos a dizer: é profecia.

O último álbum gravado por Elza tem um nome bastante interpelador: “Deus é Mulher” (2018). É forte e sua ressonância ecoa com profundidade. É um grito de resistência. Uma chamada de atenção, nesses tempos de tantos retrocessos e involuções. Elza Soares, com esse álbum, interpela também a teologia e o cristianismo, que muitas vezes contribuiu e contribui para uma má compreensão da relação entre os gêneros e, com isso, na própria compreensão a respeito de Deus. Em Deus é Mulher, a arte de Elza Soares levanta questões importantes para o cristianismo atual, que precisa dialogar com esse mundo em constante transformação e cada vez mais plural. A partir de três canções desse importante e sugestivo álbum, os colaboradores que compõem esse Especial nos brindam com reflexões que nos ajudam a perceber como a religião e a teologia devem estar atentas e disponíveis ao diálogo com a arte, sobretudo com essa arte tão contextualizada e necessária, tal como temos em Elza Soares.

Abrindo o diálogo, temos César Thiago Alves, com o artigo Deus é Mulher, no qual pauta sua reflexão a partir da canção Deus há de ser. Revisitando elementos biográficos da história da cantora, o autor propõe um olhar teológico a respeito da canção, que extrapola o lugar próprio da intérprete alcançando outros e mais amplos rincões. Nessa perspectiva, o autor faz uma relação entre a canção interpretada por nossa cantora e a importante teologia feminista.

Gustavo Ribeiro propõe o artigo A catequese da cantora do milênio, onde reflete sobre a canção Credo. No texto, Gustavo propõe um olhar catequético a respeito daquilo que nos interpelam alguns versos da canção. Diante das boas provocações que a música nos traz, o artigo propõe um caminho de reflexão a respeito da realidade brasileira, bem como do convite à superação do ódio, do machismo, da injustiça e da violência.

Ampliando ainda mais a conversa, temos o artigo Na aula de hoje, Exu, de Cassiana Matos de Moura. A partir da canção Exu nas escolas, a autora reflete a respeito da laicidade do Estado, bem como sobre a importância de um diálogo sobre religião que supere a tentação de supremacia das religiões majoritárias. Nesse convite ao diálogo, salta ao olhar as duras críticas que a canção faz às relações entre religião, estado e negritude. Assunto cada vez mais necessário, sobretudo quando vivemos o risco de viver uma teocracia fundamentalista.

 Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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