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25/12/2018 | domtotal.com

Poder e aquecimento global

A questão do aquecimento global é tratada em um contexto de poder econômico e cultural de longo prazo e também de segurança nacional.

Quando paramos um pouco para pensar as peças do quebra cabeça parecem se encaixar.
Quando paramos um pouco para pensar as peças do quebra cabeça parecem se encaixar. (Pixabay)

Por Jose Antonio de Sousa Neto*

Não é a primeira vez que abordo tema do aquecimento global, mas volto a ele em função de uma instigante e aparentemente irracional comportamento de nações e suas lideranças no que concerne a questão do aquecimento global. Sempre, em situações semelhantes, onde muitas coisas parecem ilógicas e até mesmo irracionais eu me lembro da até certo ponto divertida frase que também já mencionei aqui em outros textos: "nem tudo que tem lógica funciona, mas tudo que funciona tem lógica"!

Quando paramos um pouco para pensar as peças do quebra cabeça parecem se encaixar. E quando isso acontece a hipótese derivada do raciocínio parece se materializar por conta própria e com grande naturalidade.

Vamos começar pelo atual presidente dos EUA, Donald Trump. Às vezes parece inverossímil vê-lo atenuando ou mesmo quase negando a gravidade da questão do "global warming" que tem sido levantada e defendida por uma corrente majoritária de cientistas. Mesmo que haja algum dissenso sobre o tema, basicamente sobre a escala do problema, a negação da questão como um todo se restringe a um grupo de pessoas bem mais restrito. Por outro lado uma pessoa dificilmente alcança o poder em uma grande nação sem ter uma capacidade intelectual relevante, não entrando aqui no mérito desta capacidade, seu direcionamento ou o suporte material e econômico que lhe ampliam sua projeção. Assim chega a ser ingênuo acreditar que o presidente dos EUA apenas não acredita ou não entende a complexidade do tema e suas consequências.

Neste ponto mudamos de continente e vamos pensar um pouco sobre alguns dos grandes desafios do Império do Centro, a China como definida pelos próprios chineses (para uma boa introdução sobre a China vale a pena ler o livro On China de autoria de Henry Kissinger). Seus desafios estratégicos e geopolíticos são enormes e mesmo que possamos discordar de alguns mecanismos e instrumentos através dos quais a China  implementa sua política externa, não é possível não reconhecer que algumas necessidades básicas do país levem a preocupações legítimas e de grande relevância. A questão de recursos naturais e a questão da segurança alimentar estão no topo da agenda deste país que ainda tem (deve ser ultrapassada pela da Índia em futuro não distante) a maior população do mundo. Neste contexto a capacidade de manufatura  da economia chinesa, do básico ao tecnológico cada vez mais presente, é um pilar. É a força motriz do poder econômico que sustenta sua geopolítica e suas estratégias de projeção de poder mais relevantes. Dentro desta lógica a China simplesmente, pelo menos em um horizonte mais próximo, não pode absolutamente parar sua manufatura. Mesmo que haja um temeroso custo ambiental de curto prazo, a visão é de uma liderança global e mesmo eventual hegemonia neste século e no próximo. Liderança e hegemonia talvez não por si mesmas, mas por segurança estratégia da nação e de seu povo.

Atravessando de volta o oceano pacífico não é difícil imaginar as legítimas preocupações de estrategistas americanos no que concerne aos riscos e desafios da nação para este século e o próximo. Dependendo das conclusões a que chegam entendem que precisam evidentemente agir estrategicamente desde já, e não esperar o futuro para reagir. São evidentemente questões de crucial importância estratégica e, mais ainda, questões de segurança nacional. Sob esta ótica é preciso reagir a todo custo inclusive na estratégia industrial e manufatureira.

Quando alguns valores e questões culturais entre dois países divergem de forma relevante  em alguns pontos, a desconfiança pode atingir grandes proporções em um equilíbrio de perde-perde. E dadas as evidencias históricas da evolução das sociedades e dos países, há de se reconhecer que precauções são, mais do que prudência,  uma necessidade.

Estamos falando, portanto, ao longo de todo este texto, sobre poder. A questão do aquecimento global é tratada em um contexto de poder econômico e cultural de longo prazo e também de segurança nacional. A hipótese para a lógica é que os custos ambientais de curto e médio prazo são menores que os custos e consequências de longo prazos derivados de um deslocamento global de poder que tem implicações existenciais para uma nação e seu povo.

E as potencias médias? Para elas o jogo de poder é outro. Talvez em muitos casos para elas seja mais fácil conciliar o ético de curto prazo com as necessidades estratégicas do longo. O desenvolvimento de tecnologias amistosas à preservação ambiental têm além de tudo um enorme potencial econômico e de geração de riquezas.  E um país como o Brasil?  Quando tomamos conhecimento que o país pode produzir de 45% a 48% de toda a comida do mundo, e em uma vantagem competitiva quase imbatível, não é difícil fazer correlações com o que já ponderamos ao longo deste texto. Inclusive no trade off das questões de segurança nacional no contexto da preservação ambiental.

 Parece, portanto, caro leitor, que o poder e aquecimento global estão inexoravelmente ligados. No final das contas, e como quase tudo na história humana, "its all about power". O problema é que, embora no curto e médio prazos todos já estejam sendo afetados, tragicamente são os mais pobres que estão ficando com a maior parte da conta. As consequências humanitárias não podem ser medidas em rankings de poder e nem em dinheiro.

* Professor da EMGE

EMGE

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