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01/01/2019 | domtotal.com

O reality show de Kevin Spacey

Tudo dito no vídeo pode se referir tanto a ele quanto ao vilão que encarnou durante cinco anos.

A reaparição quase fantasmagórica deste Kevin Spacey híbrido de ser humano e figura de imaginação mostra a disposição do acusado ex-ídolo de não sucumbir sem luta.
A reaparição quase fantasmagórica deste Kevin Spacey híbrido de ser humano e figura de imaginação mostra a disposição do acusado ex-ídolo de não sucumbir sem luta. (Reprodução / Youtube)

Por Alexis Parrot*

No último dia 24 de dezembro, Kevin Spacey publicou um vídeo em seu canal do Youtube onde volta a interpretar o político amoral de House of Cards, Frank Underwood (mesmo sem citar o nome do personagem, o sotaque sulista e o texto declamado não deixam dúvidas sobre a identidade de quem estamos assistindo ali).

Desembarcado da última temporada da série devido a várias acusações de assédio sexual, o ator surgiu no post em uma cozinha, vestindo um avental com estampa natalina para realizar mais um dos monólogos em que olha diretamente para a câmera, celebrizados durante toda a trajetória do programa.

Spacey seguiu a trilha iniciada durante toda a última temporada, onde os outros membros do elenco se referiam a Underwood com falas habilmente montadas para ficarmos na dúvida, se estavam falando mesmo do personagem ou do ator demitido.

Tudo dito no vídeo pode se referir tanto a ele quanto ao vilão que encarnou durante cinco anos. Diz que nunca viveu de acordo com regras impostas, mas era isso o que admirávamos nele; que nunca pagou pelo que fez de errado e não pagará pelo que não fez.

Olho no olho, questiona se seríamos capazes de julgar sem a existência de fatos. E complementa: "...Você fez isso?". Termina perguntando se não sentimos falta dele.

É, sem dúvida, um manifesto de defesa e impressiona pela ousadia. Ao usar o personagem para responder às acusações que recaem sobre si e, de quebra, ainda criticar veladamente os caminhos dramatúrgicos escolhidos para encerrar a série, Spacey emerge do limbo pessoal e profissional a que foi obrigado em uma jogada, se não de mestre, certamente de marketing.

Embaçando as fronteiras entre realidade e ficção, ele questiona o primado das fake news em proveito próprio, distorcendo o que seria ou não verdade sobre sua reputação de predador sexual. Se algo não foi visto por ninguém (como a morte de Underwood na série), quem garante que aconteceu de fato?

A analogia é límpida e cristalina: assim como o ex-presidente de House of Cards pode ainda estar vivo, como afirmar que o ator fez de fato o que alegam contra ele? Seria a palavra das vítimas contra a dele - e é neste perturbador jogo de lógica  que o vídeo quer que embarquemos.        

A reaparição quase fantasmagórica deste Kevin Spacey híbrido de ser humano e figura de imaginação mostra a disposição do acusado ex-ídolo de não sucumbir sem luta. Porém, mais que isso, é uma convocação para o beneplácito da dúvida. Usa seu talento de ator e carisma (as melhores armas que possui) para uma tentativa de sedução nada barata, mas de forte apelo emocional e arrogância.

Após este post (já visualizado por milhões de pessoas), está claro que não ouviremos dele pedido algum de desculpas. E o veículo escolhido para disseminar a sua versão dos fatos é unilateral - há a possibilidade da publicação ser comentada, com likes ou dislikes, mas nada além disso.

É o método Bolsonaro de se pronunciar fazendo escola. O presidente eleito do Brasil não concede entrevistas, mas quando acontecem, se dá ao direito de responder apenas aquelas perguntas que lhe convêm. Seu canal de comunicação estabelecido com o povo é o vídeo publicado nas redes sociais, um oásis de tranquilidade, onde diz os absurdos que diz sem nenhum tipo de mediação ou possibilidade de questionamento em tempo real.

Elegendo o estratagema como modus operandi , o político e o artista se igualam, transfigurando-se em meros personagens de si mesmos - como reza a cartilha de qualquer participante de reality show; um formato de televisão onde a aparente verdade pretende ser mais real que a própria realidade.

Ao transformar o real em reality, Spacey e Bolsonaro nos tomam por plateia de programa de auditório. Misturam o público e o privado e desejam que crimes (como as acusações de assédio de um e todo o imbroglio dos depósitos na conta bancária do ex-assessor do filho do outro) sejam confundidos com atração de TV.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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