Religião

04/01/2019 | domtotal.com

Porta-voz do Vaticano e vice se demitem. Alívio para ambos?

Em um dos anos que promete ser um dos mais intensos do pontificado de Francisco, os responsáveis pela sala de imprensa da Santa Sé deixam o cargo.

Burke e Paloma se apresentam como novos diretores da Sala de Imprensa da Santa Sé, em 2016.
Burke e Paloma se apresentam como novos diretores da Sala de Imprensa da Santa Sé, em 2016. (Vatican Media)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*

Esta semana, o mundo inteiro foi surpreendido com a notícia de que o diretor e a vice-diretora da Sala Imprensa da Santa Sé - Greg Burke e Paloma Ovejero - resolveram apresentar a carta de demissão ao Papa Francisco. Rapidamente, a imprensa italiana bombardeou a rede com análises e interpretações do caso, muitas das quais pautadas em deduções que chegaram até a questionar - injustamente - o profissionalismo de ambos. Sem dúvida alguma, não foi uma decisão tomada do dia para a noite, e Burke, em sua conta oficial no Twitter, fez questão de frisar isso: “Agradeço pelas palavras gentis enviadas a mim e a Paloma neste dia. Só para que todos saibam: nós rezamos antes dessa decisão por meses, e estamos muito em paz com isso. Obrigado”.

Antes dessa mensagem de agradecimento, o ex-diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé disse, na mesma rede social, que o afastamento foi motivado por “um desejo de dar espaço para que Francisco conduza a sua reforma da melhor forma possível”. Como não houve outro pronunciamento oficial além desses emitidos e replicados na internet, agora é minha vez de interpretar o caso como uma jornalista estrangeira credenciada junto ao Vaticano e, assim, oferecer uma outra perspectiva sobre o caso.

Tive a oportunidade de estar lado a lado com Paloma em muitas das coberturas realizadas no Vaticano, quando ela ainda atuava como correspondente da Cope, uma das principais cadeias nacionais de rádio da Espanha. Uma jornalista atenta, experiente e muito amigável. Nós, jornalistas “da lida”, nos sentimos muito representados quando saiu a sua nomeação, e nós mulheres, então, nem se fala: ela foi a primeira a ocupar o cargo desde que o órgão foi criado. De repente, aquele ambiente foi tomado pela esperança de tempos novos, uma vez que aquela estrutura clamava por uma renovação há muito tempo. Greg Burke, por sua vez, já era conhecido de todos. Além de ter atuado como vice-diretor da sala de imprensa na era Lombardi, trazia na bagagem uma vasta experiência nos principais meios de comunicação dos Estados Unidos. Os dois formaram um time que tinha tudo para dar certo: iniciaram modernizando muito daquele aparato arcaico contra o qual muitos de nós, jornalistas que transitam pelos eventos dos “sagrados palácios”, nos queixamos pelo menos uma vez na vida. Dois leigos, dois jornalistas como nós, improvisamente, deram mais leveza àquele ambiente de “comunicação clerical” que, muitas vezes, nos deixava mais perdidos que informados.

Mas em meio a essa tentativa de proporcionar aos jornalistas maior facilidade na execução dos trabalhos e transmitir ao mundo o frescor de um pontificado que apostou todas as fichas na comunicação, entra a reforma de Francisco. Uma reforma necessária, eficiente, mas que, atualmente, não está muito clara, em se tratando dos meios de comunicação da Santa Sé. Aos poucos, o time promissor Burke-Ovejero foi nitidamente colocado de escanteio e “engolido” pelo então dicastério da comunicação recém-criado. A Sala de Imprensa da Santa Sé, que sempre atuou como protagonista da comunicação vaticana, se transformou em uma mera “fábrica” de comunicados. Essa nova forma de atuar, que nem nós conseguimos compreender, ficou mais evidente durante o último sínodo para os jovens, realizado em outubro. Paolo Ruffini, prefeito do dicastério da comunicação recém-chegado, foi o porta-voz do evento, algo que, sem dúvida, deveria ser confiado à dupla de diretores.

Sem contar que há um grupo de jornalistas que, há muito tempo, “flerta” com esses cargos, os quais, por questão de ética, não serão nominados neste artigo. A nomeação de Andrea Tornielli como editor-chefe dos meios de comunicação vaticanos e de Alessandro Gisotti como porta-voz interino é uma confirmação de que a sala de imprensa vaticana tende a italianizar-se de novo: para a alegria de alguns. O que pode ser positivo para a instituição, mas um desastre para a imprensa estrangeira, cujo modo de atuar é mais objetivo e preciso.

Uma coisa é certa: a saída dos diretores da Sala de Imprensa da Santa Sé acontece em um momento bastante delicado. Dia 23, Francisco segue para o Panamá por ocasião da Jornada Mundial da Juventude. No mês de fevereiro, o papa viaja aos Emirados árabes, sendo o primeiro pontífice a visitar o país. Ao final do mês, acontece a famosa reunião com as conferências episcopais para tratar do tema da pedofilia. Agora, resta saber se o novo grupo da comunicação eleito para essa fase de reformas conseguirá atuar bem nessa fase de transição que já foi responsável pela saída e pelos desafetos de quem só queria realizar bem seu trabalho.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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