Religião

11/01/2019 | domtotal.com

O neopentecostalismo no poder

Os planos de ocupação político-institucional do poder pelos evangélicos não é novo.

Frente Parlamentar Evangélica lança um Manifesto à Nação intitulado ''O Brasil para os Brasileiros'', no Salão Verde da Câmara dos Deputados (24/10/2018).
Frente Parlamentar Evangélica lança um Manifesto à Nação intitulado ''O Brasil para os Brasileiros'', no Salão Verde da Câmara dos Deputados (24/10/2018). (Valter Campanato/ Agência Brasil)

Por Robson Sávio Reis Souza*

Num país profundamente marcado pela mistura entre religião, cultura e poder, um fenômeno que precisa ser melhor estudado no Brasil é a ascensão dos evangélicos nos espaços da política institucional.

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O crescimento e fortalecimento do neopentecostalismo, o grupo mais aguerrido do universo evangélico, se expressam não somente no aumento quantitativo, na expansão geográfica e no decréscimo do catolicismo, mas, fundamentalmente, na ocupação do poder do estado por esse segmento religioso.

Os primeiros protestantes (Luteranos, Anglicanos, Batistas, Metodistas, Calvinistas) que chegaram ao Brasil a partir do final do século XIX, vindos do sul dos Estados Unidos e marcados pela escravidão, traziam uma religião socialmente engajada. Já em meados do século passado, foi surgindo dentro do protestantismo um movimento pentecostal que, no Brasil, se caracterizava pela ocupação dos meios de comunicação de massa e discreta participação na disputa de cargos públicos. A grande guinada dos protestantes para o conservadorismo se deu com a criação do neopentecostalismo à brasileira, resultado da transformação e readaptação das igrejas pentecostais, que veio à tona no final da década de 1970, e que hoje se faz presente nas mais diversas áreas do contexto nacional, da mídia ao cenário político, partidário e eleitoral.

A partir da atual década, seus líderes foram avançando nos espaços públicos de poder: primeiramente no Legislativo, através das chamadas “bancadas evangélicas” (nas câmaras municipais, assembleias e, principalmente, na Câmara Federal), assim como no Executivo. A eleição de Marcelo Crivella, prefeito do Rio, em 2016, foi sintomática. Ademais a chefia de ministérios por pastores, nos governos petistas, apontava esse alargamento da ocupação do poder pelos neopentecostais.

Observa-se também que, quando começaram a disputar os espaços de poder, as bancadas evangélicas estavam mais preocupadas na obtenção de benefícios tributários e benesses do Estado. Porém, numa guinada estratégica, alguns políticos e lideranças evangélicos passaram a defender uma agenda moralista e conservadora, de cunho fundamentalista. Essa agenda foi se reverberando num contexto sociopolítico marcado por disputas reais e simbólicas: de um lado, narrativas e modos de governança que propunham a superação de um passado autoritário, patriarcal, excludente e racista. Doutro, narrativas que defendem os valores familiares e cristãos conservadores.

Há que se considerar, ainda, a gradual perda de poder da Igreja Católica. Como se não bastasse a “emigração” de católicos para os segmentos evangélicos, o afastamento da hierarquia católica das questões sociopolíticas foi marcante durante os papados de João Paulo II (1978 – 2005) e Bento XVI (2005 – 2013), com profunda repercussão nos movimentos de base e nas pastorais da igreja católica brasileira.

Os planos de ocupação político-institucional do poder pelos evangélicos não é novo. Resumindo um movimento mais recente: primeiro, aproximaram-se dos governos petistas, alargando seus espaços de poder. Simultaneamente, passaram a disputar eleições em vários partidos: hoje, há evangélicos em mais de 20 agremiações partidárias.

Alguns poderosos grupos neopentecostais surfaram na onda da criminalização da política e dos partidos pela mídia. Articularam-se com think tanks norte-americanos na difusão e defesa intransigente de ideologias ultraliberais, utilizando-se da teologia da prosperidade. E, com Bolsonaro, chegaram à “crista da onda” com a distorção do debate político nas eleições, que deixou de lado os problemas reais do país para focar na pauta moralista e de costumes, tendo nas redes sociais o principal meio para entreter incautos e arregimentar um exército de combatentes raivosos e fundamentalistas. Afinal, combater fantasmas é mais fácil que enfrentar e resolver os problemas reais. Ademais, serve para distrair a população dos debates relevantes nas redes sociais e atiçar a ira "santa" de fundamentalistas religiosos e analfabetos políticos.

Façamos um parêntesis: é preciso diferenciar a religiosidade popular dos interesses nada confessáveis de líderes políticos neopentecostais. Ou seja, aqui nenhuma censura a milhões de evangélicos e católicos neopentecostais que têm na fé sua forma de expressão social e política.

É nesse contexto que a coalizão encabeçada pela bancada evangélica (em associação com as bancadas ruralista e da bala), ao que tudo indica, será a base de sustentação social do futuro governo de Jair Bolsonaro, a substituir o modelo de governança conhecido como presidencialismo de coalizão, que se organizava a partir dos partidos políticos.

A implosão do sistema partidário, a ostensiva criminalização da política e a desarticulação do campo de centro-esquerda corroboram o protagonismo dessa nova forma de sustentação do atual chefe do executivo federal.

Certamente, as pautas morais (ou de costumes) cimentarão a agenda política dessa nova coalizão que está cada vez mais vitaminada, a surfar na onda ultraconservadora que espraia por amplos segmentos sociais.

Os movimentos do presidente nas indicações do seu chanceler e do futuro ministro da educação, abençoados por Olavo de Carvalho (católico) e Silas Malafaia (pastor neopentecostal), indicam que o debate de ordem moral será um dos núcleos do programa político do governo, amparado pela bancada evangélica.

Com expoentes também no Judiciário e no Ministério Público, os evangélicos poderão auxiliar na sustentação de Bolsonaro para além do Congresso, cuja bancada evangélica na próxima legislatura, a começar em fevereiro, será composta por 199 deputados e 4 senadores.

Registre-se a união da bancada evangélica com parlamentares católicos conservadores e outros grupos neopentecostais do catolicismo nessa coalizão. Além da pauta de costumes, essa ampla coalizão religiosa comunga de dois outros ideais: o combate ao fantasmagórico “marxismo cultural” e a eliminação das esquerdas, entre outros.

Os neopentecostais têm uma imensa capilaridade no país. Não podem ser desprezados em nenhum sentido. Como uma espécie de MDB religioso, estão em todos os rincões, com ações diretas de evangelismo marcado por pregações ultraliberais e conservadoras e pautas moralistas. Certamente, agregarão ao governo o necessário apoio popular, dado que serão capazes de articular as bases sociais em torno de pautas periféricas, enquanto o núcleo duro do governo Bolsonaro atenderá seus verdadeiros credores: militares, latifundiários, banqueiros, empresários, pastores, castas judiciárias e os Estados Unidos.

Por tudo isso, a “profecia” de Silas Malafaia segundo o qual “a guinada à direita vai ser longa” não deve ser desdenhada. E as análises que apontam para a formação de teocracia fundamentalista nessas bandas dos trópicos não são fake news.

*Robson Sávio Reis Souza é licenciado em Filosofia; doutor em Ciências Sociais; mestre em Administração Pública; especialista em Estudos de Criminalidade e Segurança Pública e especialista em Teoria e Prática da Comunicação. Coordenador do Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas (Nesp); conselheiro titular do Conselho Estadual de Direitos Humanos de MG; associado pleno do Fórum Brasileiro de Segurança Pública; membro do Fórum Mineiro de Direitos Humanos e do Comitê Mineiro de Educação em Direitos Humanos.

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