Religião

11/01/2019 | domtotal.com

O Brasil não está se tornando a nação cujo Deus é o Senhor

Líderes inescrupulosos se aproveitam da ignorância de diversos de seus fiéis para influenciar nas decisões políticas dos membros de suas congregações.

Pastor Malafaia, na Comissão especial sobre o Estatuto da Família, conversa com o dep. Sóstenes Cavalcanti, ao lado do dep. Marco Feliciano.
Pastor Malafaia, na Comissão especial sobre o Estatuto da Família, conversa com o dep. Sóstenes Cavalcanti, ao lado do dep. Marco Feliciano. (Lula Marques/Agência PT)

Por Fabrício Veliq*

Não é estranha, para quem pertence ou estuda os movimentos evangélicos norteamericano e brasileiro, a ideia de que o país só irá para frente caso se tenha algum líder também evangélico. Por detrás disso, encontra-se, como sempre, versículos tirados dos seus contextos que, de praxe, servem de pretextos para afirmar as coisas mais bizarras, principalmente em matérias religiosas. Um dos versículos preferidos é aquele que diz que “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor” (Sl 33,12).

Leia também:

Desse versículo, não dificilmente, segue o raciocínio: Ora, se para ser feliz é preciso que a nação tenha Deus como Senhor e a religião que tem Deus como Senhor é a religião cristã, e mais ainda, a vertente evangélica como aquela que saiu dos enganos do catolicismo, e segue ao Deus mais verdadeiro, então, necessariamente, o líder desse país tem que ser cristão e evangélico.

Que esse tipo de raciocínio esteja totalmente comprometido por visões errôneas tanto do texto bíblico quanto da pessoa de Deus revelada em Jesus Cristo deveria ser claro para toda pessoa que se dedique minimamente ao estudo da Bíblia e suas interpretações ao longo da história. Contudo, infelizmente, é possível perceber que essa não é a realidade e, com base nisso, não é difícil vermos, principalmente nos movimentos neopentecostais, líderes inescrupulosos que se aproveitam da ignorância de diversos de seus fiéis (que, em grande parte, tem um coração disposto ao serviço do Reino) para pregarem esse tipo de ensino e influenciar nas decisões políticas dos membros de suas congregações.

Junta-se a isso a velha conhecida Teologia da Prosperidade, mote de todo movimento neopentecostal, que afirma que o sucesso financiero é consequência da fidelidade a Deus nos dízimos e nas ofertas. Dessa forma, o fiel, não poucas vezes, é constrangido a “dar tudo o que possui como ato de fé” para mostrar que confia em Deus para solucionar o seu problema, enquanto passa, muitas vezes, dificuldades para pagar o aluguel, comer, locomover-se e outras necessidades básicas. Do outro lado, pastores e pastoras que ganham rios de dinheiro às custas de corações honestos e desejosos de servir a Deus com tudo o que possuem e sem conhecimento de que o Pai, conforme revelado por Jesus Cristo, não exige nenhuma contrapartida para derramamento de suas bênçãos.

Com isso em mente, a ascensão do neopentecostalismo às esferas mais altas do poder político que ocorreu nas últimas décadas não deve ser vista como algo que aconteceu por acaso, como contingência de um momento. Antes, deve ser avaliado tendo em mente o grande poder que os discursos e os líderes exercem sobre os seus liderados.

Nas eleições do ano passado isso se mostrou muito presente tanto nas igrejas comandadas por Edir Macedo como também na liderada por Silas Malafaia que, por meio de declarações, fizeram seus apoios explícitos ao candidato eleito e a outros candidatos e candidatas aos cargos de deputados e governadores. Devido ao grande número de fiéis que essas igrejas neopentecostais possuem, não é difícil entender o motivo do aumento do número de deputados e deputadas evangélicas no Congresso Nacional nessas últimas eleições.

Até mesmo após as eleições foi possível perceber as tentativas desses líderes, dentre eles o próprio Silas Malafaia, em influenciar as decisões a respeito de cargos importantes na nova gestão, tais como a nomeação da ministra Damares ou o veto dado a Mozart Neves, que seria o indicado ao Ministério da Educação para indicação de Ricardo Vélez para a pasta. Isso, sem mencionar o lobby para que a embaixada brasileira em Israel mude para Jerusalém e outras bizarrices como o “combate ao marxismo” ou, ainda, combate à “ideologia de gênero” como bandeiras cristãs, coisas que só fazem sentido na cabeça de quem lê o texto bíblico em sua literalidade, fazendo um self-service bíblico dos mais esdrúxulos possível.

Tudo isso é muito pernicioso dentro de um estado democrático de direito. A proposta do Reino de Deus, como anunciada por Jesus, não tem a ver com o poder político de uma nação (Jesus nunca quis ocupar o lugar de César e não cedeu à tentação de ter todos os reinos da terra prostados diante dele), mas tem a ver com a luta contra as estruturas que geram morte na sociedade e o anúncio de que Deus se importa com todos e todas, principalmente com os pobres, os marginalizados e os esquecidos da socieade. Em outras palavras, com os pequeninos que não podem se defender por si mesmos.

Deus nos livre de um Brasil evangélico foi um texto escrito por Ricardo Gondim, importante pastor evangélico na história brasileira, em 2015. Nele, relembra-nos de que “Toda teocracia um dia se tornará totalitária”. Ele continua certo.

Assim, a ascensão do neopentecotalismo ao poder não deve ser visto como indício de que “o Brasil está se tornando a nação cujo Deus é o Senhor”. Antes, deve ser vista como um risco da instalação de uma teocracia enviezada que visa o lucro de seus líderes e a morte de todo pensamento que lhe seja divergente.

*Fabrício Veliq é teólogo. Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE) e Doctor in Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven). E-mail: fveliq@gmail.com

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas