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Religião

11/01/2019 | domtotal.com

Voto evangélico pode ser perigoso

É preciso tomar cuidado com o suposto ideal de querer que o Brasil seja de Jesus.

Marcha para Jesus - Pela família, pelo Brasil e contra a Corrupção, no Rio de Janeiro em 2015, contou com as presenças de Silas Malafaia e os políticos Magno Malta, Jair Bolsonaro, pastor Everaldo e Eduardo Cunha.
Marcha para Jesus - Pela família, pelo Brasil e contra a Corrupção, no Rio de Janeiro em 2015, contou com as presenças de Silas Malafaia e os políticos Magno Malta, Jair Bolsonaro, pastor Everaldo e Eduardo Cunha. (Tomaz Silva/ Agência Brasil)

Por Gilmar Pereira*

“Precisamos de gente nossa lá” – começa assim a decisão de uma igreja em promover algum fiel às instâncias de poder. É que creem firmemente que alguém que conheceu a Jesus só poderia agir eticamente e em favor do bem comum. É da confiança na honestidade de quem fez uma experiência cristã que surge o mote “irmão vota em irmão”.

Acontece que, logo de início, surgem as necessidades das igrejas. Elas precisam de autorização para fazer um evento, precisam que a prefeitura ceda a praça, precisam que a secretaria de cultura empreste o equipamento de som. Precisam, precisam, precisam. Entendem que sua missão é para o bem da humanidade e que qualquer empecilho seja uma ação do inimigo de Deus. “Alguém nosso facilitaria a missão ou impediria que algo a atrapalhasse” – dizem, sem notar, que aí já começa o desvirtuamento da atividade política.

O problema aumenta quando entra em jogo a ideia do que seja, de fato, “bem comum”. A lógica é simples: se o Deus que creio é o verdadeiro, todas as outras crenças são falsas e os que nelas estão caminham na ignorância, ainda que de boa vontade. Cabe, pois, que elas conheçam e aceitem a Jesus para que encontrem a felicidade autêntica. Contudo, a aceitação de Jesus tem implicâncias na vida pessoal, consequências da conversão. Assim há um padrão ético derivado das Escrituras que deve ser adotado.

Pois bem, as condutas a serem adotadas dependem também da interpretação bíblica e isso varia conforme o entendimento das lideranças. Muitas vezes o texto não é interpretado com critérios hermenêuticos e exegéticos, desconsiderando contexto histórico, estilo literário, significação das palavras no original em que foi escrito etc. Assim surgem interpretações fundamentalistas que são transmitidas não como uma leitura possível, mas como a verdade do texto. E como essas pregações vêm junto com a experiência espiritual de um momento de oração, surge a colagem: Fiz uma experiência de Deus na ministração da oração de um pastor; o mesmo pastor disse que algo deva ser assim ou de outro jeito. Logo, se a experiência é autêntica, o que vem do pastor também passa a ser.

Da confiança no líder surge a permeabilidade de seu discurso. Os fieis estão mais propensos a aceitar como verdadeiro aquilo que vem de seus líderes e, se esse indicarem alguém como sendo bons, tenderão a acreditar e confiar. E isso não é exclusivo do meio evangélico. Note o caso do médium João de Deus, que mesmo depois de centenas de relato, não perdeu a credibilidade para muitos de seus seguidores.

Por conta dessa estrutura, muitas pessoas são eleitas e, consequentemente , os valores morais de determinada interpretação bíblica começam a ser impostas sobre o restante da população porque há a crença de que aquilo é melhor para todos. O interdito da homossexualidade na bíblia, por exemplo, tem um contexto que tem a ver com a leitura do povo sobre a procriação como algo sagrado. As relações que não resultavam na prole eram tidas como malditas, o que fazia com que não só o homossexual fosse mal visto, mas também a mulher estéril. Há um contexto da época e uma leitura do povo da ação divina. Alguns teólogos entendem bem que os textos que falam disso devem ser interpretados sob a ótica da fecundidade e não da simples procriação. Relações homossexuais ou com pessoas estéreis podem ser fecundas, mesmo que não gerem filhos, e essa fecundidade também pode ser algo de Deus. Entretanto, sem fazer essa leitura, alguém pode querer que as uniões civis homoafetivas sejam proibidas porque estariam “erradas” e isso seria para o bem de quem as quisesse contrair.

Outro agravante se dá quando políticos se promovem por conta das indicações das igrejas e, apoiados na credibilidade religiosa construída, usam dos fieis para se manterem no poder e instrumentalizam a fé. Há alguns que agem de modo escuso e ainda se defendem junto à plataforma que o elegeu alegando que são perseguidos pela fé, porque querem promover a verdade do evangelho e seus valores. São mentirosos e desviam o olhar do povo dos acordos que selam em favor próprio e em prejuízo dos mais pobres. Nesse sentido, importa criar um inimigo para combater e culpar quando sua pele de lobo é retirada. Culpa-se, desse modo, a Esquerda, os LGBTs, as feministas. Não que esses grupos acertem sempre. Não é disso que se trata, mas é mais fácil dizer que se é perseguido por eles e desviar as atenções.

Vale lembrar do exemplo de Eduardo Cunha, membro da Assembleia de Deus, ministério Madureira, que se posicionava contra a união estável homoafetiva, a descriminalização do aborto e da maconha. Membro forte da bancada evangélica, foi condenado por receber propinas em troca de contratos da Petrobras. Tendo se envolvido em corrupção nas operações da Caixa Econômica com sete empresas, foi declarado culpado pelos crimes de corrupção ativa, lavagem de dinheiro e violação de sigilo funcional. Desviou-se antes ou depois do poder? Não se pode dizer, mas o fato de se apresentar e ser apresentado como homem de Deus não lhe garantiu idoneidade.

Há de se tomar cuidado com o suposto ideal de querer que o Brasil seja de Jesus. Em grande parte, o evangelismo pregado não passa de um projeto de poder que faz do rebanho cristão um curral eleitoral. Instrumentalizam a fé alheia para mascarar as más intensões de políticos e líderes religiosos que são lobos em peles de cordeiro. A fé tem sim um componente ético e o cristão não pode se alienar do mundo. Ao contrário, cabe a cada um lutar para que esta Terra seja um lugar melhor, mas sem confundir as coisas, sem perverter a fé. Deve se dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.


Precisamos entender melhor o que está acontecendo. Robson Sávio nos ajuda a a ler o processo pelo qual o Brasil passou até chegar onde estamos: O neopentecostalismo no poder. Já Fabrício Veliq explica melhor porque, mesmo com a ascensão de cristãos aos postos de decisão da esfera pública, O Brasil não está se tornando a nação cujo Deus é o Senhor. Nesse sentido, Flávia Gomes contribui para a correção da compreensão do que compete propriamente aos cristãos mostrando que Jesus não veio para se tornar um rei ao modo deste mundo. Partindo do Evangelho de Marco ela mostra quem é Jesus: o Messias servidor a caminho da cruz.

Clica nos links acima e aprofunde!

*Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina ''A comunicação como evento teológico'' na especialização ''Desafios para a Igreja na Era Digital''.

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