Religião

11/01/2019 | domtotal.com

Jesus: o Messias servidor a caminho da cruz

Declarar abertamente que Jesus é o Messias teria implicações políticas sérias devido ao desconhecimento da real dimensão do seu messianismo.

Em vez de vir para lutar contra a tradicional liderança política, a fim de restabelecer o antigo regime de Davi em oposição aos romanos, o Humano será realmente assassinado por uma coalizão política da autoridade judaica com a romana.
Em vez de vir para lutar contra a tradicional liderança política, a fim de restabelecer o antigo regime de Davi em oposição aos romanos, o Humano será realmente assassinado por uma coalizão política da autoridade judaica com a romana. (Jon Tyson by Unsplash)

Por Flávia Gomes*

O texto do Evangelho de Marcos 8,27-33 trata da compreensão dos discípulos de Jesus sobre seu messianismo concomitantemente da aceitação do paradigma que o Mestre quer desvelar aos seus seguidores. Marcos foi escrito com o projeto literário de narrar a história de Jesus com o fim catequético de mostrar que o crucificado é o Filho de Deus. O objetivo dele era fazer uma catequese narrativa para os cristãos do seu tempo. No texto em análise, apreende-se que o conflito vivenciado pela comunidade se refere ao messianismo de Jesus. Ele pergunta aos discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou?” (8,27). A indagação é feita aos discípulos no intuito de realizar um ensinamento sobre Jesus a fim de que pudessem superar a incompreensão ao seu respeito. Na resposta dos discípulos sobre quem as pessoas diziam ser Jesus, observa-se que a maioria não o distingue de personagens famosos do passado como João Batista, Elias ou um dos profetas.

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Depois de ouvir os discípulos lhe dizerem a opinião das pessoas sobre quem ele era, Jesus parte para o que, na verdade, é o seu foco, seu interesse primaz, que se articula em torno da percepção dos seus seguidores sobre sua identidade. Ele, subitamente, volta para seus discípulos indagando-lhes: “Vós, pois, quem dizeis que eu sou?” (8,29). De pronto, surge nesse cenário interrogativo uma resposta um tanto quanto eloquente e avassaladora ao dominar o diálogo pela suposta perfeição da afirmativa. Pedro declara, “Tu és o Cristo” (8,29). Para ele, que provavelmente responde emitindo a opinião também em nome de todos os discípulos, Jesus é o Messias esperado, o Filho de Deus. Pedro confessou que Jesus era aquele que o povo de Israel estava esperando. É a primeira vez no relato evangélico que um homem confessa Jesus como Messias. No entanto, é no mínimo curioso que, diante de uma afirmação tão acertada, Jesus tenha advertido seus discípulos proibindo-os de falar sobre isso ao povo (8,30). A confissão de Pedro é sincera e pode-se dizer perfeita enquanto enunciação (conceituação). Quanto ao enunciado (conceito), porém, é maculada, porque o que ele entende por “Messias” está longe de ser aquilo que se manifestará no desenlace da atuação messiânica de Jesus.

Naquela época, todos esperavam a vinda do Messias, mas essa expectativa assumia vários “rostos” de Messias de acordo com os anseios das pessoas. Uns esperavam o Messias como um rei, outros como sacerdote, guerreiro, juiz ou ainda profeta. Era um tempo em que o termo “Messias” indicava alguém que traria a presença gloriosa de Deus para o meio do seu povo, libertando-o dos inimigos, os romanos, de maneira triunfante e definitiva. Outro risco decorrente da inadequação ante a concepção do messianismo de Jesus se apresenta no horizonte político. A palavra hebraica “Messias” significa “Ungido”, e, logo nos remete aos antigos reis do povo de Deus. Declarar abertamente que Jesus é o Messias teria implicações políticas sérias devido ao desconhecimento da real dimensão do seu messianismo. O âmbito político se reluz com clareza, evidenciando-se na resposta de Pedro, que, pela primeira vez, introduz o termo de cunho político “Messias” (Christos) no mundo da narrativa. Dessa maneira poderia ser compreensível que Jesus não era simplesmente grande profeta, mas, sim, uma figura régia que restauraria os destinos políticos de Israel.

As duas perguntas feitas por Jesus, portanto, têm a ver com sua identidade, com a questão de como ele é percebido e visto. E Marcos dirige as indagações tanto à narrativa (“Quem dizem os homens que eu sou?”), quanto ao leitor (“Vós, pois, quem dizeis que eu sou?”). A correção da resposta triunfalista de Pedro decorre com o desvelar do caminho do Messias: “Então, começou ele a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que, depois de três dias, ressuscitasse” (8,31). A recusa em estabelecer elo com a confissão de Pedro não se dá diretamente com palavras de reprimendas. É certo que o Jesus de Marcos revela o que estava prestes a enfrentar em sua trajetória para averiguar o pano de fundo da afirmação de Pedro sobre sua identidade, ecoando as vozes dos demais discípulos. Jesus coloca por terra a concepção, segundo a compreensão de Pedro, pela qual “Messias” necessariamente significa triunfo régio e o restabelecimento da honra coletiva de Israel contra-argumentando que “Humano” necessariamente significa sofrimento. O Messias, Jesus, se identifica com o servo sofredor descrito por Isaías. E ele mesmo quer, urgentemente, mitigar os entraves dos seus seguidores no processo de absorção desse paradigma que encarna, tornando-os conscientes do caminho que o conduzirá à cruz. Jesus é um humano sujeito ao sofrimento e entregue a servir em prol da implantação do Reino de Deus. Faz-se, assim, plausível entrever que Jesus renuncia o título de Messias, dado por Pedro, ao substituí-lo pelo de Humano, tomando essa figura apocalíptica de Daniel (7,13) que representa o verdadeiro governo humano. Com isso, Marcos tenciona um ensinamento ao mostrar que o Humano não é aquele Messias esperado pelo povo para restabelecer a honra de Israel, como na concepção de Pedro. Em vez de vir para lutar contra a tradicional liderança política, a fim de restabelecer o antigo regime de Davi em oposição aos romanos, o Humano será realmente assassinado por uma coalizão política da autoridade judaica com a romana, pois a expressão exclusiva de seu poder é o amor.

O amor incondicional, o grande poder do Cristo crucificado, subverte as armas e os poderes dos poderosos, que se compunham, entre outros, por líderes religiosos. Mediante o anúncio de sofrimento, rejeição e cruz, Pedro se arvora na qualidade de traçar a rota de Jesus, considerando-o equivocado e sua predição uma sandice. Ele o repreende audaciosamente: “E Pedro, levando-o consigo a parte, começou a admoestá-lo severamente” (8,32). Pedro acolhe Jesus como Messias, mas não como Messias servidor; ele o vê como rei glorioso politicamente. No entanto, o que Jesus se esforça para fazer entendido é que o poder de Deus não é outro senão o poder do amor incondicional, exposto à violência introduzida no mundo pelo pecado. O caminho do serviço, longe do centro do poder, tido por indigno e desprezível, foi o anunciado e trilhado por Jesus, mas, categoricamente, renunciado pela visão messiânica de Pedro. Há de se convir que discípulos à semelhança de Pedro ainda perduram na cristandade contemporânea. Pedro admoesta-o severamente, não aceita a cruz. Não aceita o Messias servidor. Não acata o querer divino, mas se contrapõe a ele em prol dos seus desejos egoístas. Hoje, Pedro pode assumir outros nomes e outras formas que, no fundo, produzem a mesma ação em suas raízes.

Os impropérios do discípulo, não obstante, causam em Jesus uma atitude de ensino. Jesus chama Pedro de Satanás: “Ele, voltando-se e vendo os seus discípulos, admoestou severamente Pedro e diz: ‘Vai atrás de mim, Satanás, porque teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens’!” (8,33). “Satanás” é uma palavra hebraica que significa “rival”, “adversário”. Portanto, Satanás é aquele que rivaliza com o querer divino, afastando as pessoas do caminho de Deus. Ao repreender Jesus, argumentando sobre seu equívoco no caminho que deveria perpassar, Pedro se coloca como rival, opositor do projeto divino para o Messias servidor. O Pedro-Satanás é, portanto, a imagem das interpolações que se opõem ao caminho do Reino de Deus. São projetos, ideologias, pensamentos humanos pautados nos instintos egoístas que se colocam a rejeitar o Messias-servo, o evangelho do serviço, da entrega e da abnegação por almejar o poder temporal em nome de um (pseudo) seguimento e cumprimento da vontade de Deus. Além de chamar Pedro de Satanás, Jesus ordena que o Pedro-Satanás passe para trás dele, ou seja, que vá para trás dele em seu caminhar. Jesus quer que Pedro aprenda a deixar-se ser guiado pelo Mestre e não queira, ele mesmo, determinar o caminho. Jesus entabula o convite para que o seguidor-Satanás torne-se um discípulo do Reino, para que o rival, o adversário, transforme-se em aliado. Jesus o convida a ser um imitador dos seus passos, abrindo mão da gana pelo poder, da autossuficiência que converte caminhantes do caminho em obstaculizadores dessa mesma trajetória.

Portanto, a pergunta de Jesus, “quem dizeis que eu sou?”, é o fulcro da mensagem evangélica. Isso porque o caráter do cristianismo no mundo vai depender da resposta dos cristãos a essa questão crucial com sua prática. A implantação do Reino de Deus se viabiliza e expande com a resposta dos cristãos em adesão ao Messias servidor que não propõe nem espada, arma ou ocupação do poderio temporal, mas insta à rendição ao poder da prática do amor incondicional como serviço fraterno ao outro.

*Flávia Gomes é especialista em teologia bíblica, mestre em ciências da religião e graduanda em filosofia.

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