Religião

11/01/2019 | domtotal.com

O amor leva ao sofrimento, mas nós assumimos o risco de amar porque é nosso dever

Quando lemos nas Escrituras que o amor perfeito expulsa o medo (1 João 4,18), há uma verdade nessa afirmação tanto no nível físico quanto no espiritual.

O milagre pelo qual oro agora não é que o resultado da história mude, mas sim como eu poderia manifestar o amor de Deus no meio da dor e do sofrimento do mundo.
O milagre pelo qual oro agora não é que o resultado da história mude, mas sim como eu poderia manifestar o amor de Deus no meio da dor e do sofrimento do mundo. (Unsplash/Saneej Kallingal)

Por Heidi Russell*

"Deus nunca nos prometeu que não sofreríamos". Aquelas palavras me causaram um despertar doloroso, mas sincero, quando um amigo as pronunciou enquanto conversávamos no velório de uma mulher de 27 anos, mãe de uma criança de 1 ano e esposa que morreu de câncer ainda jovem.

Ficamos lá testemunhando a dor que instintivamente sentimos e que ninguém deveria ter que suportar, se nosso Deus é um Deus amoroso - se, de fato, nosso Deus é amor. E, no entanto, a realidade é que o cristianismo não nos ensina que não sofreremos. O oposto é verdadeiro. O amor leva ao sofrimento.

O budismo reconhece essa grande verdade no ensino das Quatro Nobres Verdades, e a pessoa é encorajada a amar sem apego, sem desejo, sem tentar se apegar ao objeto ou a quem amamos. O cristianismo também ensina que amar é sofrer - sofrer por e com os outros, exemplificado no Cristo crucificado que estendeu os braços e morreu por amor. A resposta de Deus ao nosso sofrimento é sofrer conosco na cruz e ressuscitar esse sofrimento para uma nova vida. Ainda assim, sabendo de tudo isso, não poderia estar nada além de devastada pela morte prematura dessa jovem. Como poderia confiar em Deus diante de tal tragédia?

Eu não havia percebido completamente, antes disso, que minha ideia de Deus era um Deus que consertava as coisas, com quem acabaria dando tudo certo. Essa imagem de Deus, descobri, é o Deus dos privilegiados, o Deus daqueles que não sofreram. Acho que desde então, quando falo com as pessoas, há uma divisão na maneira como as pessoas conhecem a Deus - aqueles que sofreram uma grande tragédia e aqueles que não sofreram. Parafraseando C.S. Lewis, o sofrimento é "o grande iconoclasta" - meus ídolos não podiam resistir.

Em seu livro The Eternal Year, o teólogo Karl Rahner sugere que, quando se experimenta a ausência de Deus, a imagem de Deus de alguém não está mais funcionando. A única maneira de reconstruir a confiança diante de tal ausência é abandonar a imagem e render-se ao mistério. Deus como amor não promete que não vamos sofrer. Deus nos promete que, quando sofremos, somos amados. Deus não promete consertar o que está quebrado; Deus promete estar presente no meio do quebrantamento.

Aquela fonte de amor que chamamos de Deus é revelada na pessoa de Jesus Cristo, a palavra de amor entre nós e, no Espírito Santo, Deus como amor agindo dentro de nós e entre nós. O único antídoto para o quebrantamento do mundo é render-se ao amor, permitir que esse amor atue em nós e através de nós, mesmo quando sabemos que isso pode levar a um coração partido.

Amor e confiança em um mundo finito estão fadados ao desapontamento. Além da inevitável experiência da morte, nossas vidas também estão repletas de promessas não cumpridas, traições, pessoas em sua humanidade que nos decepcionam uma e outra vez, ou talvez nossa própria humanidade e fraqueza nos levam a sabotar nossos relacionamentos. Experimentamos, muitas vezes, esse quebrantamento humano em nossos amores, nossas famílias e nossos amigos.

Então a verdadeira questão se torna, como é que podemos continuar amando? Por que continuamos tendo a chance de confiar novamente em nossos corações, dar a alguém uma segunda chance ou começar tudo de novo com alguém? Rahner sugere que nosso desejo de confiar em outro ser humano é plenamente cumprido na pessoa de Jesus Cristo. Aquele que ama um ser humano falível, de alguma forma, afirma a pessoa humana que não decepciona, Jesus, que é a expressão perfeita de Deus como Amor no mundo.

As escrituras nos dizem que amamos porque Deus nos amou primeiro (1 João 4,19). Os seres humanos não podem existir sem amor. Deus nos criou para estar em uma constante relação, para amar. A psicologia e a neurociência demonstraram o que os místicos nos ensinaram a perceber com o olho da alma: que estamos conectados por amor. Nossos cérebros têm toda uma farmácia de neuroquímicos que facilitam o amor, o desejo e o apego, e nos permitem experimentar confiança, generosidade, altruísmo e empatia. Judith Horstman no Scientific American Book of Love, Sex and the Brain: The Neuroscience of How, When, Why and Who We Love, explica como na pesquisa de imagens do cérebro, pode ser visto que o amor "ilumina" nossos cérebros.

Tão interessantes quanto as partes do cérebro que estão ativas, de acordo com Horstman, são as partes que tendem a ser menos ativas: medo, pesar e autoproteção. Então, quando lemos nas Escrituras que o amor perfeito expulsa o medo (1 João 4,18), há uma verdade nessa afirmação tanto no nível físico quanto no espiritual. O amor realmente expulsa o medo. Assim, a maneira como nosso cérebro funciona nos ajuda a continuar arriscando a vida no amor em uma era de desconfiança. O amor, uma realização espiritual, se manifesta e se torna o antídoto para a desconfiança.

Continuamos a amar porque devemos, se vamos ser humanos. Meu relacionamento com Deus agora mudou, mas a relação perdura. E não espero que Deus "conserte" as coisas mais. O milagre pelo qual oro agora não é que o resultado da história mude, mas sim como eu poderia manifestar o amor de Deus no meio da dor e do sofrimento do mundo. Meu relacionamento com Deus como Amor se manifesta em minha capacidade de amar os outros, de amar meu próximo como a mim mesmo. Deus como fonte e base do nosso amor nos permite continuar a correr o risco de amar, mesmo quando estamos devastados pelo amor no passado.

E assim, assumimos o risco de amar novamente os outros seres humanos, apesar de sua tendência a desapontar e morrer, e amar a Deus que nos permitiu amar, amando-nos primeiro.


National Catholic Reporter - Tradução: Ramón Lara

*Heidi Russell é professora associada do Instituto de Estudos Pastorais da Universidade Loyola de Chicago e do Public Voices Fellow. Todas as colunas do Soul Seeing podem ser encontradas em NCRonline.org/columns/soul-seeing

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