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11/01/2019 | domtotal.com

Um toscano genial

O irrequieto, sonhador e genial Leonardo foi um dos ícones mais representativos desse tempo de luzes.

Simples brincadeiras de um gênio; divertimentos para seu próprio prazer.
Simples brincadeiras de um gênio; divertimentos para seu próprio prazer. (Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Sua mãe era uma jovem camponesa iletrada, caída de amores por um burocrata poderoso. Criou sozinha aquele filho único, dito ilegítimo, situação muito comum na época. Canhoto, o menino aprendeu a escrever com a ajuda da mãe, porém sua letra – minúscula, irregular - era praticamente ininteligível.

No entanto, era um garoto inteligente, acima da média, curioso, sempre a buscar os porquês do pequeno mundo que o rodeava. Mergulhou com prazer no desenho e na pintura. Com uma diferença: enquanto seus colegas se contentavam com as formas e as aparências tradicionais, ele estudava os conteúdos. O jovem artista frequentava o hospital de sua pequena vila e ali estudava os ossos, músculos e tendões dos cadáveres. Muitos anos depois, ao pesquisar suas obras, os especialistas descobriram que, ao pintar uma figura humana, o tal artista começava esboçando os esqueletos; depois cobria-os com os músculos e nervos nas posições exatas; só então pintava a pele, a roupa e o resto daquela pessoa.

Ele não restringiu sua criatividade às artes plásticas. Desconfiado do que lia nos livros dos sábios, ele acreditava mais no seu olhar livre e arguto. Investigava a natureza das coisas: as aves, as plantas, o sol, a chuva, as marés, a posição das estrelas, os ventos. Por volta dos trinta anos de idade já imaginara um par de asas que poderiam fazer um homem voar. E mais: inventou máquinas esquisitas, engrenagens, armamentos de ataque e de defesa; dispositivos para bombear água nas lavouras; sistemas de navegação e até os rudimentos de uma engenhoca que prometia realizar o sonhado “moto-perpétuo”.

Sua obra mais famosa é o retrato de uma senhora de sorriso enigmático onde o artista inseriu mensagens sutis em torno das relações matemáticas, sua paixão. Alguns anos antes ele já havia concebido o chamado Homem Vitruviano, um rabisco descoberto em seus diários. Trata-se de uma figura masculina desnuda, em duas posições sobrepostas. Os braços abertos estão inscritos num círculo e num quadrado; pura precisão matemática. A cabeça é calculada num oitavo da altura total. Ali está o conceito da divina proporção, baseado na existência dos quatro sólidos geométricos perfeitos: o tetraedro, hexaedro, octaedro e icosaedro. Simples brincadeiras de um gênio; divertimentos para seu próprio prazer.

Reli, pela enésima vez, a história inspiradora desse meu ídolo e a cada leitura descubro novas razões para admirá-lo. Deve ser a primeira vez – e com certeza a última – que escrevo uma homenagem a um sujeito falecido há... 500 anos.

Leonardo di Ser Piero da Vinci morreu aos 67 anos, em 1519, numa pequena cidade da França, longe de sua querida Toscana, região italiana de onde vieram meu avós. Ali brotou o Renascimento, um evento único que mudou para sempre os rumos da História. O irrequieto, sonhador e genial Leonardo foi um dos ícones mais representativos desse tempo de luzes.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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