Religião

16/01/2019 | domtotal.com

Quando o evangelho anunciado não é o Evangelho de Jesus Cristo

Com cristianismo como religião oficial do Império Romano, bater de frente contra o poder dominante era bater de frente contra a própria fé cristã.

O evangelho que não é boa nova alia-se ao poder dominante a fim de angariar para si mais poder, trazendo morte por meio de discursos discriminatórios e ações contra o ser humano e a própria natureza.
O evangelho que não é boa nova alia-se ao poder dominante a fim de angariar para si mais poder, trazendo morte por meio de discursos discriminatórios e ações contra o ser humano e a própria natureza. (Edward Cisneros/ Unsplash)

Por Fabrício Veliq*

O Evangelho anunciado por Jesus Cristo na Galiléia do primeiro século, e por seus discípulos até o século IV sempre bateu de frente com o poder dominante. Esse fato não é difícil de constatar, bastando para isso tomar as diversas histórias dos/as mártires, condenados/as pelo Império Romano por irem contra o culto ao imperador e afirmar que havia outro rei que não César. O próprio martírio era considerado algo de grande valor para os primeiros cristãos e cristãs, uma vez que por meio dele se assemelhava ao  martírio sofrido pelo próprio Cristo, ao ponto de Tertuliano, grande teólogo do século II, dizer que “o sangue dos mártires é a semente da igreja”.

Com a conversão de Constantino, no século IV e a transformação, por parte de Teodósio, em 380, do cristianismo como religião oficial do Império Romano, houve uma mudança fundamental: de agora em diante, bater de frente contra o poder dominante era bater de frente contra a própria fé cristã e bater de frente contra a sã doutrina era ir contra o próprio Deus e sua vontade. Com esse argumento, considerava-se legitimada a matança de todos e todas que não obedecessem à chamada sã doutrina, enviada do céu e entregue aos líderes episcopais.

Com isso, o cristianismo passou da categoria de perseguido para a categoria de perseguidor, uma vez que a partir da Idade Média, não representava mais, por meio de seus líderes, a mensagem do Evangelho pregado por Cristo, de transformação social, cura e libertação para todo humano aflito, mas passou a representar somente a figura de um Deus que se transformou num déspota, cuja vontade precisava ser cumprida e, caso não fosse, era preciso que se condenasse tal insulto contra a instituição estabelecida por ele. Assim, o Evangelho (que quer dizer boa nova) deixou de ser evangelho para os que estavam fora da chamada instituição, transformando-se em uma má nova a ser aplicada a todo e toda que se desviasse ou não concordasse com aquilo que se esperava dele ou dela.

Ao mesmo tempo, é possível perceber uma mudança substancial de toda uma teologia sacramental, que passou do entendimento dos sacramentos como geradores de vida e anunciadores da liberdade trazida por Cristo, para um ritualismo engessado que motivava o medo e causava terror. Como consequência, passou a se considerar o cumprimento frio dos sacramentos mais importante do que o próprio significado que ele trazia, caindo em mero obedecer a uma lei estabelecida por um Deus que se mostrava bastante diferente do pai de Jesus Cristo.

Embora falemos de algo acontecido na Idade Média, um evangelho que não é boa nova e um ritualismo que empobrece os sacramentos não são coisas difíceis de serem percebidas no cristianismo atual e nas diversas celebrações e discursos dos quais participamos e ouvimos, sejam em meio protestante, sejam em meio católico.

A rigidez de ritualismos desconectados da realidade do povo, as exigências para que se obedeça certa norma moral para se ter acesso aos sacramentos, a condenação constante de membros que questionam os ensinamentos de padres, pastores e pastoras de sua comunidade a respeito da compreensão das escrituras, a pregação de um evangelho que se preocupa somente com uma vida espiritual, desconectada das realidades sociais no qual se está, que não mata a fome dos famintos, que não dá abrigo aos desabrigados, que não conforta o coração ferido, que não chora com os que choram, mostram-se como reflexo do anúncio de um evangelho que não é boa nova para quem o recebe e que não traz vida nem libertação para quem o ouve, antes, afunda a todo/a ouvinte em uma condenação sem fim, transformando essas pessoas em meras cumpridoras de ritualismos para recebimento do galardão na volta de Cristo.

Perde-se com isso, uma das características principais do anúncio do Evangelho, conforme anunciado por Jesus, que é a transformação da realidade social, de maneira que não haja fome ou miséria na sociedade onde essa boa nova (de que Deus se importa com as realidades dos/as marginalizados/as deste mundo) chega. Da mesma forma, esse evangelho que não é boa nova alia-se ao poder dominante a fim de angariar para si mais poder, trazendo morte por meio de discursos discriminatórios e ações contra o ser humano e a própria natureza.

O Evangelho de Jesus, conforme narrado nos Evangelhos, sempre foi uma mensagem de transformação social que começa a partir do encontro com o Ressuscitado, de maneira que é inconcebível anunciar o evangelho de Jesus Cristo e apoiar ações que promovam a morte da natureza, de indígenas, negros, quilombolas, LGBTQI+, e tantos outros grupos minoritários existentes tanto em nosso país quanto no restante do mundo.

A pergunta que fica é: qual evangelho temos apoiado e anunciado em dias atuais?

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE) e Doctor in Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven). E-mail: fveliq@gmail.com

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