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15/01/2019 | domtotal.com

O renascimento de True Detective

O expurgo (merecido) parece ter feito bem para o programa.

Após um hiato de quatro anos, é uma alegria vê-la retornar tão vigorosa quanto foi na primeira rodada.
Após um hiato de quatro anos, é uma alegria vê-la retornar tão vigorosa quanto foi na primeira rodada. (Warrick Page/HBO)

Por Alexis Parrot*

Conte-me uma história.

Neste século, e momento, de febre,
Conte-me uma história.

Que seja uma história de grandes distâncias, e resplandecer.

O nome da história será O Tempo,
Mas não ouse pronunciar este nome.

Conte-me uma história de intenso prazer.

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O poema de Robert Penn Warren (1905-1989), declamado de passagem no primeiro episódio, é uma das principais pistas para entendermos sobre o que é de fato a terceira temporada de True Detective, recém estreada na HBO.

Série sensação no lançamento em 2014, decepcionou com um segundo ano medíocre e sumiu do mapa. Após um hiato de quatro anos, é uma alegria vê-la retornar tão vigorosa quanto foi na primeira rodada. O expurgo (merecido) parece ter feito bem para o programa, a julgar pelos dois primeiros capítulos exibidos no último domingo.

É na verdade uma minissérie com começo, meio e fim; trabalha com trama e personagens diferentes de temporada para temporada - e por isso "capítulos" caem melhor que "episódios" para definir cada uma das oito partes que compõem a narrativa. A escolha pelo formato de antologia (como é o de Fargo e American Horror History, por exemplo) traz vantagens e desvantagens.

Se do primeiro ano para o segundo foi dureza descobrir que não acompanharíamos mais a vida e as discussões dos policiais vividos por Matthew McConaughey e Woody Harrelson, agora é um alívio saber de antemão que nunca mais teremos que ver Colin Farrell ou Vince Vaughn em um dos maiores erros de casting da história recente da televisão - um dos muitos pecados cometidos na segunda temporada do programa.

Dessa vez, quem brilha é Mahershala Ali. O ator confirma em cada frame deste True Detective o Oscar de coadjuvante, recebido por Moonlight - Sob a Luz do Luar, em 2017. E também o próximo, que deve ganhar este ano por Green Book - O Guia (estreia no próximo dia 24 e é imperdível; uma das melhores coisas que você vai assistir em 2019).    

O desafio é tremendo. Encarnar um personagem em três fases da vida e mostrar o efeito do tempo sobre ele, com tudo que isso pode trazer de bom e de assustador para qualquer um. Da vida madura até à velhice, é uma caminhada e tanto... Neste caso, felizmente, a maquiagem é acessória; o que traz verossimilhança ao papel é a atuação de Ali no retrato impecável de um homem contido. Mas a fragilidade e o tormento também estão lá, subterrâneos.    

No inicio, alguns podem torcer o nariz e dizer: lá vem mais uma dessas histórias com idas e vindas no tempo (modinha que tem no meloso This is Us seu principal avatar). Se este seria um motivo para você desistir de cara da série, meu conselho é: segure as pontas e deixe o barco correr mais um pouco.

Porque estas idas e vindas são a história.

Tudo é construído neste voleio e não se aproveitando dele. Não veremos certos elementos sendo escondidos para que se revelem (oh, surpresa!) apenas no próximo pulo temporal e sempre saberemos desde o início em que tempo aquele segmento da história está acontecendo. Sai de cena o truque de mágica de mafuá e entra um espantoso domínio de manipulação da narrativa. Palmas para Nick Pizzolatto (criador e roteirista solo da série).

Sim, há um crime - cuja não resolução assombra a vida do personagem de Ali, Wayne Hays, um detetive de polícia do interior do Arkansas, com algum problema com bebidas e veterano do Vietnan, onde serviu como rastreador. Suas qualidades de caçador não são o suficiente para evitar que se torne presa deste acontecimento; algo que o marca tão profundamente como a própria guerra. Em suas palavras, há ele antes e depois do crime.

E esta trama iremos acompanhar até que finalmente se resolva ou não (só saberemos disso com o caminhar dos capítulos), mas não importa - porque não é esta a discussão da série, o que a torna verdadeiramente interessante.

Como na poesia de Warren, é do tempo que estamos falando. E naquela que o acompanha lado a lado, a responsável por não nos perdermos enquanto sua força vai nos conduzindo vida afora: a memória.

A memória que o detetive já não tem na última fase da vida, em 2015, acometido por alguma doença que vai lhe privando das lembranças e, ainda assim, disposto a voltar ao caso célebre em uma série de entrevistas para um programa de televisão. Há coisas que ele não se lembra, mas das mais significativas, ele não quer se lembrar.

Por isso o velho recusa-se a ler o primeiro dos seis livros que a mulher, agora morta, escreveu ao longo da vida. Um romance baseado na história da investigação do crime, ocorrido em 1980 (certamente mais uma referência literária, ao clássico A Sangue Frio, de Truman Capote, também baseado em um crime real e ponta de lança do new journalism).   

E as lembranças de Hays também são postas à prova em 1990, quando o caso é reaberto. Nos deslocando para frente e para trás nesta timeline (mas sem nos perdermos em momento algum) iremos entender aos poucos o peso que este homem carrega nas costas, o peso da memória e o que significa perdê-la. Viver é poder se lembrar, afinal.

Convidado para um papel menor, Mahershala Ali insistiu até convencer Pizzolato a dar-lhe o protagonista que, inicialmente, não seria negro. Ao reimaginar o personagem assim, e trabalhando em colaboração próxima com o ator nesta reconstrução, o criador da série encontrou espaço para que questões relacionadas ao racismo e ao preconceito se apresentassem, ainda que não em primeiro plano.

São discussões importantes em qualquer tempo, mas sobretudo neste 2019 perigoso em que estamos vivendo - no Brasil e no mundo. Esta virada de rumo foi decisiva para que esta terceira temporada de True Detective se tornasse, além de excelente, indispensável.

TRUE DETECTIVE - Terceira temporada: domingos à meia noite, na HBO.)

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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