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16/01/2019 | domtotal.com

As notícias e os ângulos

A solidão e os encantos da internet a conduziram às redes sociais.

Depois de se aposentar, foi o quebra-cabeça numérico que a levou a usar o computador
Depois de se aposentar, foi o quebra-cabeça numérico que a levou a usar o computador (Pixabay)

Pablo Pires Fernandes*

É indescritível o prazer que Ângela sentia, todas as manhãs, ao abrir a porta de casa e recolher do alpendre aquele volume de folhas de papel impressas chamado jornal. Metódica, estendia o diário sobre a mesa e se dirigia à cozinha para passar o café – a essa altura, a água já fervia e o pó escuro aguardava-a no coador. À mesa, sorvia manchetes e café.

Gostava de ler o jornal sujando os dedos e, metódica, mantinha as folhas de papel em ângulo reto. Depois de quase 40 anos lecionando matemática, era inevitável fazer cálculos e projeções geométricas em relação à mesa de jacarandá – um retângulo ocupando outro retângulo – enquanto solucionava o sudoku do dia.

Depois de se aposentar, foi o quebra-cabeça numérico que a levou a usar o computador. Porém, a solidão e os encantos da internet a conduziram às redes sociais. Especulava sobre os algoritmos e passeava sobre as notícias, bem mais variadas do que as páginas que lia a 90 graus da borda da mesa.

Era janeiro e o azul sem nuvens no céu anunciava um calor ensurdecedor. O cardápio de notícias, farto e esdrúxulo, não lhe interessou naquele dia. Desta vez, chamaram-lhe a atenção os anúncios sobre alimentação, recorrentes em quase todos os sites que navegava – claro, estava ciente de ser consequência da pesquisa que fizera na véspera a respeito dos benefícios da aveia e da falácia histérica sobre a ingestão de glúten.

As imagens, todas devidamente patrocinadas, prometiam e promoviam o “seu” bem-estar. O alimento que seca barriga em três semanas, a fruta (exótica, de algum país pobre) capaz de regular o colesterol, a raiz da virilidade, o condimento do bom-humor.

Logicamente, Ângela duvidou. E passou a reparar nos anúncios que, análogos, maldiziam X ou Y: os 10 alimentos que consomem a sua energia, os vilões que você ingere no dia a dia, os perigos de se consumir este ou aquele produto.

As listas, infinitas, miravam milagres. Ângela, todavia, nunca acreditou em milagres. Sua paixão é Aristóteles, ou Euclides. Na sala de aula, gostava de contar o caso dos pitagóricos que, ao descobrir uma nova equação, promoviam festas regadas a muita música e vinho.

Ângela se lembrou das lições da professora Thaís, da poesia e do que ela lhe disse sobre a verdade. Aleteia é a palavra grega para verdade. As sílabas não lhe saíam da cabeça. Vasculhou gavetas em busca dos cadernos da faculdade, mas, sem sucesso, sucumbiu ao Google.

No território vasto da internet, constatou – consultava três fontes distintas – que o conceito se transformou radicalmente, já da Grécia para Roma. Não era o caso de investigar a evolução do sentido de verdade e as variações semânticas ao longo de 2 mil anos. Ateve-se ao conceito grego primordial. Naquela época, aleteia era desvelar, oposto ao esquecimento. No entanto, a palavra carregava potência, que se manifesta e se faz realidade, quase física. Simplesmente “é”. Naquele tempo, a expressão e a verdade eram indistintas. Como se diz, a palavra tinha peso. Depois veio a linguagem.

 Era janeiro e estava quente. Ângela demorou a pegar no sono e, antes do sonho, imaginou Sócrates lendo notícias na internet.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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