Religião

17/01/2019 | domtotal.com

'Ouvistes o que foi dito: Não matarás' (Mt 5,21)

O decreto que facilita a posse de armas e autoriza o ''cidadão de bem'' a comprar até 4 e mantê-las em ''local seguro'' reduzirá a violência?

Presidente, sua arma, uma caneta, deveria ser usada para assinar medidas para a redução da criminalidade. Porque não investir em geração de emprego e renda para os mais de 12 milhões de desempregados?
Presidente, sua arma, uma caneta, deveria ser usada para assinar medidas para a redução da criminalidade. Porque não investir em geração de emprego e renda para os mais de 12 milhões de desempregados? (Lula Marques/ Fotos Públicas)

Por Élio Gasda*

Está permitido! A banalização da violência foi institucionalizada. Nos lares brasileiros, em lugar de livros e lírios, armas! "O povo decidiu por comprar armas e munições e nós não podemos negar o que o povo quis nesse momento", disse o presidente bélico ao cumprir sua promessa de armar a população. Contudo, em pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada em 31 de dezembro, 61% dos entrevistados consideram que a posse de armas de fogo deve ser proibida por representar ameaça à vida de outras pessoas. Não só. No mundo cerca de 800 mil pessoas se matam por ano. Nos Estados Unidos são 22 mil, desses, mil são crianças e adolescentes. Armas de fogo são usadas em metade dos suicídios. No Brasil, essa taxa está em 8,4%.

Uma pergunta à banalidade: O decreto que facilita a posse de armas e autoriza o “cidadão de bem” a comprar até 4 e mantê-las em “local seguro” reduzirá a violência? O país convive há anos com altos índices de violência: 61.619 pessoas foram assassinadas em 2016 (11º Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública-2017): 168 por dia, sete por hora. Um em cada dez assassinatos cometidos no mundo acontecem em território brasileiro. Mas, “o Brasil precisa de menos pesquisa em segurança e mais armamento”, afirmou o ex-Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, hoje ministro do STF.

Armamento tornou-se prioridade. O presidente, crítico ao Estatuto de Desarmamento, ao assinar o decreto afirmou: "Como o povo soberanamente decidiu por ocasião do referendo de 2005, para lhes garantir esse legítimo direito à defesa, eu como presidente vou usar essa arma" (uma caneta). Presidente, sua arma, uma caneta, deveria ser usada para assinar medidas para a redução da criminalidade. Porque não investir em geração de emprego e renda para os mais de 12 milhões de desempregados? Mas não, a caneta foi usada para acabar com o Ministério do Trabalho. Poderia utiliza-la para criar projetos educacionais e culturais, garantir a posse de saneamento básico e saúde para as periferias. Mas não, na sua primeira entrevista criticou recurso destinado a atividades em comunidades pacificadas. Sem falar na extinção do ministério da cultura e na perseguição aos professores.

A Campanha de Desarmamento, que previa o pagamento de indenização às pessoas que entregassem suas armas de fogo sem registro à Polícia Federal, tirou de circulação 570 mil armas entre 2004 e 2011. Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea, em 2015, demonstrou que a aprovação do Estatuto pode ter poupado a vida de 121 mil pessoas naquele período. Para chegar a essa conclusão, ele comparou o número de assassinatos a cada 100 mil habitantes, nos períodos anterior e posterior à aprovação da lei. Entre 1995 e 2003, essa taxa cresceu 21,4%. Já entre 2004 e 2012, o crescimento foi de apenas 0,3%. O pesquisador concluiu que 1% a mais de armas faz aumentar a taxa de homicídio em 2%.

A questão é séria e deve ser debatida com seriedade. Problemas complexos não podem ser solucionados com autoritarismo irresponsável. Não vamos discutir aqui as novas regras. Apenas lembrar que a presença de arma de fogo no cotidiano do brasileiro como forma de proteção, é ilusão. São muitos os acidentes envolvendo crianças. Seu vizinho, o dono do mercadinho, da padaria que seu filho(a) frequenta, poderá se armar! A qualquer momento um tiroteio pode começar do seu lado. “Bala” não diferencia bandido do cidadão de bem, não respeita janelas e nem faz curva. Se tiverem uma arma, homens machistas e violentos vão usar. A maioria dos feminicídios acontece dentro de casa. Armar a população não é solução. Pelo contrário, o Estado deixa de cumprir seu papel e se rende ao lobby das indústrias de armas. A maior beneficiada com o decreto é a Taurus.

“Ouvistes o que foi dito: Não matarás” (Mt 5,21). Temos um presidente que despreza a Lei de Deus? Apoiar o armamento é negar a fé. Nenhum cristão em consciência deveria usar arma de fogo e aplaudir decretos iníquos. “O que é exaltado aos olhos do mundo é uma abominação aos olhos de Deus” (Lc 16,15). Jesus continua sendo assassinado todos os dias. São tantas Marias, Marielles, Reginaldos, Andersons, Josés, Rosas... Quem substitui o Deus do amor e da paz pelo Deus da violência não é discípulo de Jesus. Que evangelho você segue? O que diz: “Um mandamento vos dou: amai uns aos outros como eu vos amei. Nisto reconheceram que vocês são meus discípulos” (Jo13,34) ou o do presidente?

Armas? Nem de brinquedo. O diabo confunde. Mente. É homicida. “Que ninguém vos engane. Muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu o Messias. E enganarão a muitos” (Mt 24,4). Arma é coisa diabólica. E “o diabo, pai da mentira, foi homicida desde o princípio. Não há verdade nele” (Jo 8, 44).

“Queremos a paz? Então vamos banir as armas para não ter que viver no medo da guerra” (Papa Francisco).

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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