Religião

18/01/2019 | domtotal.com

À religião o que é da religião; à ciência o que é da ciência

Há uma pretensão messiânica nos movimentos pentecostal e neopentecostal, que aspira uma capilaridade semelhante à do catolicismo, durante a Cristandade.

A ministra Damares, no exercício de sua função pastoral, criticou que a teoria da evolução tenha chegado às escolas, ocupando o lugar que deveria ser do criacionismo.
A ministra Damares, no exercício de sua função pastoral, criticou que a teoria da evolução tenha chegado às escolas, ocupando o lugar que deveria ser do criacionismo. (Valter Campanato/ Ag. Brasil)

Por Teófilo da Silva*

Há conversas que, aparentemente, não devem nunca sair da pauta. Um cansaço intelectual, no entanto, abate-se diante de questões que já deveríamos dar por encerradas, mas que, graças à incompreensão de quem não é alcançado por um pensamento crítico, precisam constantemente ser repetidas. Caso aprendêssemos, de fato, com a história, não haveríamos de reviver tantas incompreensões a respeito de temas e situações que já deveriam estar muito bem esclarecidos. Um destes temas, sem dúvidas, é o falso conflito entre religião e ciência.

É preciso compreender que, por longos séculos, o paradigma de compreensão da realidade era teocêntrico, o que pressupunha um longo alcance da influência e do poder do cristianismo institucional. Nesse ambiente, dentro da consciência possível, é compreensível que um indispor entre a religião influente e a perspectiva científica, que colocava em xeque a visão de mundo – esta, tutelada pela instituição religiosa –, pudesse se dar. Mesmo nesse ambiente, tutelado pelo poder institucional da religião, vale ressaltar a liberdade de pensamento que as universidades medievais – controladas pela Cristandade – possibilitava nos seus entremuros.

A modernidade contribuiu, eficazmente, para que a religião desocupasse um lugar que talvez não devesse ter ocupado, socialmente falando. Dentro de uma nova consciência possível, o paradigma, nesse contexto, era outro: já não era a imagem de Deus, subentendida pela Cristandade, o centro de compreensão das realidades todas. O paradigma a reger o espírito da modernidade foi o antropocêntrico. Isso tornou possível uma autonomia do pensamento e esclareceu, pelo menos epistemologicamente, o estatuto próprio das ciências e o da religião, por exemplo.

O protestantismo, nascido junto ao surgimento das ciências modernas, soube acompanhar bem as transformações socioculturais pelas quais passava o Ocidente, não cedendo aos mesmos vícios institucionais, no tocante à dimensão político-social, assumidos pelo catolicismo. O movimento evangélico pentecostal e neopentecostal, no entanto, bem mais recente historicamente, não aprendeu com a história do protestantismo – tampouco com todo o rico arcabouço teológico –, da qual é ramificação, e tem nos trazido a constantes conflitos e confusões, a respeito do lugar que a religião deva ocupar na sociedade (um exemplo clássico, disso, é a permanente e irracional disputa entre criacionistas e evolucionistas, nos Estados Unidos).

Há uma pretensão messiânica nos movimentos pentecostal e neopentecostal, que aspira uma capilaridade semelhante à do catolicismo, durante a Cristandade. A situação atual é alarmante, dada a consciência possível, em nosso tempo, muito mais alargada do que era no período medieval. É estarrecedor que, em pleno século XXI, o fundamentalismo religioso tenha chegado ao poder, em nosso país – ocasião em que twittes de um pastor fundamentalista tenha influências em nomeações e decisões do governo. Essa chegada ao poder é um projeto político que tem se mostrado bastante eficaz e igualmente nocivo ao desenvolvimento humano do país, que pressupõe valorização das diferenças e igualdade de direitos para todos os extratos e expressões sociais.

A ministra das Mulheres, Família e Direitos Humanos, no atual governo, é uma pastora evangélica. A profissão de fé de Damares Alves não deveria, jamais, ser impedimento para que ocupasse o cargo que ocupa. No entanto, tal como temos percebido, a compreensão da própria fé que a ministra possui, tem afetado pontualmente seu exercício num cargo público, o que traz malefícios para milhares de cidadãos e cidadãs que não comungam com a mesma visão de mundo da ministra. Ela tem sido protagonista de uma série de situações constrangedoras, para quem tem o mínimo de senso crítico da realidade, inclusive em meio ao mesmo universo religioso. Trata-se, não há dúvidas, de cortina de fumaça para o desmonte do Estado, principal missão do atual governo, que vai se articulando por detrás das manifestações político-religiosas de Damares.

Mesmo se tratando de cortina de fumaça, para tirar o foco daquilo que realmente significam as pretensões do atual governo, o debate da relação entre religião e coisa pública, não deve nos passar despercebidos. A partir de sua visão de mundo, nascida na particularidade de sua crença, a ministra Damares, no exercício de sua função pastoral – pastoral, repito! –, criticou que a teoria da evolução tenha chegado às escolas, ocupando o lugar que deveria ser do criacionismo. Essa fala foi recuperada, recentemente, por ocasião do lugar que ocupa no cenário político brasileiro. E isso nos coloca às voltas com aquela antiga discussão a respeito da relação entre religião e ciência.

À religião o que é da religião; à ciência o que é da ciência. Essa compreensão, bem entendida, leva-nos à superação do falso e improducente conflito entre os dois lugares de fala. A essa compreensão se dedica o esforço de nossos colabores, na proposição dos artigos que compõem este Dom Especial. Partindo da perspectiva religiosa, papel que nos cabe neste editorial de religião do portal Dom Total, chamamos à reflexão a respeito de que a vivência e compreensão religiosas, nos seus justos lugares próprios que ocupam na vida das pessoas, não estão ameaçadas pelo pensamento científico, tal como nos faz intuir o pensamento professado por Damares Alves e, com ela, um sem número de pessoas.

O fundamentalismo religioso, ao contrário, este sim traz consequências graves para a compreensão do mundo e da sociedade. Esse fundamentalismo, como visão de mundo de pessoas que lidam com a coisa pública, além de lançar ainda mais ao longe a laicidade do Estado, propicia consequências desumanizantes e, inclusive, a morte, para milhares e milhares de cidadãos e cidadãs. As pessoas que buscam viver a fé, com a real consciência do que isso implica para o bem-viver, pessoal, comunitário e social, não podem deixar de lutar contra a tentação do fundamentalismo, que provoca falsos conflitos e más compreensões.

Daniel Couto, no artigo A pedra fundamental da ignorância, ajuda-nos a refletir melhor a respeito do fundamentalismo, alertando-nos para os seus perigos e consequências. Esclarecendo, por meio de argumentos sólidos, o falso dilema entre religião e ciência, César Thiago Alves nos propõe o artigo Ciência e Religião: entre o saber e o crer, no qual aponta três passos para uma profícua relação entre elas. E, já que esta confusão atual se pauta numa compreensão equivocada do que seja o cristianismo, Antônio Ronaldo Nogueira traz à discussão a figura de Jesus e o seu Evangelho, no artigo Ai de vós, em que reflete, teologicamente, a negação do Cristo a uma postura fundamentalista.

Boa leitura!

*Teófilo da Silva é teólogo e poeta.

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