Religião

18/01/2019 | domtotal.com

A pedra fundamental da ignorância

O fundamentalismo é uma poderosa arma de opressão e repressão, tendo na sua vertente religiosa uma das maiores forças de convencimento das massas.

''O fundamentalismo representa a atitude daquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista.''
(Leonardo Boff)
''O fundamentalismo representa a atitude daquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista.'' (Leonardo Boff) (Johannes W/ Unsplash)

“O fundamentalismo representa a atitude daquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista.”
(Leonardo Boff)

Por Daniel Couto*

Os seres humanos percorrem caminhos diversos na busca pelo conhecimento, utilizando-se das múltiplas ferramentas cognitivas desenvolvidas em milhares de anos de evolução. Nossa espécie se distingue dos outros animais principalmente pela capacidade de usar o nosso cérebro para criar narrativas sobre o funcionamento do mundo, sobre as nossas relações e sobre os “objetos transcendentes”. Todo o nosso desenvolvimento científico é fruto de uma perspectiva essencialmente humana de “leitura e decodificação da natureza”. Enquanto os métodos técnicos-matemáticos se tornaram os modelos “basilares” das ciências físicas, outros campos do saber, como a filosofia, a história, a teologia e a sociologia, construíram o seu tesouro teórico-argumentativo a partir da linguagem e da análise de fatos, documentos e vestígios arqueológicos. Porém, da mesma maneira que um teorema matemático precisa do assentimento às regras básicas da matemática, os outros campos da investigação humana são sistematizados a partir de pressupostos determinados pelos estudiosos como alicerces do conhecimento.

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A diferença crucial entre os campos exatos da ciência física e a maleabilidade das ciências humanas, está no fato de que tais fundamentos podem ser questionados, estudados, ressignificados e reinterpretados, trazendo para o centro das investigações o próprio ser humano, em suas múltiplas dimensões e nas suas contradições latentes. É pela possibilidade da pluralidade que as ciências humanas existem, encontrando discursos/narrativas, das mais variadas formas, com graus de sutileza e complexidade que variam de acordo com o problema enfrentado, mas que constituem um saber estruturado pelo próprio método científico/investigativo. A variedade de fontes e o grande número de cientistas que buscam compreender as sendas da existência humana, caracteriza as ciências humanas como o lugar de combate ao fundamentalismo.

Encontramos na filosofia um número considerável de pensadoras (e pensadores) que desenvolveram teorias filosóficas distintas, muitas vezes contraditórias umas com as outras, mas que, em sua narrativa interna e no encadeamento da sua “explicação para o ser humano e seus dilemas”, apresentaram contribuições significativas para o “avanço”1 da humanidade. Ao aceitarmos uma perspectiva racionalista do conhecimento, ao mesmo tempo em que acreditamos na experimentação empírica para justificar nossas crenças, estamos conciliando um número incontável de pressupostos que são “incompatíveis” entre tais correntes filosóficas. A disposição filosófica funda-se na capacidade de analisar o mundo sob diversos prismas, encontrar as respostas possíveis para cada experiência existencial e sistematizá-las com o uso da razão – perícia exclusivamente do ser humano.

Tal experiência de abertura que apoia a filosofia, também é encontrada na teologia e na política como uma necessidade de compreender que a pluralidade fomenta e possibilita o próprio exercício de tais disciplinas. Discursos fechados em suas próprias referências, que excluem as outras manifestações humanas2 sobre a mesma questão, não são uma busca pelo conhecimento, mas a afirmação daquilo que já se presume saber. É essa postura fundamentalista que, longe de ser uma defesa dos valores que um indivíduo julga ser importante, se estabelece como a “pedra fundamental da ignorância”.

A ignorância não é uma postura necessariamente daqueles que não conhecem, mas é encontrada, em número exorbitante, nos que se dizem “conhecedores” e defensores do seu “ponto de vista”3. Colocar-se como apologeta de suas convicções não é dar a elas um “caráter absoluto”, mas atribuir um estatuto de verdade a este conjunto de conhecimentos que fazem sentido para você e, provavelmente, para um grupo humano específico. Conhecer algo implica, também, em estar aberto aos questionamentos possíveis sobre aquela verdade, aos argumentos e fatos contrários e à revisão do seu arcabouço teórico para, se necessário, aderir a uma outra narrativa mais plausível. Porém, o que vemos nos fundamentalistas é um ataque a toda e qualquer oposição, argumento, fato ou demonstração contrária ao seu “conhecimento”. Desqualificar os opositores, bem como levar o debate científico para o campo da erística4 é a estratégia pela qual os fundamentalistas reforçam as suas convicções e se fecham, cada vez mais, no terreno da ignorância.

Fica claro, pois, que o fundamentalismo é um empecilho para o verdadeiro entendimento e, de certa maneira, para o conhecimento. Discursos baseados em suas próprias conjecturas, sem a interlocução com outros campos do saber e com as inúmeras críticas que podem refutá-los, não são considerados como ciência, e, desta maneira, se tornam ainda mais frágeis. Como estrutura de proteção, os fundamentalistas tendem a se isolar dos seus opositores, criando grupos de discussão onde os mentores e intelectuais referem-se apenas a si mesmos, ou investir contra os que são contrários a eles – muitas das vezes atacando-os e matando a resistência. Com o fundamentalismo o discurso sobre a diversidade dos seres humanos é rechaçado em busca de uma “pseudo-homogeneidade” do pensamento e da sociedade. Uma sociedade onde a diversidade não é tolerada busca, como lema, uma imagem patriota universal do “cidadão de bem”. Todos aqueles que não se adequam ao novo pensamento fundante, são tidos como inimigos da “ordem e da moral”.

O fundamentalismo é uma poderosa arma de opressão e repressão, tendo na sua vertente religiosa uma das maiores forças de convencimento das massas. Os fundamentalistas religiosos, para justificar sua “verdade universal”, atribuem a veracidade daquilo que dizem e fazem à “revelação divina”, pois deus é maior e mais poderoso que todos os homens. Por isso, nada que é fruto dos seres humanos pode ser levado em consideração no confronto com o discurso fundamentalista, pois “contra o divino nada pode o ser humano”. Enquanto a filosofia, a teologia, a sociologia e as demais ciências humanas, encontram no diálogo a força para a construção do saber, os fundamentalistas – que disseminam ignorância e submissão – apresentam discursos de fácil convencimento, levando às massas uma “resposta mágica” ineficaz, mas eloquente.

Vivemos em tempos – no Brasil e, também, em escala global – onde o fundamentalismo, travestido de “resgate às tradições”, tem tomado conta das instâncias governamentais, aliando os seus discursos à perspectiva religiosa e disseminando uma caça aos pensadores que se mantém na busca pelo conhecimento científico e plural. É um momento onde a única perspectiva aceita é a do “poder instaurado”, pois tudo aquilo que é para além ameaça – na mente fundamentalista – a sua interpretação verdadeira da “lei”. Ninguém mais pode chegar à verdade, e é preciso “livrar a nação dos inimigos”. Uma sociedade que exalta uma “verdade divina” acima de todas e um “falso nacionalismo impessoal” que exclui todas as diferenças caminha a passos largos para o fundamentalismo violento e higienista.

Notas

[1] Utilizamos o termo “avanço” propositalmente para significar uma “progressão da história humana”. Apesar de não acreditarmos que as contribuições das ciências exatas e humanas sejam um “progresso” para a humanidade, reconhecemos que tais resultados são condições sine qua non para o mundo no qual vivemos hoje.

[2] Ao utilizar a terminologia “manifestações humanas” estamos dizendo não somente dos estudos de humanidades, mas dos diversos outros saberes estruturados pelas culturas humanas que são dignos de espaço, consideração e estudo. Não há uma hierarquia de importância na “ciência dos homens”, o que se deve preservar, contudo, é o método de aproximação destes diversos saberes.

[3]O fundamentalismo e o trabalho das mídias possuem uma relação importante. Segundo Jessé Souza: “O trabalho de distorção da realidade realizado pela mídia foi extremamente facilitado pelo trabalho prévio de intelectuais que forjaram a visão dominante, até hoje, da sociedade brasileira. (...) A mídia não produz conhecimento. Ela apenas distribui e eventualmente, como no nosso caso, em um contexto de total desregulação do trabalho midiático, enfatiza alguns aspectos e encobre outros tantos de acordo com seus objetivos comerciais e políticos. (p.15-17)

[4] A erística é uma espécie de disputa oral/textual onde o objetivo não é apresentar argumentos plausíveis para convencer o auditório da veracidade do seu discurso, mas vencer o outro através de estratégias “retóricas”. O adversário não é reconhecido como “possível conhecedor”, mas um inimigo que precisa ser “derrotado”. Em uma disputa erística, uma síntese dos argumentos jamais é possível.

Referências:

BOFF, Leonardo. Fundamentalismo: a globalização e o futuro da humanidade. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.

HARARI, Yuval Noah. Sapiens – Uma breve história da humanidade. Trad. Janaína Marcoantonio. Porto Alegre: L&PM, 2018.

SOUZA, Robson Sávio Reis; PENZIN, Adriana Maria Brandão; ALVES, Claudemir Francisco. Democracia em crise: o Brasil contemporâneo. Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2017. (Coleção Cadernos Temáticos do NESP;7)

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à lava jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017

*Daniel Couto é mestrando em filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), com pesquisas na área de filosofia antiga, retórica grega, filosofia aristotélica e recepção da filosofia antiga. Trabalha ainda com a Liturgia, a Ritualidade Cristã, a Cerimonialidade e a Teologia Litúrgica.

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