Religião

18/01/2019 | domtotal.com

Ciências e religião: entre o saber e o crer

Considerar os avanços científicos é uma tarefa fundamental das religiões que pode ajudá-las a compreender melhor o sagrado e sua profissão de fé.

Levar a sério os avanços científicos e o mistério apontado pelas religiões consiste numa tarefa irrenunciável para quem tem no seu horizonte a complexidade do cosmos e o que ele integra.
Levar a sério os avanços científicos e o mistério apontado pelas religiões consiste numa tarefa irrenunciável para quem tem no seu horizonte a complexidade do cosmos e o que ele integra. (Quentin Kemmel/ Unsplash)

Por César Thiago do Carmo Alves, FMI*

A discussão entre ciências e religião não é nova. Ela atravessa boa parte da história da humanidade. Indubitavelmente, consiste num debate importante, uma vez que o existir humano é complexo e, busca-se, paulatinamente, o entendimento de ser-no-mundo, como diria Martin Heidegger (1889-1976). O avanço do debate é, indiscutivelmente, frutuoso tanto para as ciências como para as religiões. Considerar os avanços científicos é uma tarefa fundamental das religiões que pode ajudá-las a compreender melhor o sagrado e sua profissão de fé. No entanto, curiosamente, o que se vem observando no caso brasileiro é que existe uma tendência por parte de determinados setores que querem preterir as ciências em detrimento tão somente da religião. Considerando que a verdade religiosa, segundo o entendimento desses grupos, é absoluta e não passível de ser questionada. As ciências consistem numa verdadeira ameaça à moral e aos bons costumes.

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A ministra Damares Alves que assume o ministério da mulher, da família e dos direitos humanos, tem protagonizado de forma apoteótica uma rejeição às diversas ciências. A afirmação de que “menino veste azul e menina veste rosa”, não tem presente de forma séria todas as reflexões acadêmicas que vem sendo feitas pelas diversas áreas do conhecimento, simplificando algo que é complexo. Após o episódio, as explicações da ministra, para quem bem entende do assunto, resultaram ainda mais em confusão e simplificação demonstrando que ela não compreende o suficiente do tema para poder abordá-lo de maneira cabal, permanecendo na superficialidade e empobrecendo a questão. Ou ainda, reclamar do avanço da teoria da evolução nas escolas em detrimento do criacionismo. E tantas outras barbaridades que seriam comédias se não fossem verdadeiras tragédias vindo da boca de uma ministra de Estado. Com isso se impõe a antiga, mas sempre nova pergunta: qual seria um caminho para uma profícua relação entre ciências e religião?

Três passos singelos serão apontados. Evidentemente, outros tantos poderiam ser privilegiados. Contudo, no breve espaço desse artigo não comporta uma descrição analítica mais detalhada. Eles serão apenas uma provocação para se pensar uma relação profícua entre ciências e religião.

O primeiro passo consiste no respeito ao Sitz-im-Leben (contexto vital) de cada uma delas. As ciências têm o seu lugar de fala, bem como as religiões. Todas as vezes quando uma quer furtar o lugar da outra, simplesmente se atrapalha, uma vez que os aportes teóricos são distintos. É preciso ter a clareza e a distinção postuladas por René Descartes (1596-1650).

O segundo passo é de se colocar na posição de escuta. As religiões necessitam ouvir as ciências e vice-versa. Na história ocidental, teve-se até mesmo execução de pessoas por parte da Igreja que eram cientistas por conta de que os postulados deles estariam contrariando a fé. Posteriormente descobriu-se que o cientista tinha razão. Isso é resultado de uma não escuta. Essa postura de escuta colabora e muito no caminho da experiência mais profunda, densa e intensa do Sagrado, a despeito de quem pensa que pelo contrário seria uma afronta negar o que está na Bíblia, desde a perspectiva de uma interpretação literalíssima e fundamentalista.

O terceiro passo consiste na posição de humildade e destemor de ambos os lados. Preterir as religiões tão somente em detrimento do avanço científico, ou as religiões preterirem as ciências por conta das verdades absolutas, segundo determinadas leituras feitas dos textos sagrados, é não levar a sério a complexidade do existir humano e do cosmos. É preciso se libertar, ainda e infelizmente, dos medos, por parte das pessoas religiosas, de se pensar que as ciências querem ocupar o lugar de Deus; e por parte da comunidade cientifica, de pensar que as religiões têm tão somente obscurantismos e dogmatismos. Afinal, religiões e ciências possuem, de algum modo, a partir do seu lugar, uma finalidade em comum: colaborar com a compreensão humana de estar no mundo bem como do próprio mundo.

As ciências e as religiões buscam oferecer respostas para a vida humana bem como de tudo o que a envolve, como por exemplo, a natureza. Por conta desse pressuposto, elas não são inimigas. Muito pelo contrário, são aliadas. Fazer guerra às ciências ou às religiões, mesmo que de forma velada, nada tem a contribuir. É perder a oportunidade de perceber a beleza que ambas oferecem para a humanidade que busca constantemente respostas para o sentido de ser-no-mundo. Levar a sério os avanços científicos, que vem desde os primórdios da humanidade, e ao mesmo tempo o mistério apontado pelas religiões, consiste numa tarefa irrenunciável para quem tem no seu horizonte a complexidade do cosmos e tudo o que ele integra.  As duas, aliadas, partindo dos três passos apontados, colaboram com uma visão mais holística do universo. Enfim, inspirando em Karl Rahner (1904-1894), poder-se-ia dizer que a relação entre ciências e religiões é, em última análise, a relação entre o que se sabe com o que se crê.

*César Thiago do Carmo Alves pertence à Congregação Religiosa dos Filhos de Maria Imaculada (Pavonianos). É doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.

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