Religião

18/01/2019 | domtotal.com

''Ai de vós...'' (Mt 23,13ss)

O fundamentalismo é algo mais comum do que parece e facilmente se pode cair nele.

O fundamentalismo em nada tem a ver com Jesus e com o Deus de Jesus.
O fundamentalismo em nada tem a ver com Jesus e com o Deus de Jesus. (Reprodução/ Pixabay)

Por Antônio Ronaldo Vieira Nogueira*

A invectiva que serve de título a essa reflexão foi pronunciada contra os fariseus e escribas, grupos com os quais Jesus se enfrentou e também sofreu forte oposição. Na perícope Mt 23,13-36, o Senhor os chama de hipócritas por suas atitudes de aparência muito religiosa, mas que acabavam por negar o mais fundamental de Deus: amor, direito, justiça, misericórdia e fidelidade. Uma dessas atitudes é, sem dúvida, a do fundamentalismo.

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Tal atitude é fortemente denunciada: “ai de vós escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dizimo da hortelã, da erva-doce e do cominho, e deixais de lado os ensinamentos mais importantes da Lei, como o direito, a misericórdia e a fidelidade. Isto é que deveríeis praticar, sem contudo deixar aquilo. Guias cegos! Filtrais o mosquito, mas engolis o camelo” (Mt 23,23-24). Percebe-se a inversão feita pelos grupos religiosos do tempo de Jesus: sacrificam o mais importante em nome de pequenas coisas, estas com aparência de cumprimento de preceito religioso.

Em muitas outras ocasiões Jesus se defrontou com questões parecidas apresentadas pelos escribas e fariseus, em sua cegueira religiosa. Parece-nos importante destacar ainda outra denúncia que Jesus faz da mesma atitude quando declaram como oferenda a Deus o que deveria servir de sustento aos pais (cf. Mt 15,3-6). Com isso, diz Jesus, o mandamento de Deus é anulado em nome de um falso colorido religioso de consagrar ao próprio Deus o que poderia ser sustento para os pais. A vida e a dignidade da pessoa, imagem de Deus (cf. Gn 1,27), é negada e massacrada e, o que é pior, em nome de Deus!

Tal atitude é incompatível e bastante nociva à fé, mas sempre presente, tanto no tempo de Jesus, como nos nossos tempos. O fundamentalismo é algo mais comum do que parece e facilmente se pode cair nele, pois se reveste de uma aparência religiosa inquestionável: se cumpre minunciosamente os preceitos e regras e, com isso, se está cumprindo a vontade de Deus. Seu praticante parece uma fortaleza inquebrantável, seguro em si mesmo e, aparentemente, sem nenhuma brecha de questionamento, pois está “amparado pelo cumprimento da lei, fazendo a vontade de Deus”. Assim, pode ficar de consciência tranquila, verdadeiramente anestesiada, pois já fez sua parte, já realizou o que Deus quer. Quem o questiona é considerado “blasfemo” (cf. Mt 26,65), “transgressor” (cf. Mc 2,24), “subversivo” (cf. Lc 23,2)... assim como Jesus!

O fundamentalismo em nada tem a ver com Jesus e com o Deus de Jesus. Por isso, qualquer atitude, mesmo a mais aparentemente religiosa, que nega vida, direitos e dignidade à pessoa, é algo que nega o próprio Deus (cf. Is 1,10-20). É preciso estar atento para não cair nas sorrateiras malhas do fundamentalismo. E, para isso, precisamos sempre nos defrontar com Jesus, para configurarmos nosso modo de ser e viver ao seu. O horizonte da vida de Jesus deve ser o nosso. É preciso, pois, com Jesus, superar as aparências do cumprimento da lei para ir mais além, para encontrar a vida e a dignidade das pessoas.

Nos evangelhos sempre encontramos Jesus em total sintonia com a vida humana concreta, mesmo que isso represente uma “transgressão da lei”: foi isso o que ele fez quando tocou no leproso quando a lei o proibia (cf. Mc 1,41), quando defendeu a mulher adúltera de ser apedrejada (cf. Jo 8,1-11) e, quando questionado sobre os discípulos que arrancam espigas em dia de sábado, lembrou a seus interlocutores que, em caso de necessidade, Davi tirou os pães do templo, comeu e deu a seus companheiros, e, por fim, declarou que o Filho do Homem é Senhor do Sábado (cf. Mc 1,23-28). Ele mesmo curava em dia de sábado, afinal “em dia de sábado, o que é permitido: fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou matar?” (Mc 3,4).

Essa pergunta de Jesus deve nos orientar na superação de todo e qualquer fundamentalismo: a vida e o bem são a lei maior para o discípulo. Toda e qualquer lei ou preceito, por mais religiosos que pareçam, se não estão subordinados a esse critério fundamental, são falsos, pois “religião pura e sem mancha diante de Deus é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas dificuldades e guardar-se livre da corrupção do mundo” (Tg 1,27).

*Antônio Ronaldo Vieira Nogueira é presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte-CE. Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) – Belo Horizonte-MG e professor de Teologia Sistemática da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) – Fortaleza-CE.

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