Brasil Cidades

20/01/2019 | domtotal.com

A maratona da vida

As conquistas mais diversas acontecem, assim como as perdas, maiores ou menores, em mais ou menos quantidade.

A imensa e única pista denominada vida, situa-se num planeta girando pelo espaço imensurável, onde vai aos poucos unindo os seus protagonistas, todos absolutamente da mesma raça que é a humana.
A imensa e única pista denominada vida, situa-se num planeta girando pelo espaço imensurável, onde vai aos poucos unindo os seus protagonistas, todos absolutamente da mesma raça que é a humana. (Pixabay)

Por Evaldo D' Assumpção*

A maratona é uma corrida de longa distância que tem ganhado adeptos em todo o mundo, entre homens e mulheres. Foi nos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna, em 1896, que ela entrou em sua programação. Esses jogos, praticados desde o ano 776 a.C. na cidade grega de Olímpia (daí o seu nome), consistiam em diversas competições atléticas disputadas entre cidades gregas. Chamados de Jogos Olímpicos da Antiguidade, foram disputados até o século V d. C. Posteriormente várias tentativas foram feitas para retomar esses jogos, entretanto sem sucesso duradouro. Em 1890, o Barão Pierre de Coubertin, pedagogo e historiador nascido em Paris, propôs a criação do COI – Comitê Olímpico Internacional, fazendo uma nova regulamentação dos jogos. Seis anos depois conseguiu promover, na Grécia, os primeiros jogos no seu novo formato. Deles participaram 241 atletas de 14 países, divididos em 9 modalidades esportivas. Em 2016, sediado no Brasil, foram 42 modalidades, com 10.500 atletas representando 206 países.

A maratona tem sua origem na lenda grega de Pheidíppides (Fidípides), que percorreu os 40 km de Maratona a Atenas, para anunciar a vitória das tropas gregas sobre os persas, no ano 490 a. C. Ali chegando, proclamou: “Vencemos a batalha!” e tombou morto, pelo esforço feito. Para homenageá-lo foi criada a corrida denominada maratona, que hoje se disputa em várias modalidades, sendo a clássica, de 42,195 km, geralmente em ruas e estradas, exigindo grande preparo dos competidores. O tempo gasto na mais recente competição, pelos vencedores masculinos, foi de 2h e 3m, e de 2h e 17m pelas mulheres.

Mas não precisamos ser atletas para participar dessa corrida, pois nossa vida já é uma autêntica maratona. Pensando assim, reflito sobe a minha própria vida como a longa maratona que venho percorrendo. Quem sabe isso possa ajudar aos que já percorreram um longo trajeto, tanto quanto aos que vêm superando distâncias pequenas ou médias, quase sempre sem se dar conta de que o destino final é o mesmo para todos. Seguimos o mesmo caminho, todavia cada um percebe-o como num mágico caleidoscópio que proporciona, aos seus participantes, uma variedade mágica de situações, obstáculos, dificuldades, tropeços, encontros e desencontros.

O sinal de partida acontece igualmente para todos, quando duas células se encontram na intimidade do útero materno, formando o zigoto. São múltiplos esses encontros, a maioria em diferentes úteros. Depois vem o parto, alguns naturais, outros cirúrgicos, seguindo-se um desenvolvimento que leva anos para nos trazer à vida adulta. Mas a imensa e única pista denominada vida, situa-se num planeta girando pelo espaço imensurável, onde vai aos poucos unindo os seus protagonistas, todos absolutamente da mesma raça que é a humana. Escolhemos nossas profissões, assumimos cargos diversos, alguns avançam mais, outros menos, uniões se fazem para gerar novos maratonistas, enquanto as páginas do calendário se desfolham, e os dias são avidamente devorados pelo insaciável Cronos. As conquistas mais diversas acontecem, assim como as perdas, maiores ou menores, em mais ou menos quantidade. Contudo, todos, independentemente de suas características pessoais e das diferentes funções exercidas, são igualmente importantes nessa fantástica maratona. Ninguém, absolutamente ninguém, é melhor nem mais importante, a não ser no medíocre julgamento dos soberbos, incapazes de reconhecer o real significado de cada participante.

Volto à minha própria maratona. Oito décadas são passadas, e já posso olhar para trás e ver o caminho percorrido, as dificuldades superadas, computando vitórias e derrotas, cada uma com critérios próprios de avalição. Contemplo alguns companheiros à minha frente, assim como aqueles que já foram retirados da jornada. Entre os que ainda continuam, vejo alguns limitados por diferentes motivos. O grande grupo que comigo iniciou a jornada, agora está bastante reduzido. Já não somos tantos, os que prosseguem. Alguns, ainda presos em sua auto imagem, esforçam-se para serem reconhecidos como atletas da vida; outros, sem o antigo vigor, estão até mesmo claudicantes; alguns poucos, são conduzidos em equipamentos de sustentação ou substituição. É o apanágio implacável da senectude. E assim, na maratona da vida, já vislumbro a linha de chegada. Não me refiro a metros ou quilômetros, a dias nem a anos, nem isso me importa, pois não sou pitonisa iluminada por Apolo, delineando o futuro que só a Deus pertence. Apenas reconheço, com a sensibilidade adquirida, o que acontece ao meu próprio corpo, à minha mente, tanto quanto a tudo que me cerca, balizando, com cristalina clareza, os sinais indicativos do fim da jornada. E de nada vale familiares e amigos repetirem exaustivamente: “Você está ótimo! Vai viver 100 anos!” Quem disse que o quero? Isso me incomoda terrivelmente, além de estimular aos que me são próximos, a cobrar atitudes, posturas e comportamentos joviais que não me interessam, nem deles ainda sou capaz. Melhor seria se, compreensivos e solidários, caminhassem ao meu lado sem pieguices, mas com paciência, tolerância e aceitação de uma realidade que é inevitável, e que será de todos, inclusive deles próprios, num futuro incerto. Afinal, meu corpo já nem sempre obedece meus comandos, pois chega um momento em que deixa de existir uma fina inter-relação entre cérebro e o restante do corpo. Músculos e articulações já não têm a mesma força e flexibilidade.  São muitos os limites que surgem, a revel de nossa vontade. Mas, apesar disso, contemplando todo o percurso percorrido na maratona da vida, com tudo o que foi conquistado, e tudo o que ainda poderei realizar, com certeza digo e direi sempre: valeu a pena, e como valeu! Nada a reclamar. Deo gratias!

* Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Outros Artigos

Não há artigos para exibir do dia 20/01/2019

Instituições Conveniadas