Mundo

22/01/2019 | domtotal.com

Rejeição e confraternização

Nessa situação drástica, John teve que voltar à casa dos pais e confessar tudo que acontecera.

John, seu filho, e seu companheiro, eram benvindos à casa a hora em que eles quisessem.
John, seu filho, e seu companheiro, eram benvindos à casa a hora em que eles quisessem. (Unsplash)

Por Lev Chaim*

Quando se fala em Holanda, muitos associam o país imediatamente a drogas, prostitutas seminuas nas janelas do bairro da luz vermelha de Amsterdã, entre outras coisas da modernidade, que nem sempre servem como um cartão de visita. Eu me pergunto: quantos de vocês já ouviram falar duma região da Holanda, que corta transversalmente o país pelo meio, vindo do nordeste e indo para o sudoeste, denominada de o “cinturão bíblico” do país?

Nesta região, os protestantes ortodoxos mandam e desmandam e ditam as normas do dia-a-dia para as cidades e aldeias que ali se encontram. Até parece que eles ainda vivem nos séculos passados, quando todas as normas e valores eram ditados literalmente pelas palavras da bíblia e pela interpretação que pastores protestantes daquelas igrejas dão para elas.

Na edição do jornal Trouw de 17 de janeiro, apareceu uma dessas histórias daquela região, do vilarejo de Elspeet, que tem 4.398 habitantes, na província holandesa de Gelderland. Quando John Kamphuis contou ao seu pastor protestante que era homossexual e tinha um companheiro, ele teve que fazer as malas e partir. John, que trabalhava junto à pastoral da igreja e morava numa das muitas casas da paróquia, teve também que buscar um novo trabalho.

Nessa situação drástica, John teve que voltar à casa dos pais e confessar tudo que acontecera. A mãe, Anneke Kamphuis, hoje com 70 anos e viúva, sem pensar duas vezes, disse ao filho que ele era bem vindo ali e que o seu companheiro também seria bem recebido. Uma atitude sem dúvida heroica, já que quase todo o vilarejo passaria a olhá-la de forma diferente e muitos até deixaram de cumprimentá-la. 

Apesar de tudo, Anneke Kamphuis concordou em dar uma longa entrevista ao jornal Trouw para contar os dramas que ocorreram em sua família. A única exigência que fez ao fotógrafo do jornal foi que fizesse fotos dela de perfil e não de frente. E ali está ela conversando com o filho, vestida de preto de cima abaixo, enquanto jogam uma partida de um tradicional jogo holandês, Sjoelen, em que tentam atirar e encaixar as rodelas de madeira nas entradas certas e fazer o máximo de pontos possível.  

Anneke contou também na entrevista que ela adquiriu forças para aceitar realmente o filho como ele era, após ter ouvido uma reza do pastor que dizia: “O Senhor havia vindo para as prostitutas e para os coletores de impostos”.  Para ela foi como se alguém tivesse aberto a sua cabeça e dito: o seu filho e o amigo dele também são amados pelo Senhor! Naquele mesmo domingo, ela quebrou a regra do descanso do dia do Senhor e chamou o filho pelo telefone. Sem restrições mais. Não que estivesse comparando o homossexual às prostitutas e coletores de impostos, mas porque com aquelas palavras ela descobriu que Jesus havia vindo para dar amor a todos, sem exceção, explicou ela ao jornalista da entrevista.

Essa sua atitude firme foi muito bem entendida pelo filho e seu companheiro. No enterro do pai, entre os que carregaram o caixão da igreja para a sua última morada, o cemitério, estavam todos seus filhos, inclusive John e seu companheiro. Com este gesto, ela deu um recado ao vilarejo todo que a olhava de olhos enviesados: John, seu filho, e seu companheiro, eram benvindos à casa a hora em que eles quisessem. E ponto final. E tudo isto acontecendo na tão decantada e moderna Holanda: as contradições do mundo moderno ou a tolerância da intolerância?

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras para o Domtotal.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas