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28/01/2019 | domtotal.com

Por que vou de trem

Ah, meus caros amigos e minhas amantíssimas amigas, sinto contrariar os contrários, mas a minha preferência para o trajeto BH-Vitória é mesmo o trem.

É por isso tudo que eu vou de trem.
É por isso tudo que eu vou de trem. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Ouvi num programa de rádio – e também li não sei onde - críticas ao trem de passageiros da Vale que todo dia faz o percurso BH-Vitória, Vitória-BH, com média diária de duas mil pessoas. Critica-se o serviço de bordo, que realmente não é grande coisa. É verdade que os pratos servidos em marmitas, a preços razoáveis, não são lá de primeiríssima qualidade. É verdade que não dá pra tomar uma cervejinha durante a viagem, porque no trem não se vende bebida alcoólica. Também é verdade que o cardápio da lanchonete não oferece opções capazes de atender a paladares muito exigentes.

Se tudo isso é verdade, por que diabos prefiro eu pegar esse trem quando tenho de viajar no rumo do Espírito Santo, via terrestre?

Paro em três estações para expor meus argumentos.

Na estação primeira eu falo dos pratos que são servidos no percurso. Você pode escolher um escondidinho, um estrogonofe, um feijão com arroz, bife e macarrão. Reconheço que não são de alta qualidade ou supremo sabor. Mas você pode também sentar-se numa mesa do carro-lanchonete e pedir um sanduíche ou pães de queijo – estes sim, muito bons.

Na minha segunda parada em defesa do trem eu digo que a bebida alcoólica não faz falta por um dia, a não ser no caso dos alcoólatras, impedidos que são de tomar a tal cervejinha durante a viagem. Mas um dia de abstinência não lhes fará tão mal assim.

Na terceira estação eu paro pra lembrar que este é o único trem de passageiros a ligar capitais no Brasil. Penso que deveríamos ter outros, muitos outros, mas para isso era preciso que tivéssemos governos, o que é outra história. Lamento apenas o fato de que só estão disponíveis dois carros da classe executiva, e a econômica é um pouco menos confortável.

Ah, meus caros amigos e minhas amantíssimas amigas, sinto contrariar os contrários, mas a minha preferência para o trajeto BH-Vitória é mesmo o trem. Não me atraem nem um pouco os dois outros meios de transporte disponíveis para se chegar por terra ao Espírito Santo - ou a uma das cidades do percurso. Automóvel, nem pensar. E ônibus, também descarto.

Se você estiver disposto a enfrentar algumas horas de tensão e medo, vá de automóvel. Enfrente com denodo e altiva coragem os perigos oferecidos a cada minuto pelos muitos motoristas que costumam dirigir acima dos limites da imprudência. Exiba sua intrepidez ao volante quando se vir exposto às ultrapassagens perigosas ou ao passar pelas curvas traiçoeiras de uma estrada que há anos deveria estar duplicada. Rezo para que a viagem não troque o seu destino pelo reino dos céus.

Você precisará também de uma boa dose de coragem se embarcar num ônibus, que irá levar você pela estrada conhecida como rodovia da morte, sem serviço de bordo e sem garantia de uma viagem realmente segura.

É por isso tudo que eu vou de trem.

Deslizando suavemente pela linha de ferro, chego a Conselheiro Pena, onde minha filha me pega para completar, de carro, a viagem até Goiabeira. Tem 45 quilômetros a estrada que leva a essa cidadezinha acolhedora que, pelo menos na visão infantil da ministra, tem o nome da árvore de Jesus. 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

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